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1964

Discurso de Dilma no Palácio do Planalto aborda Golpe Militar

O Estado de S. Paulo

31 Março 2014 | 18h 49

Veja a íntegra da fala da presidente nesta segunda-feira, 31:

Bom dia a todos. Eu queria iniciar agradecendo a presença de todas as lideranças gaúchas que aqui compareceram.

Saudar o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, que representa aqui os interesses do estado.

Saudar os ministros aqui presentes: o ministro César Borges, dos Transportes, que tem demonstrado, à frente do Ministério dos Transportes, uma capacidade de realização e de execução dos projetos que nós consideramos prioritários; o ministro Aloizio Mercadante, da Casa Civil; ministro Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário; ministro José Elito, do Gabinete de Segurança Institucional; a ministra Ideli Salvatti, da Secretaria de Relações Institucionais; o ministro Thomas Traumann, da Secretaria de Comunicação Social; e a ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos.

Queria cumprimentar também aqui presentes a senadora Ana Amélia, o deputado federal Pepe Vargas.

E queria cumprimentar também os nossos prefeitos: o prefeito José Fortunati, de Porto Alegre, e o prefeito Henrique Tavares, de Guaíba, que são os pontos geográficos da nossa segunda ponte do Guaíba.

E saúdo o Jairo Jorge, representando todos os prefeitos da grande região metropolitana e do Rio Grande do Sul interessados, não só na ligação da região metropolitana, mas também na ligação com a metade Sul do estado.

Queria saudar ainda o senhor Heitor José Muller, presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul. E saúdo o senhor Muller pela sua dedicação desde logo a se empenhar por essa ponte, pela segunda ponte do Guaíba.

E saúdo também o general Jorge Fraxe, diretor-geral do DNIT.

E o presidente do Conselho de Administração do grupo Marques Queiroz Galvão. Quando eu o cumprimentei eu pedi que ele tivesse com a segunda ponte do Guaíba, a mesma dedicação que ocorreu quando eles ganharam a licitação para a construção da BR-448. Tenho certeza que será assim.

Queria também cumprimentar o Fernando Stuck, diretor-executivo da Egetec Engenharia.

Cumprimentar os senhores jornalistas, as senhoras jornalistas, os senhores fotógrafos e cinegrafistas.

Eu gostaria de dizer hoje que, no exercício de um cargo público, nós assumimos vários compromissos. Todos importantes, a maioria urgente. Nós, e aqui estou falando de todos os integrantes do Executivo, queremos cumpri-los, e trabalhamos muito para isso. Há sempre um ou outro compromisso que acaba ganhando um peso significativo na nossa agenda. Na minha agenda, adquiriu esse peso significativo a segunda ponte do Guaíba, pelo fato de eu ter perfeita consciência da importância dessa ponte para população do Rio Grande do Sul, para o desenvolvimento do estado e para a qualidade de vida dos porto-alegrenses, dos integrantes de toda a região metropolitana. E também pelo fato de ser uma demanda histórica. Mais de 20 anos se passaram com essa demanda sendo posta e reposta. E ainda, muitas vezes, pela proximidade pessoal que nós temos com o problema. No meu caso, pelo fato de eu morar - eu estou presidente, mas moro em Porto Alegre -, e de querer ver esse problema superado. Eu sei o que acontece no trânsito da capital quando se eleva o vão da ponte do Guaíba

Então, a construção da segunda ponte é um desses compromissos, e eu tenho empenho em relação a ele. Por isso eu fiz questão de participar da assinatura desse contrato. Nós, o governo federal, vai investir R$ 649 milhões, um pouco mais de R$ 649 milhões, numa obra que é esperada por todos os gaúchos, como eu disse. Nós vamos ter um, quase dois quilômetros de ponte, mais 7,3 quilômetros de acessos a elevados. Por que digo esses números? para mostrar a significação deles quando se considera a largura do estuário do Guaíba e a importância do Rio Grande do Sul não ser seccionado quando o vão da segunda ponte se eleva. Porque até agora você tinha esse fenômeno ocorrendo no Rio Grande do Sul, sistematicamente se separava a capital de todos os gaúchos da metade sul do estado cada vez que a ponte subia e lá ficava... portanto nós vamos ter menos congestionamento, nós vamos ter algo que é fundamental para as pessoas, algo que a gente não consegue repor na vida, que é o tempo, o tempo para o lazer, o tempo para a família, o tempo para olhar os filhos, enfim, o que o Rio Grande do Sul ganha com essa ponte, além da ligação e da unidade, da sua unicidade, ele ganha tempo.

