1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Em seis cidades, seis retratos do voto

O 'Estado' percorreu as cinco regiões do País para ouvir todos os tipos de eleitores e explorar os dilemas e caminhos da continuidade e da mudança

Lourival Sant'Anna

07 Junho 2014 | 16h 07

Da fidelidade incondicional ao ex-presidente Lula à rejeição por princípio ao PT. Da adesão recente ao governo de Dilma Rousseff, por quem votou em seus adversários, à busca de novas opções. Da constatação de que a vida melhorou ao desejo de ruptura total. O Estado percorreu as cinco regiões do País para ouvir todos os tipos de eleitores e explorar os dilemas e caminhos da continuidade e da mudança.

Em pesquisa feita a pedido do Estado, o Ibope levantou os perfis de eleitores segundo renda, grau de instrução, idade, sexo e preferência por continuidade ou mudança - com ou sem Dilma Rousseff. As tabelas mostraram em que municípios do Brasil havia maior concentração de cada tipo de eleitor. Com ajuda do Ibope, o Estado escolheu seis cidades nas cinco regiões do País em seis Estados diferentes, incluindo os de Dilma Rousseff (Minas Gerais, onde nasceu, e Rio Grande do Sul, onde se lançou na vida pública), Aécio Neves (Minas), Eduardo Campos e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (ambos de Pernambuco), um ator importante em mais essa eleição.

Duas cidades têm eleitores divididos, duas concentram os que querem continuidade e duas, mudança. Apenas eleitores com nível de renda, grau de instrução e preferência eleitoral definidos pela pesquisa foram ouvidos em cada cidade. Os dados indicam que a distribuição por sexo e idade é homogênea e a reportagem buscou uma composição equilibrada dessas características. Pelo menos dez eleitores foram ouvidos em cada cidade.

Este trabalho não pretende ser uma pesquisa científica, mas uma reportagem para preencher dados estatísticos com histórias, percepções subjetivas, motivações pessoais e peculiaridades locais.

Bolsa Família faz de Agreste pernambucano reduto de Dilma

Elogios ao programa de distribuição de renda surgem espontaneamente em qualquer conversa com moradores de São Vicente Ferrer

São Vicente Ferrer - No meio da manhã de quinta-feira, fim de mês, cerca de 20 mulheres esperam para receber o Bolsa Família na agência lotérica de São Vicente Ferrer, no Agreste pernambucano. “Antes do Bolsa Família, faltava tudo”, lembra Selma Silva, de 40 anos, sentada em um degrau da calçada. “A sorte da gente é esse Bolsa Família. A gente vive mais é dele.” O nome do programa surge invariável e espontaneamente quando se conversa com moradores da cidade das classes D e E ( renda familiar até R$ 1.486).

O marido de Selma é eletricista e ganha diária de R$ 25, segundo ela, quando encontra bicos, o que numa semana ocorre duas, três vezes e noutras, nenhuma. O casal tem cinco filhos. Selma não trabalha, mas recebe R$ 255 do Bolsa Família e diz que usa o dinheiro em alimentação, roupa para os filhos e material escolar. “Vou votar na Dilma porque acho que ela é uma presidente ótima”, diz Selma, que não tem nem celular, em contraste com a maioria dos entrevistados. “Ela fez muitas coisas boas e vai fazer outras.”

“Desde que sou nascido, o primeiro presidente que teve pena dos pobres foi Lula”, avalia Arnaldo Santos, marceneiro de 64 anos. “Toda mulher hoje tem Bolsa Escola”, acrescenta, usando o nome do programa da época de Fernando Henrique Cardoso, que o criou. “A felicidade da gente é isso”, intervém sua mulher, Severina, de 59 anos. “Todo mês a gente vai e tira o dinheiro da gente.” Ela recebe R$ 102 de Bolsa Família.

Clayton de Souza/Estadão

“Lula fez o que prometeu”, continua Arnaldo, de pé com a mulher e a filha Ilda, de 42 anos, na porta de sua casa, na periferia de São Vicente. “Os outros para trás, a gente fazia feira hoje (terça-feira), depois no sábado tinha de juntar mais uns quantos porque tudo tinha subido. Agora, quando sobe um preço um pouquinho, a gente se espanta”, observa. “Pena que Lula não vai entrar mais.” Arnaldo está desempregado: “Trabalho graças a Deus oito anos em nada”. Ele espera se aposentar em breve, ao completar 65.

