Entenda o processo contra Renan no Conselho de Ética

As denúncias contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), foram parar no Conselho de Ética. O PSOL entrou com uma representação por quebra de decoro parlamentar, que está prestes a ser arquivada. Na última quarta-feira, o senador foi favorecido por uma decisão inédita: em rito sumário, sem ouvir nenhuma das partes envolvidas, o relator Epitácio Cafeteira (PTB-MA) mandou o conselho arquivar a representação. A oposição reagiu e afirmou que vai apresentar um relatório paralelo nesta sexta-feira, propondo que o colegiado aprofunde as investigações sobre as denúncias. A reunião está prevista para as 10 horas. Leia abaixo as acusações que pesam sobre Renan: Operação Navalha - As conversas gravadas pela PF apontam que o ex-secretário de Infra-estrutura de Alagoas, Adeílson Teixeira Bezerra, junto com outros acusados de integrar o esquema de fraudes em licitações de obras, articulavam para que Renan pressionasse a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a liberar recursos para obras fraudadas. Em conversa com Enéas Alencastro, representante do governo de Alagoas em Brasília, Adeílson diz que se encontrou no dia anterior com Renan e afirma que o senador pediu para que ele conversasse com o governador de Alagoas, Teotônio Vilela (PSDB). Adeílson e Enéas tratam sobre uma obra que deve ser licitada para o Estado, mas que pode ser compartilhada com municípios. Os dois citam Marco - não identificado - para "brigar para ir tudo pro Estado". Adeílson então diz que se encontrou no dia anterior com "ele (Marco), Olavo (deputado Olavo Calheiros, do PMDB, irmão de Renan) e com Vanderlei para conversar sobre esses problemas". Enéas responde então que é para "tocar a parte da gente, e se depois Renan decidir com Dilma, com quem for, decidir que a prefeitura entra, nós estamos habilitados e aí a gente senta com eles em pé de igualdade, não senta na mão deles". "Na sexta-feira, tive uma conversa muito boa com o governador. Essa semana a gente deixa a inadimplência de lado", diz Enéas. Para concluir a conversa, Adeílson diz: "O senador me pediu para gente sentar, nós dois, evidentemente levar isso ao governador, e ver o que acrescenta nas obras estruturantes pra botar logo no PAC (Programa de Aceleração de Crescimento)". Relação com lobista - A revista Veja publicou que de janeiro de 2004 a dezembro do ano passado o lobista Cláudio Gontijo, da construtora Mendes Júnior, teria pago pensão mensal de R$ 12 mil para uma filha de três anos que o senador tem com a jornalista Mônica Veloso. Renan argumenta que o dinheiro da pensão vem de rendimento de atividades agropecuárias. A venda de gado teria resultado em um ganho de R$ 1,9 milhão nos últimos quatro anos. Os comprovantes apresentados pelo senador ao Conselho de Ética foram questionados por reportagem do Jornal Nacional: o negócio teria sido feito com empresas já fechadas e as notas apresentadas seriam ´frias´. Além disso, as pessoas que teriam negociado com o senador negaram a compra de gado. Em resposta, o senador disse apenas que tem como comprovar a legalidade da venda de gado e que todo o dinheiro recebido foi depositado em sua conta pessoal. Afirmou ainda que não é problema dele se algum empresário quis enganar o fisco. "Laranjas" - O jornal O Globo diz que Renan e seu irmão Olavo são acusados de ocultar que são donos de propriedades rurais na região de Murici, Alagoas. Dimário Cavalcante, primo de Renan, alega que vendeu ao senador a Fazenda Novo Largo, que não consta da declaração de bens entregue pelo senador à Justiça Eleitoral. A suspeita é de que Renan use "laranjas" para esconder ser donos de fazendas em Alagoas. Dimário, segundo O Globo, teria procurado o Ministério Público para denunciar o senador em 2005 depois de ter descoberto que, pelo menos em documentos públicos, aparecia como dono de uma fazenda em Murici sem nunca ter adquirido a propriedade. Segundo ele, seu nome foi usado para que a família Calheiros recebesse indenizações milionárias do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), dentro do plano de recuperação ambiental da região, na Estação de Murici, que pertence à Mata Atlântica. As suspeitas de fraude interromperam o processo. Pontos obscuros: 1.) Antes de reconhecer a paternidade da filha que tem com Mônica, Renan pagava à jornalista em transferências bancárias ou em dinheiro vivo, como ela alega? Qual a origem do dinheiro: do senador ou do lobista Cláudio Gontijo? 2.) Por que Renan, na defesa que fez no Congresso, só apresentou documentação que comprova os pagamentos de pensão feitos após o reconhecimento da paternidade da criança? 3.) Por que o senador chegou a dizer que não tinha como comprovar pagamentos feitos antes de reconhece a paternidade, se no dia seguinte essas provas apareceram nas mãos de seu advogado? 4.) por que os extratos que confirmariam que o pagamento era feito pelo senador, não pelo lobista da Mendes Júnior, não foram tornados públicos como os outros, mas entregues em sigilo ao corregedor do Senado? 5.) Se o presidente do Senado alega ter recursos provenientes da agropecuária que dariam conta dos pagamentos de pensão e aluguel à Mônica, por que o cuidado em não os tornar públicos? 6.) Por que Epitácio Cafeteira, relator da ação contra Renan por quebra de decoro no Conselho de Ética, quer engavetar a ação sem abrir investigação e sem ouvir Mônica, autora de denúncia?

Agencia Estado

15 Junho 2007 | 15h13

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