Enfraquecida, oposição ensaia reestruturação

Após derrota nas urnas, PSDB e DEM perdem espaço no Congresso e buscam novo discurso para voltar ao poder

Julia Duailibi, O Estado de S. Paulo

31 Dezembro 2010 | 23h00

Com uma presença mais frágil no Congresso, menos exposição nos horários eleitorais na televisão e recursos do fundo partidário mais limitados, a oposição chega a 2011 com a ambição de se reestruturar para ensaiar a volta ao poder na próxima eleição.

 

Após oito anos de governo Lula e com quatro anos de gestão Dilma Rousseff pela frente, as principais legendas oposicionistas, PSDB e DEM, saem debilitadas da cena eleitoral de 2010, num quadro considerado difícil pelos próprios dirigentes.

 

Para se fortalecer, começam 2011 com três apostas: usar seus governos estaduais como vitrines, tentar ser mais oposição no Congresso e arrumar a casa para as disputas municipais de 2012. Mas, para a receita dar certo, admitem ser necessário um pouco de "sorte": uma crise política na base aliada, que já teria começado em razão da partilha de cargos no governo, e um cenário econômico mais difícil do que o enfrentado nos anos Lula.

 

Cenário. No Senado, PSDB e DEM perderam 5 e 7 cadeiras, respectivamente. Menor, a oposição ficou sem uma das suas ferramentas mais estratégicas: a capacidade de obstruir votações no Senado. Na Câmara, a bancada tucana foi de 66 para 53 deputados, enquanto a democrata passou de 65 para 43 parlamentares.

 

De acordo com cálculos do Estado, o resultado da eleição na Câmara garantiu às legendas que coligaram com Dilma 14% a mais de tempo de televisão nos horários eleitorais de 2012 e 2014. Já os partidos que apoiaram José Serra (PSDB) perderam de 24% do horário eleitoral.

 

Com bancadas menores, o fundo partidário também emagreceu. PSDB e DEM perderão, juntos, cerca de R$ 10 milhões. E podem ainda ter de enfrentar outro problema: a janela partidária. Caso a mudança de partido seja aprovada pelo Congresso no primeiro semestre, a oposição perderá quadros, que serão atraídos para a órbita governista.

 

Ainda sem ver vantagens em formar um bloco no Congresso - o que acarretaria em certa complicação na divisão de cargos e lideranças -, a oposição manterá como principal ativo os dez governadores que elegeu em 2010 e que administrarão Estados com mais da metade da população do País. São Paulo, Minas e Santa Catarina, por exemplo, servirão de vitrines a serem exploradas em eleições.

 

Mas, antes de enfrentar o governo, tanto PSDB como DEM começam o ano tendo de arrumar suas próprias trincheiras. Do lado tucano, a mais urgente é lidar com o acirramento da dicotomia entre paulistas e mineiros - mais especificamente entre aliados do senador eleito Aécio Neves (MG), potencial presidenciável em 2014 que prega a "refundação" do partido, e os de Serra, que ironizam a ideia. "Estamos pior que cego em tiroteio. Perdemos a capacidade de fazer propostas. Ninguém tem coragem de fazer oposição", avalia um fundador do PSDB.

 

Após flertar com o discurso governista na eleição, não há consenso no partido a respeito do caminho a ser seguido. "A oposição não são os 4% que rejeitam Lula. São 44% que não votaram no Lula, com a forma de Dilma", diz o presidente da sigla, Sérgio Guerra, para quem o discurso do partido deve ser moldado para esse público.

 

O DEM, principal porta-voz da oposição na era Lula, também terá de harmonizar as duas alas que disputam o controle do partido. Enfrentará ainda a iminente ida do prefeito paulistano, Gilberto Kassab, para o PMDB. O caminho que a sigla adotará depende, no entanto, da convenção de março, quando será definida a nova direção. "Temos de exigir do governo reformas", diz o senador Agripino Maia, cotado para presidir o DEM.

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