Severina faria 60 anos poucos dias depois da entrevista. “Só queria que Deus abençoasse. Faz cinco anos que estou com pedido de aposentadoria e nada”, diz ela, que “trabalhava na roça”. Cinco dos nove filhos do casal moram no Rio, trabalham em quiosques na Praia de Copacabana e ajudam os pais: “Um manda R$ 50, outro R$ 30, assim”. O filho de Ilda de 19 anos trabalha com os tios no Rio - destino muito mais comum dos emigrantes do lugar do que São Paulo.

Viúva, Ilda trabalhava numa fábrica de doces. “Saí porque minha filha de 18 anos teve uma filha e pediu para eu ficar com a menina”, conta. “Com Bolsa Família, não dá para viver. Se for para depender só do Bolsa Família, é difícil. A pessoa não deve só esperar por isso.” Ela mora em um “quartinho” oferecido pelo pai com a filha de 18 anos, que se casou com um gesseiro, e um filho de 16, que trabalha com seu cunhado.

Medo. “Se entrar outro, pode ser que não faça o que Dilma está fazendo”, teme Maria Auxiliadora da Silva, de 26 anos, que vive à beira de uma estrada de terra para a divisa com a Paraíba, na zona rural de São Vicente. Seu marido, Antônio, de 28 anos, recebe diárias de R$ 25 a R$ 30 para podar e colher uvas. Mas só tem trabalho no máximo três dias por semana, e isso no verão, que na região vai de novembro a maio. No resto do tempo, as chuvas atrapalham. O casal tem um filho de seis anos. Quando em 2009 começou a receber o Bolsa Família, eram R$ 20. “Hoje tiro R$ 100. Compro material para a escola dele, calçado, roupinha. Não roupa boa, porque não dá com R$ 100”, explica Maria. “Compro leite, comê para a gente, feijão. Dá para viver porque não moro numa casa, mas num cômodo só.”

Ivonete Maciel, de 50 anos, tem carrocinha de cachorro-quente que lhe rende R$ 70 por semana e recebe outros R$ 70 por mês do Bolsa Família. Seus filhos, de 26 e 27 anos, são casados. Ela é separada e mora sozinha. “Do jeito que está, tá bom”, avalia a moradora do bairro do Recreio, no alto de uma colina que domina a cidade. “O pessoal tem tudo na mão. Quem não podia comprar um celular agora tem. Era muito difícil a pessoa comprar um som, uma televisão. Agora é mais fácil com ela lá. Antes do Lula, não tinha no que trabalhar. Depois que Lula entrou, melhorou e muito.”

Aos 47 anos, Rosinalva Silva faz crochê e seu marido, servente, vive de biscates. Ela recebia R$ 130 de Bolsa Família, mas diminuiu para R$ 70 depois que seu filho completou 18 anos. “O dinheiro é para pagar o gás, comprar alguma coisa de alimento. É pouquinho mas serve, ajuda.”

“O governo está sendo bom”, avalia Rosinalva. “Tem muito esses Bolsa Família, esses benefícios. Votei em Dilma e, antes, em Lula, porque foi um ótimo presidente. Fez muitas coisas.” Antes de Lula, ela não se lembra em quem votou. “No próximo governo, gostaria que saísse casa própria”, reivindica Rosinalva, que paga R$ 130 de aluguel.

Moradia também é a aspiração de Maria Aparecida da Silva, de 23 anos, que cria cabritos e cultiva uvas para vender na cidade em um pequeno terreno herdado do avô do marido. Ela ainda não tem Bolsa Família - “Fiz o cadastro, mas não chegou, não” - e acha que o problema é que seu marido, de 32 anos, que trabalha roçando bananais de outras pessoas, não tem carteira de identidade. “Vou votar para continuar porque está tudo bom assim. Estão melhorando as coisas”, acredita. “E também por causa da campanha dela para mudar casa de taipa para tijolo. A minha é de taipa e tenho esperança de fazer um dia de tijolo.”

