Andre Dusek/Estadão
Andre Dusek/Estadão

Em livro de memórias, FHC diz que PSDB 'não assumia bandeiras de seu governo'

Ex-presidente relata que 'a cada quatro ou cinco meses' havia uma 'pequena crise' com os tucanos, que temiam perder espaço para o PMDB e o PFL

Pedro Venceslau, O Estado de S. Paulo

20 Outubro 2015 | 19h54

São Paulo - No primeiro dos quatro volumes de seu livro de memórias "Diários da Presidência", que será lançado no dia 29 pela Companhia das Letras, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conta como foi difcíl a relação com seu partido, o PSDB, que segundo ele reclamava muito de falta de atenção, mas não assumia bandeiras de seu governo. 

"O PSDB se queixa do de sempre, falta de atenção (...) O PSDB tem que assumir a bandeira do governo, e não tem assumido", disse o presidente depois de um encontro com o então dirigente do partido, Teotônio Vilela, o secretário-geral, Arthur Virgílio e José Aníbal, líder do PSDB na Câmara.   

   

Em sua avaliação, FHC diz que "a cada quatro ou cinco meses" havia uma "pequena crise" com os tucanos, que temiam perder espaço para o PMDB e o PFL. "É o contrário do que vocês do PSDB estão pensando.  O PFL é que está em minhas mãos, e não nós que estamos nas mãos deles", disse o então presidente aos tucanos.  

Em suas memórias sobre os dois primeiros anos no poder foram gravadas 44 fitas cassetes com quase noventa horas de duração. Ao longo das quase 900 páginas do primeiro volume, FHC também fala em vários momentos sobre a difícil relação com o PMDB. São situações similares as enfrentados atualmente pela presidente Dilma Rousseff. 

"Essa base de apoio eu a estendi depois das eleições e peguei o PMDB, uma parte importante do PMDB, e vejo assim o futuro também. Seja eu o presidente ou outro que venha a me suceder , ninguém vai poder governar o Brasil sem ampla base de apoio", anotou FHC em registro de 25 de julho de 1996, ao relatar uma reunião com deputados do PMDB. 

Participaram daquele encontro os hoje tucanos Aloysio Nunes Ferreira, atual senador por São Paulo, e Alberto Goldman, ex-governador paulista, além de Luís Carlos Santos, líder do governo na Câmara que depois seria integrado à equipe ministerial para cuidar da articulação política do governo, e o hoje vice-presidente Michel Temer, que no ano seguinte seria eleito presidente da Câmara, com apoio do Planalto.  

Em outubro de 1995, FHC contou ao seu gravador que o então deputado Michel Temer, hoje vice presidente da República e fiador da aliança do PMDB com Dilma Rousseff, pediu ajuda para emplacar um aliado no segundo escalão do governo. "O Luís Carlos Santos me disse no caminho do Planalto para o Alvorada que o Temer precisa de um acerto pessoal, quer indicar alguém para a Portus , que é o fundo de pensão dos portuários. Vê-se, pois, que junto com toda a sua construção jurídica, que é correta, e para ser mais solidário com o governo, ele quer também alguma achega pessoal nessa questão de nomeações. É sempre assim. Temer é dos mais discretos, mas eles não escapam. Todos têm, naturalmente, seus interesses."

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