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Entrevista. Marcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência

Especialista avalia que voto do brasileiro está mais pragmático e menos ideologizado

‘Eleitor quer ganhos, sem perder o que conquistou’

Lourival Sant'anna

07 Junho 2014 | 16h 06

 CEO do Ibope Inteligência, Marcia Cavallari explica, em entrevista ao Estado, qual é a mudança que o eleitor deseja, por que isso é fundamental para a eleição e como o instituto chegou aos perfis de eleitores que foram entrevistados para este caderno.

Para a análise da corrida eleitoral, por que é importante medir o desejo de continuidade ou de mudança do eleitorado?

Essa pergunta é fundamental para medir o clima no qual a eleição será realizada. Se o desejo de continuidade é grande, significa que o atual governante está bem e tem chances de se reeleger ou de fazer o seu sucessor. Por outro lado, se há um forte desejo de mudança, não se pode dizer que o governante não terá chances de vencer, pois outras variáveis estarão em jogo.

Essa divisão entre quem quer continuidade ou mudança no governo pode prever o resultado de uma eleição?

Não, não se pode fazer projeções a partir dos resultados de uma única pergunta. Sempre há um conjunto de fatores que interferem no resultado de uma eleição e, que se forem corretamente observados e analisados, ajudarão no entendimento dos movimentos das curvas de tendência. O objetivo de uma pesquisa não é projetar os resultados de uma eleição, mas sim levantar elementos para se entender a evolução das opiniões.

Essa correlação entre voto e desejo de mudança é um fenômeno que só acontece no Brasil ou é universal?

Tendo em vista a quantidade de manifestações contra os governos que vêm ocorrendo em vários países do mundo, pode-se dizer que é um fenômeno universal. As pessoas estão discutindo questões que atualmente têm gerado muita insatisfação, sejam elas relativas à transparência dos governos, à qualidade dos serviços prestados nas áreas da saúde, educação, segurança, transporte, etc.

Em comparação às eleições presidenciais anteriores, a de 2014 se assemelha mais a qual? À de 1998 ou à de 2002?

Nas eleições de 1998, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se reelegeu no primeiro turno. Já em 2002, havia um desejo grande de mudança e Lula se elegeu pela primeira vez para um cargo executivo. Do ponto de vista do desejo de mudança, as eleições de 2014 se assemelham às de 2002.

Esse desejo majoritário por mudança significa que a oposição vai necessariamente ganhar a eleição?

Não, as pesquisas que temos realizado mostram que há um desejo de mudança do Estado brasileiro. O eleitor deseja mudanças na forma de se fazer as coisas, ele espera que a economia esteja controlada, que haja avanços na saúde, educação, segurança, etc. Anseia por um país mais justo, mais humano e um governo que o respeite como cidadão. Nada impede que a situação também possa responder a essas demandas.

É uma questão apenas de o eleitor mudancista descobrir quem são os candidatos de oposição ou é mais complicado do que isso?

É mais complicado, pois não se trata somente de ser de oposição ou situação. O desejo por mudança vai beneficiar o candidato que conseguir demonstrar que é o mais alinhado com as mudanças que devem ser feitas e também o que tem mais condições de implementá-las. Até o momento, as pesquisas mostram uma liderança da presidente Dilma, apesar de a maioria absoluta desejar mudanças no atual governo.

Como o Ibope identificou esses grupos de eleitores mudancistas e continuístas que viraram objeto das reportagens deste caderno?

Por meio de uma análise estatística, chamada de árvore de decisão. Essa técnica permite criar hipóteses baseadas em instâncias particulares para que se chegue a conclusões gerais. É uma estrutura muito usada em problemas de classificação. As árvores vão se ramificando, levando a segmentos específicos do eleitorado que compartilham com mais força aquela opinião. Essa análise gerou seis grupos, onde o desejo de mudança está mais presente. O maior deles, representando 21%, é composto por eleitores de classe C, da Região Sudeste, residentes em municípios médios e grandes. O segundo maior, com 14%, são os eleitores de classes A e B com nível médio ou superior residentes no Sudeste.

O desejo de mudança ou continuidade é estável ou ele pode mudar ao longo da campanha? O que pode interferir nisso? A Copa, a economia?

Pode mudar, e muda continuamente, não somente em função da Copa ou da economia. Os fatores estão todos interligados.

O que é mais eficiente para o governante que disputa a reeleição quando o eleitorado quer mudança? Sinalizar que vai mudar seu governo ou apostar no discurso do medo, de que a mudança pode implicar perder o que o eleitor já conseguiu?

O eleitor está cobrando cada vez mais consistência dos candidatos e decidindo o seu voto de forma mais pragmática e menos ideologizada. Ele avalia quais benefícios concretos cada candidato pode lhe trazer. Ele quer ganhos tangíveis a curto prazo, mas também não quer perder o que já conquistou. Cada candidato vai procurar valorizar perante o eleitor as condições que possui para trazer um impacto positivo para sua vida. Resta saber qual deles vai convencer o eleitor. Além disso, não podemos esquecer que as pessoas, quando falam em mudanças, querem dizer melhorias, avanços, enfim, querem as coisas em movimento.