“De primeiro, não tínhamos um arroz para comer”, lembra José Matias, de 52 anos, que recebe R$ 30 de diária “limpando mato e tirando uva”. “Agora, no final do mês, tem qualquer coisa. É uma ajuda para o pai e a mãe de família.” Sua mulher recebe R$ 140 de Bolsa Família. Antes de os filhos se casarem, recebiam mais. “Não tem serviço certo para a gente”, justifica o agricultor. “Para mim, melhorou depois de Lula. Trabalhava muito e o dinheiro não dava. Agora dá.” Ele está contente não só por causa do Bolsa Família, mas por outro dado que talvez seja consequência do benefício: “A diária aumentou também”. Antes do Bolsa Família, os trabalhadores rurais aceitavam trabalhar por diárias menores.

Aposentadorias. Outro fator de relativa prosperidade na zona rural são as aposentadorias. Manuel Nascimento, de 47 anos, é desempregado e vive com a mãe, Josefa Elvira, de 91, que recebe um salário mínimo (R$ 724) de pensão de seu marido, que era açougueiro. “Eu vou continuar (com Dilma), porque está bom, né?”, diz Nascimento, sem camisa, na sala da pequena casa. “Melhorou o salário mínimo e a mercadoria baixou mais. Os preços estão razoáveis. Dá para viver. Não tenho queixa.” Nascimento já morou três vezes no Rio, onde trabalhou como copeiro. “Voltei porque não gostei.”

Maria da Penha Gomes da Silva, de 54 anos, vive de pensão do marido, que trabalhava na usina de cana, e foi morto em 1987. Seu benefício é um salário mínimo (R$ 724). “Agora, devido a empréstimos, estou recebendo R$ 400 e alguma coisa.” Tinha também Bolsa Família, mas tiraram, há três anos, por causa da pensão que recebia desde 1988 e a deix acima da renda per capita mensal máxima, de R$ 154. “Eu só tinha essa pensão e cortaram”, revolta-se Maria da Penha. “Vejo gente aqui que recebe salário, Pasep, 13.º e Bolsa Família.”

“Dilma trabalha bem, apesar de ser mulher”, elogia Maria da Penha, que, antes de receber pensão, “tirava quadra” (roçava). “Gostei dela demais. Ela é igual a Lula. Lula fez muitos benefícios no Brasil. Até foi ele que fundou essa Bolsa Família”, acredita. “Já é uma ajuda para os pobres. Antes, o salário era mais baixo. Agora, as coisas é que ficam mais caras. Mas para mim, está tudo bonzinho, graças a Deus. ”

José Cadano de Oliveira, de 76 anos, dono de um sítio de 3 hectares, vinha em seu cavalo na estrada de terra. Ele conta que seu sítio é “todo coberto” de banana-prata, chamada na região de “pocovan”, que ele vende na feira. “Às vezes, dá para tirar R$ 1 mil”, conta José Cadano, que paga de R$ 40 a R$ 50 de diária para cortar a banana e recebe aposentadoria. “Tem um salário até bom e estão gostando da Dilma.”

Nisso, seu filho vem passando em uma moto e diz que quer mudança: “A violência está muito grande”. Há queixas de roubos de motos na região. Mas o filho não sabe se vai votar em Dilma ou não: “Vou pensar”. José Cadano concorda que há muita violência. “Mas antes era pior. Nem tinha salário, tinha nada. Vivia somente de banana, batata.” Ele votou em Dilma. “Aqui em São Vicente, quase todo mundo votou nela. Lula foi um bom governador. Deu salário para o povo, trabalho. Não tem o que falar, não. Mas agora parece que não vai ser mais.”

Eduardo Campos. Nem o fato de Eduardo Campos ter sido governador de Pernambuco até recentemente e de a estrada estadual que dá acesso a São Vicente ter sido asfaltada há pouco tempo parece sensibilizar os eleitores de Dilma. “O Eduardo fez a parte dele também, mas, se não tiver a Presidência , como é que a pessoa vai trabalhar?”, raciocina o servente Josenito Araújo, de 39 anos, que ganha R$ 40 por dia. “Dona Dilma na Presidência, 100%. Votei nela e ela está comandando. Não quero que o Eduardo dispute com dona Dilma. Não adianta porque a vantagem é dela. Ela está aí. Com fé em Deus, a população todinha no País só vota nela, porque o emprego dela até agora está sendo realista. Manda verba para todas as cidades.”

