Empreiteiras que contribuíram receberam R$ 1,2 bi em obras

Construtoras, que juntas doaram R$ 28,4 milhões, repassaram 1 em cada 4 reais recebidos pela campanha de Dilma

José Roberto de Toledo/SÃO PAULO, ESPECIAL PARA O ESTADO

01 Dezembro 2010 | 22h57

Ao menos 12 empreiteiras e construtoras que doaram para a campanha da presidente eleita Dilma Rousseff (PT) são fornecedoras do governo federal. Só em 2010, receberam, por ora, R$ 1,247 bilhão. Juntas, doaram R$ 28,4 milhões ao comitê da petista ou ao seu partido.

 

Nenhum outro setor econômico recebe tanto dinheiro do governo federal. Isso dá pistas da razão pela qual o segmento de construção foi o que mais contribuiu para a campanha de Dilma. Foi responsável por um em cada quatro reais que entraram nas contas do comitê.

 

A Construtora Andrade Gutierrez, por exemplo, doou R$ 5,1 milhões ao Comitê Financeiro Nacional para Presidente da República, administrado pelo PT. Recebeu, apenas em 2010, R$ 391 milhões do governo federal, principalmente pelas obras da Ferrovia Norte-Sul.

 

A Camargo Correa doou R$ 8 milhões à campanha de Dilma. Recebeu até hoje R$ 99 milhões do governo federal, pela construção da Norte-Sul e por obras de irrigação. Tem mais a receber, como pelas eclusas da usina hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, inauguradas esta semana por Lula e Dilma.

 

Outro grupo que fez doações expressivas à campanha vencedora foi o Queiroz Galvão. Doou R$ 2 milhões. Recebeu, em 2010, R$ 206 milhões do governo federal, por obras rodoviárias, de irrigação e pela Ferrovia Norte-Sul.

 

Já a Galvão Engenharia, que pertence a um grupo de sócios que dividem o mesmo sobrenome que a Queiroz Galvão, também aportou R$ 2 milhões na campanha da petista. As verbas federais recebidas até novembro pela empresa somam R$ 162 milhões, por obras rodoviárias.

 

Também doaram e receberam: ARG Ltda (R$ 2 milhões doados; R$ 21 milhões recebidos), Serveng Civilsan (R$ 2 milhões / R$ 24 milhões), Mendes Júnior (R$ 1 milhão / R$ 19 milhões), Norberto Odebrecht (R$ 1 milhão / R$ 24 milhões), CR Almeida (R$ 1 milhão / R$ 28 milhões), Construcap (R$ 700 mil / R$ 64 milhões) e Carioca Engenharia (R$ 600 mil / R$ 177 milhões). Esta última mostra que não há uma correlação entre o valor doado e o recebido.

 

Todas as doações são legais e registradas no TSE. Não há, necessariamente, relação de causa e efeito entre doações e recebimento de verbas públicas. O levantamento prova apenas que as doadoras têm interesse financeiro em manter boa relação com o futuro presidente, seja ele quem for.

 

A maioria dessas empreiteiras doou oficialmente quantias semelhantes às campanhas de Dilma e de seu adversário José Serra (PSDB). São investimentos eleitorais. Alguns dão mais retorno do que outros.

 

O levantamento está subestimado. Foram comparados apenas os mesmos números de CNPJ (cadastro nacional de pessoa jurídica) dos doadores e dos fornecedores. Não entraram na conta recursos recebidos por outros braços do mesmo grupo empresarial. A Construtora OAS doou R$ 3 milhões para a campanha de Dilma. Recebeu R$ 31 milhões por obras de manutenção de estradas e transposição do Rio São Francisco. Mas outras empresas do grupo OAS, com a Engenharia e Participações, receberam mais alguns milhões de verbas federais que não foram computados por terem outro CNPJ.

 

Pelo mesmo motivo, tampouco entraram no levantamento os recursos federais distribuídos a consórcios de empreiteiras. Isso talvez ajude a explicar por que algumas das empreiteiras que doaram para a campanha petista não aparecem entre os que receberam recursos federais neste levantamento. As informações sobre recursos pagos às empreiteiras foram extraídas do Portal da Transparência, do governo federal (www.transparencia.gov.br).

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