Dossiê da Casa Civil contra FHC foi decisão de governo

Operação dossiê saiu de pelo menos duas reuniões realizadas no Planalto, sob comando da ministra Dilma

Christiane Samarco e Vera Rosa, de O Estado de S. Paulo,

28 Março 2008 | 23h50

Na primeira semana de fevereiro, muito antes de a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Cartões ter sido instalada, no dia 11 de março, o Palácio do Planalto mobilizou toda a Esplanada dos Ministérios para coletar informações e montar um dossiê com dados sobre gastos do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) com cartões corporativos e contas tipo B. Nesta sexta-feira, 28, o governo deflagrou uma estratégia de despiste, dizendo que havia coletado as informações a pedido da CPI.   Veja também: "Candidatura de Dilma em 2010 está morta", diz analista Dilma admite 'banco de dados' sobre FHC e nega dossiê Briga entre FHC e Lula antecipa debate sobre sucessão Os ministros caídos  Entenda a crise dos cartões corporativos  IMAGENS: Os momentos de 'amor e ódio' de FHC e Lula    A operação dossiê saiu de pelo menos duas reuniões realizadas no Planalto, sob comando da ministra Dilma Rousseff e com participação dos ministros Paulo Bernardo (Planejamento), José Múcio Monteiro (Relações Institucionais) e Franklin Martins (Comunicação). Algumas vezes, o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), foi ao Planalto consultar os ministros. No Guarujá, de férias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva era consultado e informado sobre as estratégias para resistir à pressão da oposição em favor de uma CPI, depois de consumada a demissão da ministra Matilde Ribeiro (Igualdade Racial), no dia 1º de fevereiro.   Foi depois de uma reunião no Planalto, com o governo decidido a coletar dados sobre o governo FHC, que a Secretaria de Comunicação Social, do ministro Franklin Martins, resolveu distribuir um e-mail a todos os "coordenadores e assessores" de comunicação dos 37 ministérios e principais repartições da administração direta, pedindo que encontrassem prestações de contas antigas, personagens e relatórios de fiscalização, além de estatísticas de valores desembolsados desde 1998.   Ao reunir dados sigilosos, sem solicitação jurídica ou da CPI, o governo teria de mantê-los longe de vazamentos, o que não aconteceu.     "Se houve alguma irregularidade (com gastos do governo FHC), eles deveriam ser apontados para ressarcimento do erário. A divulgação desses desvios agora só serve para chantagear, aterrorizar e ameaçar", avaliou o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), ex-ministro do Desenvolvimento Agrário do governo FHC. O texto do e-mail da Secom mostrava que o relatório dos ministérios deveria incluir o "comprovante de saneamento do erro", quando constatada irregularidade. Solicitava, ainda, que fossem apurados e identificados "personagens, de preferência alguém que estava na função antes da instituição do cartão" - ou seja, antes de 2001, no governo FHC, portanto.   Está escrito no pedido da Secom que a coleta de dados deveria atender "sobretudo" aos "mecanismos tradicionais de gastos públicos utilizados antes " - ou seja no governo FHC. Esse e-mail contradiz a informação de Dilma de que não teria havido "investigação sobre o governo passado". Os dados eram concentrados na Casa Civil, sob coordenação da secretária-executiva, Erenice Guerra.   "Aloprado do PT"   Logo depois que os dados começaram a ser coletados, alguns ministros diziam abertamente, em Brasília, que o governo estava se armando contra a oposição. Nesta sexta, embora deles Lula admitisse que o vazamento deve ter partido de um "aloprado do PT" para atingir a Dilma, na condição de pré-candidata à sucessão de Lula, interlocutores do presidente fizeram circular a versão de que o suspeito seria um antigo servidor tucano infiltrado na Casa Civil.   O ministro Paulo Bernardo afirma que não recebeu a mensagem da Secom nem tomou conhecimento dela, e sustenta que jamais soube da existência de qualquer dossiê. Explica que só começou a levantar dados do Planejamento e solicitou que os demais ministérios fizessem o mesmo, diante do requerimento da CPI dos Cartões, expedido em 12 de março. "Eu relatei ao presidente Lula que havia recebido o primeiro requerimento da CPI e sugeri que, se ele não se opusesse, eu poderia coordenar o levantamento", conta.   Foi a partir daí que seu secretário-executivo reuniu os responsáveis pelas secretarias-executivas dos demais ministérios, há cerca de dez dias. Acertou-se, na ocasião, que o Planejamento centralizaria todas as informações.   Bernardo conta que ainda não examinou em detalhes a documentação já levantada, mas diz que não foi difícil concluir que as irregularidades são fartas. "Bastou passar os olhos e já deu para concluir que vai dar problema, em vários ministérios. A CPI certamente vai averiguar tudo e determinar providências."    

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