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Em ano eleitoral, PT busca aproximação com líderes dos protestos de junho

Sigla que foi expulsa das ruas nas manifestações do ano passado marcou rodada de conversas na próxima semana com movimentos como Passe Livre e Fora do Eixo

Em ano eleitoral o PT não quer correr o risco de voltar a ser expulso das ruas, a exemplo do que aconteceu durante as manifestações de junho do ano passado. O presidente nacional do partido, Rui Falcão, convidou vários movimentos que participaram dos protestos de junho para uma rodada de conversas na semana que vem.

O objetivo, segundo o secretário nacional de juventude do PT, Jefferson Lima, é ouvir as demandas destes movimentos e convidá-los a contribuir com o programa de governo da campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff.

"A ideia é ouvir mais do que falar", disse o dirigente petista. Entre os convidados estão grupos criados recentemente que protagonizaram os protestos de 2013 como Levante Popular da Juventude, Fora do Eixo (coletivo do qual faz parte a mídia Ninja) e organizadores da Marcha da Maconha até movimentos tradicionais com longo histórico de colaboração com o PT como União Nacional dos Estudantes (UNE), União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES) e os setoriais de juventude do Movimento dos Sem Terra (MST) e Central Única dos Trabalhadores (CUT).

O encontro faz parte do esforço do PT para se aproximar dos movimentos que foram às ruas no ano passado, entender suas demandas e evitar que se repita às vésperas da eleição o fenômeno da queda brusca de aprovação a Dilma a exemplo do que ocorreu no ano passado, quando o índice de popularidade da presidente despencou de 57% de ótimo/bom para 30% em três semanas de protestos, segundo o Estadão Dados.

O PT também espera usar a aproximação para quebrar a barreira que separa a juventude que se manifestou em 2013 dos partidos políticos. Bandeiras do PT foram rasgadas e militantes do partido expulsos das ruas durante as jornadas de junho.

A ideia de contribuir para o programa de Dilma é bem vista por alguns movimentos que, no entanto, deixam claro que o diálogo não representa adesão à candidatura da presidente. "Ainda não deliberamos sobre o convite mas em princípio estamos dispostos a dialogar. A gente sabe que os partidos têm interesse eleitoral mas a partir do momento que nos colocamos como agentes políticos isso acontece", disse Carla Bueno, 26 anos, do Levante Popular da Juventude.

De acordo com ela, o Levante não deve apoiar formalmente nenhum candidato mas em São Paulo vai trabalhar pela derrota da "direita", representada, segundo Carla, pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB).

"Se o Rui Falcão quer ouvir nós vamos falar", disse Pablo Capilé, do Fora do Eixo, que já confirmou presença. O coletivo participou em 2012 do movimento Existe Amor em SP, que apoiou a candidatura do petista Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo, e teve encontros pessoais com o ex-presidente Lula.

Segundo Capilé, os grupos que compõem o Fora do Eixo terão autonomia para apoiar candidatos regionalmente e ainda vai decidir qual posição tomar na disputa presidencial.

O FDE articula com integrantes das comunidades acadêmica e artística a elaboração de uma plataforma comum que será discutida com todos candidatos. "Mas só vamos dialogar com quem tem histórico de diálogo, o que exclui muita gente", disse Capilé.

Para movimentos ligados a outros partidos como o Juntos, composto na maior parte por militantes do PSOL, o diálogo proposto pelo PT é uma tentativa de cooptação. "O PT vem tentando cooptar há algum tempo mas duvido muito que consiga trazer os movimentos que foram para a rua em junho. Não por acaso o PT foi expulso das ruas no ano passado", disse Thiago Aguiar, do Juntos.

Outros grupos, como Movimento Luta Popular, cobram coerência entre o discurso político e a prática do PT. Segundo a ativista Gabi Moncau, ao mesmo tempo em que petistas como a própria Dilma apontam arbitrariedades da Polícia Militar comandada por Alckmin no caso do Pinheirinho -de onde 1.700 famílias foram expulsas pela PM em janeiro de 2012-- a prefeitura de Osasco, comandada pelo PT, vira as costas para o caso da ocupação Esperança, onde 600 famílias têm ordem da Justiça para sair até a metade abril de um terreno ocupado.

"É um outro Pinheirinho que pode estourar no colo do PT", disse Gabi, que também integra o coletivo DAR, um dos organizadores da Marcha da Maconha. Já o Movimento Passe Livre (MPL), principal protagonista das manifestações do ano passado, ainda não foi convidado para o encontro com Falcão mas segundo um de seus representantes, Marcelo Hotinsky, não teria dificuldades em dialogar com o PT.

"Não vamos fazer campanha para ninguém mas é óbvio que para aprovar nossas propostas precisamos passar pelas instâncias partidárias e políticas", disse Marcelo.

Segundo ele, o MPL vai voltar às ruas em junho, durante a Copa do Mundo, para pedir a redução da tarifa de transporte público em São Paulo, atualmente de R$ 3, e mudanças no critério de cobrança das empresas de ônibus da cidade.

Hoje as empresas cobram por passageiro, o MPL defende que na renegociação dos contratos, ainda neste ano, o critério passe a ser a quilometragem rodada. "Queremos fazer grandes manifestações em junho, no período da Copa, quando todos os holofotes estarão voltados para o Brasil e o governo estará mais vulnerável", disse.