Entrevista com Carlos Lauría - 'Assassinatos de jornalistas e ataques violentos provocam autocensura'

Daniel Bramatti, de O Estado de S.Paulo

31 Julho 2010 | 06h00

 

SÃO PAULO - Crime organizado e governos que não aceitam críticas são as principais ameaças à liberdade de expressão na América Latina, afirma o argentino Carlos Lauría, um dos coordenadores do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), entidade que zela pela imprensa livre e pela segurança de seus profissionais em todo o mundo.

 

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Há deterioração generalizada da liberdade de imprensa na América Latina?

 

Já não estão aí as ditaduras militares que, há algumas décadas, assassinavam, torturavam e censuravam. Com exceção de Cuba, a América Latina vive em democracia. Mas, lamentavelmente, essa democracia não garante liberdade de imprensa. Há problemas muito graves.

 

Quais são eles?

 

Os problemas mais graves têm a ver com o risco físico que correm os jornalistas. Assassinatos de jornalistas e ataques violentos do crime organizado têm gerado autocensura.

 

É o que ocorre no México?

 

O México, onde os cartéis do narcotráfico disputam territórios e onde mais de 30 jornalistas foram assassinados desde 2006, é o caso mais evidente, mas as áreas afetadas são vastas. Na Colômbia, guerrilha e grupos paramilitares dominam zonas em um conflito que já dura cinco décadas. O crime organizado também produz estragos em El Salvador, na Guatemala e em Honduras, aterrorizando a imprensa. Isso também acontece em favelas do Brasil.

 

E quais são as ameaças institucionais à imprensa?

 

Há outro conjunto de países cujos governos tentam reduzir os espaços críticos. Talvez a Venezuela seja o exemplo mais chamativo. O presidente Hugo Chávez já leva uma década de confronto com a imprensa privada. Ele adotou uma série de medidas com o fim claro de controlar o fluxo das informações. Situações similares se repetem na Nicarágua. Também há antagonismo entre governo e imprensa no Equador e na Bolívia, ainda que nem se possa comparar com o que ocorre na Venezuela.

 

Há líderes eleitos democraticamente - e não é uma questão de esquerda ou direita, pois incluo nisso o presidente Álvaro Uribe, da Colômbia - que reagem de forma intolerante à imprensa, qualificando seus críticos como inimigos.

 

E a situação no Brasil?

 

Além dos problemas de violência, há o problema das ordens de censura emitidas por tribunais, que impedem a cobertura de questões de interesse público. O exemplo mais notável é a decisão de impedir que o Estado publicasse informações sobre um escândalo que envolvia a família do ex-presidente Sarney. É uma medida de censura inadmissível em um país onde a liberdade de expressão está consagrada na Constituição.

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