De volta ao bairro do Recreio, Antônio Silva, ex-trabalhador rural de 64 anos, está na janela de sua casa recém-pintada de amarelo, com um empréstimo consignado de cinco anos, que reduziu sua aposentadoria de R$ 724 para R$ 520. “Vindo de Lula eu voto até num cachorro”, exagera Silva. “Aquele homem foi muito bom pra gente. Esse de Pernambuco, não quero ele”, diz, referindo-se a Eduardo Campos. “Antes de Lula, aqui ninguém podia comprar um rádio, uma televisão. Ninguém tinha nada. Depois de Lula, todo mundo tem televisão, geladeira, tudo que é bom. Ele ajudou os pobres. Todo mundo vive de barriga cheia.” 

Brasileiro ainda não sabe com quem mudar

O desejo de mudança ou de continuidade é o principal motor de qualquer eleição. Quando o eleitor expressa a vontade de não mudar as coisas, quase sempre o governante acaba reeleito. Quando a maioria quer mudar, aumenta o favoritismo da oposição - mas nem sempre, porém, um candidato oposicionista ganha. Às vezes, o eleitor calcula que o risco de perder o que sobrou não vale a aposta no que ele pode ganhar com a mudança.

O Brasil teve eleições presidenciais em que a ideia do “em time que está ganhando não se mexe” levou o governo à vitória. Foram os casos de 1994 (Fernando Henrique Cardoso era o candidato de Itamar Franco e o pai do real) e de 2006 (reeleição de Lula). Na disputa de 2010, 63% dos eleitores diziam que queriam pouca ou nenhuma mudança no governo. Dilma Rousseff (PT) acabou eleita como uma prorrogação de Lula.

Houve apenas dois candidatos oposicionistas que venceram impulsionados pelo desejo de mudança: Fernando Collor em 1989 e Lula em 2002 (com o seu “a esperança derrotou o medo”).

Mas também houve uma eleição em que muitos brasileiros queriam mudança, porque a economia ia mal, mas o governo venceu. Foi em 1998. Fernando Henrique foi reeleito, derrotando Lula pela segunda vez seguida, porque a maioria achou que o risco de mudar para um governo petista era ainda maior do que o de permanecer com um governo tucano. O medo bateu a esperança.

Em 2014, dois em cada três eleitores têm dito e repetido ao Ibope que querem mudar tudo ou muita coisa no governo federal. Então, como é possível que Dilma continue liderando as pesquisas de intenção de voto? A presidente tem o voto de 7 a cada 10 dos que querem continuidade. Isso seria insuficiente para garantir sua reeleição, pois o minoritário contingente de eleitores continuístas é cada vez menor.

Dilma segue na liderança porque 1 a cada 4 eleitores que querem mudanças declara voto na presidente. Eles são responsáveis por quase metade das intenções de voto da candidata governista. E por que eleitores que querem tanto mudar ainda declaram voto nesse mesmo governo? As pistas para responder a essa pergunta estão entremeadas nas reportagens que compõem este caderno especial.

Não há uma resposta única. Os motivos variam de região para região, de classe social para classe social. Muitas vezes, a mesma razão que leva um eleitor a querer mudança - a piora da percepção sobre a economia - é motivo para ele não querer arriscar seu voto num novo presidente. Ele se apega ao que ainda tem e se torna eleitoralmente conservador. É o medo.

Não por acaso, o discurso eleitoral ensaiado pelos marqueteiros do governo durante a mais recente propaganda do PT no rádio e na TV advertiu os eleitores para o suposto risco de eles perderem, por exemplo, o Bolsa Família. É uma reedição, 16 anos depois, do discurso tucano que reelegeu Fernando Henrique em 1998. Naquela vez, o fantasma era a perda da estabilidade econômica. Agora, são os programas sociais.

Reflexos desse temor se espalham até pelo discurso dos candidatos de oposição. Para contrapor-se a Dilma e diferenciar-se da novidade simbolizada por Eduardo Campos (PSB), Aécio Neves (PSDB) diz que ele representa a mudança com segurança. Hoje, o tucano tem uma penetração equivalente à de Dilma no eleitorado mudancista - 25%, contra 27% -, enquanto o candidato do PSB tem apenas 14% nesse segmento.

Para mudarem essas proporções a seu favor, os oposicionistas terão de convencer o eleitor de que mudar vale a pena, de que o risco de ele perder o que conquistou é menor do que o de ganhar votando na oposição. Ao mesmo tempo, Dilma vai usar Lula em sua campanha para dizer que ela é capaz de promover os necessários ajustes de curso sem afundar o barco de vez.