Erros na Previdência

Ganhar a guerra da comunicação é o primeiro passo para aprovar a reforma

João Domingos, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2017 | 03h00

Agora que a reforma da Previdência parece ter voltado com tudo à agenda política, não custa lembrar uma série de erros cometidos nos últimos meses pelo governo Michel Temer e pelos que a defendem. Erros tão óbvios que às vezes custa a acreditar que alguns foram cometidos por Temer, a quem não se nega um profundo conhecimento da forma como o Congresso funciona. 

Quem sabe agora, que o tema volta a ganhar força, tais erros sejam evitados, mesmo que o projeto contemple uma reforma muito mais enxuta. 

Para lembrar alguns dos erros. O governo anunciou que faria a reforma da Previdência da forma mais seca possível, sem nenhuma preocupação com a possibilidade de ganhar a torcida da sociedade nem o voto de centenas de parlamentares que, por serem ligados ao funcionalismo público ou aos aposentados, tenderiam a lutar contra a reforma. Não fez, por exemplo, uma campanha publicitária destinada a expor os privilégios da Previdência pública em relação ao INSS, a Previdência do povão. 

Os contrários à reforma, que comandam corporações fortes do serviço público, não tiveram dificuldades para espalhar, e de forma muito bem espalhada entre a sociedade, que a reforma da Previdência viria para acabar com direitos de quem recebe o mínimo. Pronto, a batalha da comunicação já estava perdida. 

Errou também o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, quando, em conversas com representantes do mercado, prometeu que o governo faria uma profunda reforma da Previdência, mesmo sem ter a menor ideia de como seria a negociação no Congresso. Errou ainda o mercado, que acreditou na força do governo, na certeza de Meirelles e nos líderes partidários. Quando o político diz uma coisa, é preciso entender que ele não está dizendo bem aquilo que ele está dizendo. 

Justiça seja feita ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e ao relator da reforma, deputado Arthur Oliveira Maia (PPS-BA), que nunca disseram que o projeto tinha votos suficientes para que fosse aprovado. Eles sempre alertaram que era preciso trabalhar mais, mesmo antes da esquisita conversa entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, o que pôs tudo a perder.

O tempo passou, o presidente livrou-se das duas denúncias do ex-procurador-geral Rodrigo Janot, voltou a pensar na reforma da Previdência, e tornou a errar. Admitiu, numa conversa com deputados e ministros, que talvez não desse para aprovar a reforma previdenciária. O mercado veio abaixo. Temer teve de recuar e dizer que vai se empenhar pela reforma. 

Experiente como é, Temer poderia ter chamado uma pessoa de sua confiança, talvez Arthur Maia, e dito a ele alguma coisa assim: “A reforma completa, como quer o ministro Meirelles, não passa. Eu não posso dizer isso, mas você está autorizado por mim a negociar um texto mais enxuto. Se alguém perguntar se aceito uma minirreforma, vou negar. E você continua negociando. Quando juntarmos os votos pela aprovação, eu dou o ok”.

Temer poderia ainda ter procurado Rodrigo Maia e entregado a ele missão de cuidar da reforma da Previdência. Justificaria o ato dizendo que, desgastado como está, qualquer projeto que for identificado com ele sofrerá resistências maiores. Como Rodrigo Maia goza de credibilidade na Câmara e demonstrou ter os pés no chão quanto ao cálculo de votos, a proposta pode encontrar menos resistência se todos concluírem que a luta pelas mudanças está sendo encabeçada por ele.

Só para dar uma ajudazinha, Temer poderia orientar sua máquina publicitária a fazer peças sobre a reforma dizendo que a Previdência arrecada tanto, gasta tanto e o déficit é tanto. E que vai acabar com privilégios. Sem firulas. Ganhar a guerra da comunicação é o primeiro passo para aprovar a reforma.

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