Escutas da Operação Aquarela atingem Joaquim Roriz

Senador conversa com o ex-presidente do Banco de Brasília, preso no esquema

Agencia Estado

25 Junho 2007 | 15h55

A Operação Aquarela, da Polícia Civil de Brasília, pegou em cheio o senador Joaquim Roriz (PMDB-DF), flagrado em escutas telefônicas com Tarcísio Franklin de Moura, que presidiu o Banco de Brasília (BRB) de 1999 a abril deste ano. Tarcísio está preso desde a semana passada, sob suspeita de comandar um esquema de desvio de dinheiro de cartões de crédito que chega a R$ 50 milhões. Na operação, foram presas 19 pessoas em Brasília e São Paulo. As gravações, todas feitas no dia 13 de março, capturaram diálogos reveladores entre o senador Joaquim Roriz e Tarcísio. Numa das conversas, Tarcísio liga para o gabinete do senador Roriz. A gravação exibida pela revista Época mostra o seguinte diálogo: - Tarcísio diz: "Eu poderia falar com o senador? É Tarcísio". - Alguém responde: "Só um minutinho, por gentileza". - Tarcísio: "Alô, oi senador. Posso sugerir um negócio?". - Roriz: "Pode". - Tarcísio: "Por que a gente não leva lá para o escritório do Nenê?". - Roriz: "É pra isso mesmo" - Tarcísio: "E de lá sai cada um com o seu". - Roriz: "Ah, então tá ótimo. Nós pensamos a mesma coisa". Noutra conversa, Tarcísio fala para um homem não identificado que está combinando com Roriz de encontrar-se "no escritório do Nenê Constantino" (presidente do Conselho de Administração da Gol e dono de empresas de ônibus de Brasília). Tarcísio também menciona que o que eles têm que pegar não cabe em um carro. No mesmo dia, relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), do Ministério da Fazenda, revela uma movimentação referente a um cheque em nome de uma empresa agrícola supostamente para Nenê Constantino. Há um saque no BRB de R$ 2,231 milhões, coberto por um cheque em nome de uma empresa do ramo agropecuário, que seria nominal a Constantino. Procurada pelo Estado, a assessoria de Constantino informou que ele nunca teve conta no BRB nem jamais entregou cheque de R$ 2 milhões a Roriz. O senador Roriz não respondeu ao Estado. De acordo com a Época, a assessoria do senador informou que Roriz estava apertado e pediu um empréstimo de R$ 300 mil a Constantino para comprar parte de uma bezerra nelore da Universidade de Marília. A assessoria de Constantino confirmou a versão. E disse que o empréstimo está documentado com notas promissórias e um contrato. Carta comprometedora Todas as apurações foram remetidas à Procuradoria-Geral da República para eventuais investigações contra Roriz, que por ser senador, tem foro privilegiado. As gravações registram a conversa de Roriz com Tarcísio Franklin foram gravados em março, com autorização judicial, quando o primeiro já assumira o cargo de senador. Mas as escutas começaram muito antes. Não são, porém, a única peça a incriminar Roriz. Também foi apreendida uma carta do publicitário Maurício Cavalcanti, endereçada ao então governador Roriz, em que ameaça contar tudo o que sabe sobre irregularidades no governo do Distrito Federal. Cavalcanti é o dono da Agência Gimenez, que na gestão de Tarcísio Franklin tinha a conta publicitário do BRB, considerada o grande filão do setor. O que a carta indica é que muitas outras operações irregulares foram feitas por intermédio dessa agência. A carta descobre o véu de irregularidades cometidas no governo Roriz. Segundo o Estado apurou, enquanto Roriz acreditava que elegeria sua sucessora a vice Maria de Lourdes Abadia, ele levou Cavalcanti a comprar parte na sociedade do jornal Tribuna do Brasil, folha popular fundada pelo ex-senador por Rondônia Mário Calixto (PMDB). Depois que Calixto vendeu o título, o grupo que adquiriu o jornal ficou sem fôlego para levá-lo adiante. Roriz pretendia dar mais oxigênio ao jornal, com publicidade oficial. Chegou a dar essa garantia a Cavalcanti. como o compromisso do governo Roriz com o publicitário em algum momento deixou de ser cumprido, este passou a cobrá-lo insistentemente, até produzir a carta em que ameaça contar tudo o que sabe.

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