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Divisa de São Paulo e Minas Gerais, ponto crucial de 1932

Roberto Bascchera - O Estado de S.Paulo

09 Julho 2012 | 15h 38

Palco de sangrenta batalha entre as forças federais e as tropas rebeldes paulistas em 1932, o túnel no alto da Serra da Mantiqueira faz hoje a alegria dos turistas que visitam Passa Quatro

Palco de sangrenta batalha entre as forças federais e as tropas rebeldes paulistas em 1932, o túnel no alto da Serra da Mantiqueira, na divisa dos Estados de São Paulo e Minas, hoje faz a alegria dos turistas que visitam Passa Quatro, cidade de 15,7 mil habitantes no circuito das águas do Sul de Minas, a 248 quilômetros de São Paulo.

Em um trecho de ferrovia restaurado há sete anos, uma maria-fumaça de 87 anos, com vagões de madeira e decoração de época, leva os visitantes até o ponto conhecido como Garganta do Embaú, onde centenas de soldados das duas forças morreram em combate há 80 anos. No alto da serra - auge do passeio de duas horas -, o trem para na estação da Rio and Minas Railway construída por ordem de D. Pedro II e inaugurada em 1884 com o nome de Tunnel.

Em 1932, após os combates, a parada virou Estação Coronel Fulgêncio, homenagem ao tenente-coronel Fulgêncio de Souza Santos, comandante do 7º Batalhão da Força Pública de Minas Gerais que morreu em combate defendendo Passa Quatro do avanço das tropas paulistas.

O túnel de 996 metros era considerado estratégico porque se situa exatamente na divisa dos dois Estados em conflito, entre as cidades de Cruzeiro e Passa Quatro. Em um episódio marcante da batalha, as tropas paulistas chegaram a empurrar duas locomotivas para dentro do túnel, tombando-as em seguida, na tentativa de impedir a entrada em São Paulo das tropas federais de Getúlio, vindas do lado mineiro.

Durante décadas, com o declínio do transporte ferroviário, a estação e a linha ficaram abandonadas, mas o potencial turístico do local - com mata fechada, nascentes de água e uma bela paisagem no trajeto entre a estação no centro de Passa Quatro e o alto da serra - fez surgir o projeto de reativação de parte da ferrovia.

Os guias turísticos contam que durante a limpeza e reforma do túnel, em 2005, foram encontradas armas e munição remanescentes dos combates. As paredes ainda conservam marcas de tiros em alguns pontos. A estação Coronel Fulgêncio, reformada, ganhou painéis que contam a história do confronto, com fotos e textos dando destaque à atuação do capitão médico da Força Pública de Minas Juscelino Kubitschek de Oliveira, então um jovem de 29 anos deslocado para servir à tropa na cidade.

A atuação de JK, salvando a vida de feridos em combate, transformou o militar, à época, em herói de guerra para os mineiros. Os relatos dos feitos do capitão médico impressionaram Benedito Valadares, que se tornaria interventor federal no Estado. Valadares abriu as portas da política para Juscelino, que ocupou diversos cargos públicos até se eleger presidente da República, em 1955.