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Política

Delcídio Amaral

Delcídio afirma que dinheiro desviado de usina irrigou campanha de Dilma

Senador e ex-líder do governo disse, segundo a revista ‘IstoÉ’, em delação premiada que recursos da obra de Belo Monte foram repassados de maneira irregular para a disputa eleitoral de 2014 com ajuda dos ex-ministros da Casa Civil Erenice Guerra e Palocci

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O Estado de S. Paulo

11 Março 2016 | 22h27

Em delação premiada firmada com o Ministério Público Federal no âmbito da Operação Lava Jato, o senador Delcídio Amaral (PT-MS) apontou aos investigadores um esquema de desvio de dinheiro nas obras da Usina de Belo Monte que abasteceu campanhas eleitorais. Segundo o senador, o esquema era encabeçado pelos ex-ministros Erenice Guerra (Casa Civil), Antônio Palocci (Fazenda) e Silas Rondeau (Minas e Energia). 

Juntos, os ex-ministros do “triunvirato” teriam movimentado cerca de R$ 25 bilhões e desviado R$ 45 milhões destinados para as campanhas eleitorais do PT e do PMDB em 2010 e 2014. Os partidos estavam coligados na chapa que elegeu a petista Dilma Rousseff como presidente e o peemedebista Michel Temer como vice. As informações foram divulgadas ontem no site da revista IstoÉ, que já havia revelado outros trechos do depoimento do senador petista.

De acordo com Delcídio Amaral, o grupo desviou recursos, por meio de superfaturamento em todas as etapas, tanto de contratos para a realização das obras civis - que teriam custado R$ 19 bilhões -, quanto nos acordos para compra de equipamentos para viabilizar a construção da usina, que atingiram os R$ 4,5 bilhões.

Outros delatores da Lava Jato já haviam citado as propinas das obras de Belo Monte. Delcídio, no entanto, foi o primeiro a detalhar como funcionava o esquema. O senador relatou aos investigadores que o arranjo para o desvio de recursos da usina começou a ser desenhado na escolha do consórcio para construir a hidrelétrica, ainda em 2010. Na época, Dilma era ministra da Casa Civil e Erenice, sua secretária executiva. 

Erenice sempre foi vista como um braço direito da presidente Dilma desde antes de ela ser eleita. Segundo a revista, os procuradores que tiveram acesso a delação estão convictos de que ela era a principal operadora do esquema já que, antes de trabalhar com a presidente na Casa Civil, esteve ao lado de Dilma também no Ministério de Minas e Energia, responsável pelas obras da hidrelétrica.

Segundo a reportagem, Delcídio afirma que Erenice armou um esquema para que, no leilão de escolha do consórcio responsável por tocar as obras de Belo Monte, ganhasse aquele que permitisse as grandes empreiteiras do País - que haviam desistido de participar do certame - de continuar comandando as obras de forma indireta e sem se submeter às regras de licitações.

Notas frias. O ex-líder do governo no Senado também informou ao MPF que, durante a campanha eleitoral de 2014, o atual ministro da Comunicação Social, Edinho Silva, “esquentou” doações provenientes da indústria farmacêutica com notas frias e o orientou a fazer o mesmo para saldar R$ 1 milhão de dívida de sua campanha, usando a ex-sócia de Duda Mendonça, Zilmar Fernandes, e a FSB Comunicações, que receberiam o dinheiro do laboratório EMS. Edinho foi tesoureiro da campanha de Dilma no último pleito. 

Os senadores Aécio Neves (PSDB-MG) e Renan Calheiros (PMDB-AL) também foram citados no depoimento do ex-líder do governo, segundo a publicação semanal. 

Delcídio Amaral foi preso no dia 25 de novembro de 2015 por determinação do Supremo Tribunal Federal após ser flagrado em conversas com Bernardo Cerveró, filho do ex-diretor da Petrobrás, Nestor Cerveró.

Com a palavra, a FSB. Em nota, a FSB Comunicação disse que "nunca recebeu recursos da EMS S.A., empresa que jamais foi cliente da agência". A assessoria informou ainda que está "processando o Diretório Regional do Mato Grosso do Sul do Partido dos Trabalhadores (Processo número 08063942120168120001) para receber os valores devidos por serviços prestados na campanha de 2014".

DEPOIMENTOS

Belo Monte - O esquema de corrupção atuou, segundo relato do senador Delcídio Amaral, nas obras da usina de Belo Monte, a começar pelo leilão, em 2010, para escolha do consórcio que tocaria o projeto, até o início do ano passado. O senador disse que os desvios de recursos vieram do pacote de obras civis e da compra de equipamentos - em todas as etapas do processo houve superfaturamento, afirmou.

 

'Triunvirato' - Segundo Delcídio, um “triunvirato”, formado pelos ex-ministros Erenice Guerra (Casa Civil),

Antônio Palocci (Fazenda) e Silas Rondeau (Minas e Energia), desviou pelo menos R$ 45 milhões dos cofres públicos para campanhas do PT e do PMDB nos anos de 2010 e 2014.

Campanha - Em relação a dinheiro irregular na campanha de 2014, o ex-líder do governo mencionou o ministro Edinho Silva, tesoureiro da campanha de Dilma naquele ano. Segundo Delcídio, Edinho “esquentou” recursos provenientes da indústria farmacêutica usando a contabilidade das campanhas para governador e forjando falsas prestações de serviço. O senador disputou o governo de Mato Grosso do Sul em 2014. Edinho nega.

Lula - Delcídio já citou o nome do ex-presidente Lula. O senador afirmou que um dos temas que “mais afligem” o ex-presidente é a CPI do Carf, que apura esquema de compra de medidas provisórias no governo do petista para favorecer montadoras e o envolvimento do seu filho no esquema.

Dilma Rousseff - O senador ainda acusou a presidente Dilma Rousseff de atuar três vezes para interferir na Operação Lava Jato por meio do Poder Judiciário. “É indiscutível e inegável a movimentação sistemática do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da própria presidente Dilma Rousseff no sentido de promover a soltura de réus presos na operação”, afirmou Delcídio. Dilma criticou, na ocasião, a “suposta” delação do ex-líder do governo.

PSDB e PMDB - O senador Delcídio também teria citado em depoimento o senador tucano Aécio Neves e peemedebistas como o presidente do Senado, Renan Calheiros, e os senadores Edison Lobão, Romero Jucá e Valdir Raupp. Todos os parlamentares citados pelo ex-líder do governo no Senado negam participação no esquema de corrupção.

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