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Em ano eleitoral, PT busca aproximação com líderes dos protestos de junho

Ricardo Galhardo - O Estado de S. Paulo

26 Março 2014 | 20h 54

Sigla que foi expulsa das ruas nas manifestações do ano passado marcou rodada de conversas na próxima semana com movimentos como Passe Livre e Fora do Eixo

Em ano eleitoral o PT não quer correr o risco de voltar a ser expulso das ruas, a exemplo do que aconteceu durante as manifestações de junho do ano passado. O presidente nacional do partido, Rui Falcão, convidou vários movimentos que participaram dos protestos de junho para uma rodada de conversas na semana que vem.

O objetivo, segundo o secretário nacional de juventude do PT, Jefferson Lima, é ouvir as demandas destes movimentos e convidá-los a contribuir com o programa de governo da campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff.

"A ideia é ouvir mais do que falar", disse o dirigente petista. Entre os convidados estão grupos criados recentemente que protagonizaram os protestos de 2013 como Levante Popular da Juventude, Fora do Eixo (coletivo do qual faz parte a mídia Ninja) e organizadores da Marcha da Maconha até movimentos tradicionais com longo histórico de colaboração com o PT como União Nacional dos Estudantes (UNE), União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES) e os setoriais de juventude do Movimento dos Sem Terra (MST) e Central Única dos Trabalhadores (CUT).

O encontro faz parte do esforço do PT para se aproximar dos movimentos que foram às ruas no ano passado, entender suas demandas e evitar que se repita às vésperas da eleição o fenômeno da queda brusca de aprovação a Dilma a exemplo do que ocorreu no ano passado, quando o índice de popularidade da presidente despencou de 57% de ótimo/bom para 30% em três semanas de protestos, segundo o Estadão Dados.

O PT também espera usar a aproximação para quebrar a barreira que separa a juventude que se manifestou em 2013 dos partidos políticos. Bandeiras do PT foram rasgadas e militantes do partido expulsos das ruas durante as jornadas de junho.

A ideia de contribuir para o programa de Dilma é bem vista por alguns movimentos que, no entanto, deixam claro que o diálogo não representa adesão à candidatura da presidente. "Ainda não deliberamos sobre o convite mas em princípio estamos dispostos a dialogar. A gente sabe que os partidos têm interesse eleitoral mas a partir do momento que nos colocamos como agentes políticos isso acontece", disse Carla Bueno, 26 anos, do Levante Popular da Juventude.

De acordo com ela, o Levante não deve apoiar formalmente nenhum candidato mas em São Paulo vai trabalhar pela derrota da "direita", representada, segundo Carla, pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB).

"Se o Rui Falcão quer ouvir nós vamos falar", disse Pablo Capilé, do Fora do Eixo, que já confirmou presença. O coletivo participou em 2012 do movimento Existe Amor em SP, que apoiou a candidatura do petista Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo, e teve encontros pessoais com o ex-presidente Lula.

Segundo Capilé, os grupos que compõem o Fora do Eixo terão autonomia para apoiar candidatos regionalmente e ainda vai decidir qual posição tomar na disputa presidencial.

O FDE articula com integrantes das comunidades acadêmica e artística a elaboração de uma plataforma comum que será discutida com todos candidatos. "Mas só vamos dialogar com quem tem histórico de diálogo, o que exclui muita gente", disse Capilé.

Para movimentos ligados a outros partidos como o Juntos, composto na maior parte por militantes do PSOL, o diálogo proposto pelo PT é uma tentativa de cooptação. "O PT vem tentando cooptar há algum tempo mas duvido muito que consiga trazer os movimentos que foram para a rua em junho. Não por acaso o PT foi expulso das ruas no ano passado", disse Thiago Aguiar, do Juntos.

Outros grupos, como Movimento Luta Popular, cobram coerência entre o discurso político e a prática do PT. Segundo a ativista Gabi Moncau, ao mesmo tempo em que petistas como a própria Dilma apontam arbitrariedades da Polícia Militar comandada por Alckmin no caso do Pinheirinho -de onde 1.700 famílias foram expulsas pela PM em janeiro de 2012-- a prefeitura de Osasco, comandada pelo PT, vira as costas para o caso da ocupação Esperança, onde 600 famílias têm ordem da Justiça para sair até a metade abril de um terreno ocupado.

"É um outro Pinheirinho que pode estourar no colo do PT", disse Gabi, que também integra o coletivo DAR, um dos organizadores da Marcha da Maconha. Já o Movimento Passe Livre (MPL), principal protagonista das manifestações do ano passado, ainda não foi convidado para o encontro com Falcão mas segundo um de seus representantes, Marcelo Hotinsky, não teria dificuldades em dialogar com o PT.

"Não vamos fazer campanha para ninguém mas é óbvio que para aprovar nossas propostas precisamos passar pelas instâncias partidárias e políticas", disse Marcelo.

Segundo ele, o MPL vai voltar às ruas em junho, durante a Copa do Mundo, para pedir a redução da tarifa de transporte público em São Paulo, atualmente de R$ 3, e mudanças no critério de cobrança das empresas de ônibus da cidade.

Hoje as empresas cobram por passageiro, o MPL defende que na renegociação dos contratos, ainda neste ano, o critério passe a ser a quilometragem rodada. "Queremos fazer grandes manifestações em junho, no período da Copa, quando todos os holofotes estarão voltados para o Brasil e o governo estará mais vulnerável", disse.

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