Divórcio inevitável

Quem reclama de o PMDB ter arrancado sete ministérios de Dilma Rousseff deve lembrar que a alternativa é o partido conquistar todos os 31 – ou, no mínimo, o direito de distribui-los entre aliados. A reforma ministerial foi uma prévia do futuro. Com ou sem impeachment, governo e País estão cada vez mais nas mãos de Eduardo Cunha, Renan Calheiros e companhia. Quanto mais dizem desdenhá-lo, mais cresce o seu poder.

José Roberto de Toledo, O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2015 | 03h00

Cunha não está a um extrato suíço da cassação? Talvez, mas está também a uma palavra de deflagrar o processo de apreciação do impeachment de Dilma. Basta ele responder ao pedido de Bicudo para os tucanos amestrados de Aécio Neves recorrerem ao plenário da Câmara e testarem a capacidade do governo de ter maioria simples. Sem o PMDB, a chance de fracasso governista é de 60%.

Não deixa de ser irônico e instrutivo que o processo que culminou com os peemedebistas aumentando sua fatia no Orçamento da União tenha começado em 2013, com um movimento de protesto contra os vícios de representação da democracia brasileira. O PMDB desviou de balas miradas e perdidas e ganhou cacife.

O poder do PMDB emana dos municípios. São prefeitos, vereadores e funcionários municipais que elegem deputados. É o voto destes, e o tempo de propaganda na TV proporcionado por eles, que o PMDB usa para negociar sua influência junto a qualquer presidente.

Nos últimos 25 anos, esse poder diminui a cada eleição. O PMDB elegeu 38% dos prefeitos do País em 1988. Daquela eleição até 2004, essa porcentagem caiu quatro vezes seguidas, para 34%, 24%, 23% e 19%. A perda se deu, primeiro, em favor do PSDB e, depois, do PT. Ambos os rivais usaram a Presidência para aumentar sua penetração municipal: tucanos duplicaram seu peso nas prefeituras entre 1992 e 2000, e os petistas multiplicaram por três seu número de prefeitos desde que Lula se elegeu. 

A trajetória era desastrosa, e o PMDB se mexeu.

Depois de ser derrotado nas eleições presidenciais de 2002 coligando-se ao PSDB, o PMDB aderiu ao governo do PT em 2004. No 2.º turno de 2006, ajudou Lula a reeleger-se. O partido ganhou mais ministérios e, em 2008, conseguiu reverter a tendência de queda. Voltou a ter 22% das prefeituras.

A nova estratégia não era sustentável, porém. Os peemedebistas tinham se casado com o inimigo. Nas eleições municipais seguintes, o PMDB seguia aliado ao PT em Brasília – agora, com o vice-presidente da República –, mas, nos municípios, a ascensão petista criava muitos focos de conflito entre ambos. 

No pleito de 2012, PT e PMDB foram, ao mesmo tempo, os maiores aliados e os maiores adversários um do outro: tinham o maior número de coligações e o maior número de confrontos diretos entre si. O PT ganhou mais com o jogo duplo: cresceu sua fatia de 10% para 11,4% das prefeituras enquanto os peemedebistas voltaram a perder espaço, de 22% para 18% dos prefeitos eleitos. 

Além de se ver reduzido à menor participação em prefeituras desde sua fundação, pela primeira vez o PMDB elegeu menos vereadores do que havia eleito no pleito anterior. Pior, perdeu o comando sobre 180 mil funcionários municipais e o poder de nomear 20 mil cargos sem concurso. 2012 fez soar um alerta. 

E 2014 fez disparar o alarme: o partido continuou a encolher e perder deputados. Só não perdeu a presidência da Câmara porque Eduardo Cunha foi mais hábil que o governo e o PT, articulou um bloco e, mesmo sem ter a maior bancada, elegeu-se presidente. Vestiu a insatisfação do PMDB e passou a articular a separação litigiosa do casamento inconveniente com os petistas. 

Mesmo que ele caia, mesmo que parte dos peemedebistas esteja acomodada em ministérios, a incompatibilidade municipal entre os dois partidos permanece. E só tende a crescer em 2016.

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