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Empresário alvo de ações acusa delator do cartel

Fausto Macedo e Fernando Gallo - O Estado de S. Paulo

12 Abril 2014 | 16h 59

Dono da T’Trans, Giavina sugere que Rheinheimer recebia propina de outras empresas com base em carta de outro executivo

Denunciado à Justiça em 4 de 5 ações criminais contra executivos do cartel no sistema metroferroviário de São Paulo, o dono da T’Trans, Massimo Giavina Bianchi, mira o principal delator do esquema, Everton Rheinheimer, ex-executivo da Siemens que fez acordo de leniência com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). "É um escroto. Desceu de paraquedas na Siemens, é muito prepotente", afirma o empresário, o primeiro dos 30 executivos que são alvo do Ministério Público Estadual a falar publicamente sobre as denúncias apresentadas pela Promotoria.

Giavina sugere que Rheinheimer recebia propina de outras empresas – o que deduz a partir de uma pilha de papéis que tem no escritório no Alto de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, em especial a cópia de uma carta do empresário Maurício Memória, da Temoinsa, enviada ao delator e datada de 4 de dezembro de 2002.

"Vou cumprir na íntegra o que ofereci", diz Memória, referindo-se a um pagamento de R$ 1,5 milhão. A carta, afirma o proprietário da T’Trans, consta de material em posse do Cade. O órgão não confirma nem desmente a informação.

Indagado sobre a existência ou não de corrupção no setor público, Giavina mostra-se enigmático. E sorri. Como alguém que está mandando um recado.

O sr. é acusado em 4 denúncias da promotoria contra o cartel.

Estou muito chateado. O cerne da questão é que eu sou famoso, não é? Tenho 42 anos na área. Os caras falam de mim.

Quem fala?

A denúncia da Siemens. Nunca tive uma reunião com o cara, o tal Peter (Gölitz, leniente da Siemens)! Falou que teve ‘n’ reuniões na T’Trans. Nem conheço o cara. Quero acareação. A prova de que não participo (do cartel) está muito clara. Não consegui participar da licitação do metrô de Porto Alegre nem do de Belo Horizonte, os caras fecharam o mercado para mim. Ué? Eu não fazia parte da turma?

A que atribui o cerco ao sr.?

Sou independente. Tenho uma história de alavancar o setor. Agora, preciso dar trabalho para a minha empresa. Não faço parte de grandes grupos multinacionais. O ‘grande grupo’ T’Trans. Eu faturo R$ 80 milhões por ano! Um milésimo desses caras. Sou o grande homem?

Por que, então, a Siemens coloca a T’Trans na leniência?

Ela precisava acusar as outras. O que acharam na busca e apreensão feita na T’Trans? Absolutamente nada que corroborasse esse conluio.

Mas o Cade coloca trocas de e-mails na nota técnica...

Tem um e-mail que o Telmo (Porto, executivo da Tejofran) manda para mim e eu respondo: ‘Vai em frente que eu não quero briga’. Um e-mail!

Mas a que o sr. atribui a denúncia sobre sua empresa, então?

Sou famoso. Giavina é o cara que sabe das coisas. E realmente sei! Uma coisa é você saber, outra é participar. Estou no mercado há 42 anos. Você escuta um cara falar, outro falar...

Falam do quê? De propina?

De tudo. De propina, não falam comigo. Sabem que sou contra. Sou conhecido no mercado. ‘Ih, o Giavina é difícil’.

Mas o sr. acha que existe?

(silêncio) Não sei. Não sei.

O sr. acha que o cartel existiu?

Eu não me meto com isso.

O sr. trabalhou na Alstom de 1995 a 1997. O processo criminal em que a Alstom é acusada de pagar propina para obter um contrato na área de energia se refere a um aditivo que foi assinado em 1998, mas que era discutido desde 1990.

Não era a minha área. Mas eu sei tudo sobre isso.

E o que o sr. pode contar?

Nada (sorri). Já estou com o saco cheio dessas coisas.

A promotoria fez 5 denúncias e o sr. é acusado em 4. Dos 5 projetos, de quantos o sr. participou?

De um só. Foi da reforma dos trens. Eu participei de uma licitação. O meu associado participou de todas! Eu sou denunciado e meu associado não é!

Quem é seu associado?

A MPE. Ué! Eu participei de um. Estava em situação financeira terrível. Não tinha carta de fiança. Se você não tem carta de fiança, vai participar de quantas licitações? De quatro? Vai participar naquilo que tem chance de ganhar. Qual é o faturamento da MPE? R$ 1,4 bilhão! Pegaram o boi de piranha, a T’Trans.

Na denúncia da Linha 5, o promotor diz que a T'Trans participou do consórcio perdedor.

Não sozinha. O foco é a T’Trans, mas tem a Ansaldo, a PEM e a T’Trans. E a bucha vem em cima da T’Trans. Uma coisa é fornecer, outra é fazer parte da zona. Tive reuniões? Lógico. Para fazer meu preço. Daí a ser o estrategista...

O sr. depôs na promotoria?

Fiquei surpreso porque o promotor viu que eu sei de muita coisa e falou: bota ele no rolo que ele vai abrir a boca. Vai abrir a boca com o quê? Mais ou menos nessa linha.

O sr. conhece Rheinheimer?

Nunca gostei do cara. Eu não falava com ele e ele não falava comigo. Ele queria falar só com os grandes. Principalmente com a Alstom. T’Trans não.

O sr. ouviu que ele tentou extorquir algumas empresas?

Ouvi isso. Tá no dossiê do Cade. Tem uma carta que o cara manda pra ele dizendo: ‘Você tá me devendo R$ 1,5 milhão’. Ele foi demitido por causa dessa carta. Pergunta para a Siemens por que ele foi demitido. Agora eles estão defendendo ele. Será que ele não fez chantagem com a Siemens? Um cara que foi demitido agora é defendido?