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É preciso materializar o ‘mal-estar’, diz Aloysio

Débora Bergamasco - O Estado de S. Paulo/ Brasília

01 Março 2014 | 17h 24

Para senador tucano, desafio de Aécio Neves é apresentar um projeto de País que dê conta do sentimento de mudança

Com a missão de ajudar a abrir portas em São Paulo para o pré-candidato tucano à Presidência, Aécio Neves, e de usar a tribuna do Senado para atacar o governo petista, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) diz que a presidente Dilma Rousseff "vive uma relação de intrigas e chantagens com sua base parlamentar".

Citando pesquisas que mostram a disposição do eleitor para mudanças, o tucano destaca a necessidade de se achar um discurso que canalize esse sentimento. "Esse mal-estar (da sociedade) ainda não se materializou na forma de um projeto político preciso", afirma nesta entrevista ao Estado.

Além de apontar os erros dos adversários, Aloysio admitiu que as acusações de corrupção que pesam sobre o ex-presidente do PSDB, ex-governador e ex-deputado Eduardo Azeredo, réu no chamado mensalão mineiro, já estão contabilizadas como "prejuízo político".

Com um legado de mais de 11 milhões de votos em São Paulo conquistados na eleição de 2010, Aloysio acredita que, agora, Aécio adotou a estratégia correta para tentar conquistar os eleitores paulistas. Trata-se de "grudar" sua imagem à de lideranças de São Paulo, como à do governador Geraldo Alckmin, e à do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Quando FHC venceu a primeira eleição, ele defendia o combate à inflação. Lula ganhou prometendo melhorias sociais. Os candidatos hoje têm bandeiras novas?

Aloysio Nunes Ferreira: A presidente Dilma não propôs nem executou nenhuma política nova. Candidatou-se à reeleição cedo demais e aí condenou o seu governo a ser mero executor de políticas de curto prazo. Fizemos uma reunião de líderes no Congresso para programarmos nosso ano legislativo. Cada líder apresentou a pauta de suas prioridades e os do governo não apontaram nada, zero. Porque Dilma se acomodou a um tipo de condução em que o governante não conduz, é conduzido.

Lula surfou em uma onda externa muito favorável e simplesmente deixou as coisas correrem. Ela seguiu a toada e o resultado foi o desperdício de um momento extremamente positivo. Como a cigarra que cantou durante o verão e quando chegou o inverno não tinha o que comer. Hoje, faz medidas de curto prazo e midiáticas, como o Mais Médicos, as desonerações setoriais, a intervenção desastrosa no mercado de energia. Dilma desperdiçou uma base parlamentar oceânica da qual hoje ela é refém. É uma relação de intrigas e de chantagens entre ela e a base parlamentar, que leva ao jogo de soma zero. O Congresso está parado, não enfrenta nada. A Câmara dos Deputados há muito tempo não delibera.

Como vê essa briga na base aliada do governo?

Aloysio Nunes Ferreira: É um amálgama de interesses partidários que tem como objetivo a simples reprodução do patrimônio político de cada um e da própria presidente, que visa acumular o maior tempo de propaganda eleitoral. Hoje, o governo promove obstrução com medo de enfrentar sua própria base. Por outro lado, a base cozinha o governo em fogo lento, enquanto não saem reforma ministerial e cargos nas agências reguladoras.

Qual é o desafio do senador Aécio Neves para deslanchar no Estado de São Paulo?

Aloysio Nunes Ferreira: O Aécio tem que se sintonizar com essa corrente política que é vitoriosa, como Alckmin e FHC. Como presidente do partido, ele também busca contato mais íntimo com os líderes políticos que não aparecem nos jornais, mas que são grandes mobilizadores de votos. Existe um mal-estar, os brasileiros querem mudança.

Hoje a presidente Dilma venceria no primeiro turno. Por quê?

Aloysio Nunes Ferreira: É que esse mal-estar ainda não se materializou na forma de um projeto político preciso. Você tem um descontentamento que o mundo político ainda não conseguiu expressar. Esse é o desafio de Aécio.

O ex-governador Eduardo Azeredo (PSDB) fez bem em renunciar ao mandato de deputado?

Aloysio Nunes Ferreira: Do ponto de vista político, o simples fato de que a mídia cunhou a expressão "mensalão mineiro", o prejuízo já está contabilizado. Nós vamos ter que demonstrar, ao longo da eleição, que não houve mensalão mineiro. Foi um crime eleitoral cometido no bojo de uma campanha pluripartidária. No caso do PT, foi algo tentacular, que não se explica por eleição.

Como o eleitor terá a garantia de que quem comete um crime durante a campanha não cometerá um crime de esfera federal quando assumir o poder?

Aloysio Nunes Ferreira: Porque nós nunca fizemos isso. O PSDB não está pleiteando ir para o governo federal pela primeira vez. Já governamos o País durante oito anos e isso não aconteceu. Veja a maneira como FH tratou das agências reguladoras, dos bancos oficiais, das empresas estatais. Tudo com o maior profissionalismo, lisura, por isso ele é respeitado universalmente.

O caso Alstom contamina a candidatura do governador Geraldo Alckmin e o senhor pessoalmente?

Aloysio Nunes Ferreira: Sobre mim, foi uma tentativa canhestra e caluniosa de envolver meu nome, mas nem sequer foi levada em conta nem pelo delegado, nem pelo Ministério Público, nem pelo juiz que cuidou do caso na esfera paulista. Sobre o governador, eu acho que não contamina. Em nenhum momento a pessoa de Geraldo Alckmin foi colocada em causa disso.

No caso do mensalão, Lula e Dilma não foram acusados, mas a imagem dos petistas não acabou chamuscada?

Aloysio Nunes Ferreira: No caso do PT, Lula foi advertido (sobre a existência do mensalão). Ele não foi réu, mas deveria ter sido. Se o Dirceu, que era ministro da Casa Civil, foi condenado, evidentemente o Lula também deveria ter sido, ou pelo menos trazido a se explicar.

Eduardo Azeredo argumenta que, assim como o Lula não sabia do mensalão, ele também não sabia do esquema mineiro...

Aloysio Nunes Ferreira: Tudo bem, essa declaração do Azeredo eu não subscrevo.

Seu nome está sendo cogitado para ser candidato à vice na chapa do senador Aécio. Se ele te convidar, o senhor aceita?

Aloysio Nunes Ferreira: Isso não é pergunta que se faça.

Por que não?

Aloysio Nunes Ferreira: Porque não. Ainda não está na pauta.