Do mensalão ao 'Erenicegate', uma crise por ano

Com mais de 60 denúncias graves de corrupção em dois mandatos, imagem de honestidade construída pelo PT termina gestão abalada

Vannildo Mendes / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2010 | 23h00

Desde a redemocratização do País, o governo Luiz Inácio Lula da Silva foi o mais afetado por escândalos e, paradoxalmente, o que mais teve capacidade de sair ileso deles. O ex-sindicalista do ABC, que sustentou por mais de vinte anos uma dura oposição contra desvios éticos de governantes, enfrentou mais de 60 denúncias graves de corrupção nos seus dois mandatos – média de oito por ano. Elas causaram baixas no staff e abalaram a imagem de probidade dos petistas.

 

O antecessor de Lula, Fernando Henrique Cardoso, sofreu um número três vezes menor de inquéritos anticorrupção da Polícia Federal e viveu sua pior crise no episódio das privatizações. Atingido pelo esquema de arrecadação de propina montado por seu tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, o ex-presidente Fernando Collor sofreu um impeachment.

 

Para a ONG Transparência Brasil, que monitora a corrupção no País em parceria com a Controladoria Geral da União (CGU), não se pode dizer que o governo Lula se caracteriza pelos escândalos, porque teve méritos em diversos outros setores e muitos dos casos investigados são herdados de gestões anteriores, ou derivam de práticas políticas de difícil solução. Mas num ponto fracassou: "Ele manteve a forma espúria de loteamento do poder, a principal causa de corrupção no Brasil", diz Cláudio Weber Abramo, diretor executivo da ONG.

 

Do caso Waldomiro Diniz, em 2004, ao chamado "Erenicegate", em 2010, os escândalos da era Lula começaram e terminaram na Casa Civil, o ministério que, não por acaso, centralizou as negociações de cargos e divisão de poder com os partidos da base aliada. O maior de todos foi o escândalo do mensalão, pelo qual 40 membros e colaboradores do primeiro mandato de Lula tornaram-se réus em processo por corrupção e formação de quadrilha que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).

 

A gravidade dos escândalos pode ser medida pelo fato de terem tirado de combate duas estrelas do partido, candidatos naturais à sucessão presidencial, os ex-ministros José Dirceu (Casa Civil), apontado como cabeça do mensalão, e Antônio Palocci (Fazenda), envolvido na quebra de sigilo do caseiro Francenildo Santos Costa. Isso teria obrigado Lula a buscar em Dilma Rousseff o plano C para a sucessão.

 

Lula termina o governo com popularidade recorde, mas tanto ele como sua sucessora pagaram um preço. Dilma, em 2010, assim como Lula, em 2006, deixou de faturar a eleição no primeiro turno por conta de denúncias de corrupção. Ele, envolto com os casos do mensalão e dos aloprados, grupo de petistas presos com uma mala de dinheiro para compra de dossiês contra dirigentes tucanos. Ela, também por conta da acusação de montagem de dossiês e do escândalo de tráfico de influência na Casa Civil na gestão de Erenice Guerra, sua sucessora na pasta e braço direito no governo desde o primeiro mandato de Lula.

 

Muitas das denúncias da Era Lula foram filmadas em vídeo e difundidas na internet. Foi o caso do escândalo dos Correios, embrião do mensalão. Seis outros episódios tiveram idêntico teor explosivo, o que marcou a Era Lula com pelo menos uma crise grave por ano. "Foi o governo da lassidão moral e da tolerância com a corrupção", definiu o senador Demóstenes Torres (DEM-GO). O DEM também protagonizou um escândalo de proporções homéricas, o "mensalão do DF", envolvendo o governador José Roberto Arruda, o primeiro a ser preso no exercício do cargo.

 

Protagonista do primeiro grande escândalo no governo Lula, o ex-assessor parlamentar da Casa Civil Waldomiro Diniz foi exonerado em fevereiro de 2004, após divulgação de fita de vídeo em que ele aparece pedindo propina ao empresário de jogos Carlos Cachoeira. O segundo caso também teve audiência eletrônica, com a divulgação, em 2005, de fita de vídeo em que o ex-diretor de Administração dos Correios, Maurício Marinho, aparece enfiando propina nos bolsos e narrando como funcionava o esquema de corrupção na estatal.

 

Indiciado como mentor do esquema dos Correios, o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, foi à forra e denunciou ampla arrecadação de propina junto empresas que tinham negócios com o setor público para pagamento de mesada à base aliada e compra de apoio no Congresso, o chamado mensalão.

 

Ainda em 2005, a Operação Vampiros, que revelou fraudes na compra de hemoderivados, derrubou o ministro da Saúde, Humberto Costa (PT-PE). Recentemente inocentado na Justiça, ele se elegeu senador.

 

Em 2006, a Saúde gerou outro escândalo, o das Sanguessugas – venda de ambulâncias superfaturadas para prefeituras. O caso deu origem a outro escândalo, o do dossiê antitucano montado pelos "aloprados", para citar a maneira como o próprio Lula se referiu aos petistas envolvidos. Ainda em 2006, Palocci foi demitido após confirmação do seu envolvimento na quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo, testemunha da CPI dos Bingos, na qual foi denunciada a "República de Ribeirão Preto".

 

Em 2008, o escândalo dos gastos com cartões corporativos, denunciado pelo Estado, derrubou a ministra Matilde Ribeiro, da Igualdade Racial. A era dos escândalos termina em 2010 com o abertura de dois inquéritos pela PF. Um investiga quebra de sigilo e montagem de dossiês contra dirigentes tucanos. O "Erenicegate" investiga esquema de tráfico de influência no governo.

 

Os escândalos da era Lula

 

Waldomiro Diniz

Fevereiro de 2004

Fita de vídeo mostra o então assessor de Assuntos Parlamentares da Casa Civil negociando propina com o empresário de jogos Carlos Cachoeira em troca de apoio a projetos

 

Vampiros

Maio de 2004

Esquema de fraudes na compra de hemoderivados, derrubou o ministro da Saúde, Humberto Costa. Deu origem à operação Sanguessugas, que apurou o caso de ambulâncias superfaturadas

 

Correios

Maio de 2005

Vídeo mostra o diretor de Administração dos Correios, Maurício Marinho, recebendo propina e detalhando esquema de corrupção na estatal

 

Mensalão

Junho de 2005

Deputado Roberto Jefferson (PTB), denuncia arrecadação de propina de empresas com negócios no governo para pagamento de mesada à base aliada e compra de apoio de parlamentares no Congresso

 

Palocci e o caseiro

Março de 2006

O caseiro Francenildo Santos Costa tem sigilo bancário quebrado após revelar, em entrevista ao Estado, encontros do ministro Antonio Palocci para festas e partilha de dinheiro numa mansão do Lago Sul. O escândalo derrubou o ministro

 

Aloprados

Setembro de 2006

Grupo de petistas, alguns das relações pessoais de Lula, são presos num hotel em São Paulo com uma mala de dinheiro para compra de dossiês contra dirigentes tucanos

 

Cartões corporativos

Janeiro de 2008

Gastos abusivos, denunciados pelo Estado, causam demissão da ministra Matilde Ribeiro (Igualdade Racial) e desconforto em membros do primeiro escalão

 

Erenice Guerra

Setembro de 2010

Filhos da ministra e assessores da Casa Civil são acusados de operar esquema de cobrança de pedágio e tráfico de influência no governo em favor de empresários

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