A partir de hoje, os projetos vão começar a ser elaborados, porque essa licitação foi na forma de RDC, Regime de Contratação Especial. O DNIT e o consórcio vencedor acordaram em analisar os projetos à medida que forem sendo concluídos para acelerar o início das obras. Nossa expectativa é grande e trabalhamos e trabalharemos muito para que as obras comecem em junho. Em três anos, a partir de então, a segunda ponte do Guaíba deverá estar pronta.

Estamos investindo muito para melhorar as condições de deslocamento da população de Porto Alegre e em toda a região metropolitana, e eu diria em todo o Rio Grande do Sul. A recuperação do conjunto das obras que o governo federal realiza no estado do Rio Grande do Sul, feita pelo senhor ministro dos Transportes, mostra perfeitamente o tamanho e o esforço dos investimentos que nós realizamos. Eu tenho certeza que, tanto a Rodovia do Parque, quanto o trecho São Leopoldo-Novo Hamburgo do Trensurb, quanto o aeromóvel, quanto todas as rodovias ampliadas e duplicadas, mudam a logística do estado do Rio Grande do Sul, transformam essa logística numa logística de qualidade e permite que o Rio Grande do Sul dê vários passos a frente em direção ao seu destino histórico de ser uma das economias mais importantes do país.

Os recursos para o metrô - não é, prefeito Fortunati? - estão garantidos, e agora, com muito orgulho, nós estamos garantindo também a segunda ponte do Guaíba. Ao consórcio responsável, eu pedi total dedicação à sua execução, e fico muito satisfeita porque eu assisti a dedicação que o consórcio emprestou à construção da BR. Ao DNIT e ao Ministério dos Transportes, nós solicitamos acompanhamento das obras, para que os prazos sejam cumpridos. Nós sabemos das dificuldades de obras de engenharia, mas, como se traçam metas, é para a gente buscar cumpri-las. A todos que estão aqui e os que não estão aqui, que sabem e que lutaram por essa obra, eu proponho que nós tenhamos pelo menos um dia de comemoração, e que esse dia seja o dia que marca a tão sonhada segunda ponte do Guaíba.

Eu queria lembrar algumas coisas. Em cada ação se reflete o sinal da sua época. Nessa ponte do Guaíba está refletido também o sinal de uma época que nós estamos vivendo, uma época diferente do nosso passado, não só como gaúchos, mas como brasileiros. A construção da ponte do Guaíba envolveu abaixo assinado de associações de moradores, de associações, as mais diversas da sociedade civil, envolveu campanhas nas rádios, nos jornais, na internet, mobilização de pessoas, mobilização nas câmaras de vereadores, nas prefeituras, reunião de técnicos do estado com o governo federal, auditorias de preços, licitação, acompanhamento dos órgãos de controle federais sobre a evolução da obra, o Ministério Público, o Judiciário. Enfim, foram cumpridos todos os ritos burocráticos que marcam o nosso país com instituições ativas, independentes e democráticas. Sinal dos tempos.

Cinquenta anos atrás, na noite de hoje, o Brasil deixou de ser um país de instituições ativas, independentes e democráticas. Por 21 anos, mais de duas décadas, nossas instituições, nossa liberdade, nossos sonhos foram calados. Hoje, nós podemos olhar para esse período, olhar justamente do ponto de vista dessa obra específica, mas que mostra toda a capacidade e o envolvimento de todas as instituições num clima de democracia. Nós podemos olhar para este período e aprender com ele, porque nós o ultrapassamos. O esforço de cada um de nós, o esforço de todas as lideranças do passado, daqueles que vivem e daqueles que morreram, fizeram com que nós ultrapassássemos essa época, os 21 anos.

Nós aprendemos o valor da liberdade, o valor de um Legislativo e de um Judiciário independentes e ativos. Aprendemos o valor da liberdade de imprensa, o valor de eleger pelo voto direto e secreto de todos os brasileiros governadores, prefeitos, de eleger, por exemplo, um ex-exilado, um líder sindical, que teria sido preso, que foi preso várias vezes, e uma mulher também que foi prisioneira. Aprendemos o valor de ir às ruas e nós mostramos um diferencial quando as pessoas foram às ruas demandar mais democracia. Aqui no Brasil não houve um processo de abafamento desse fato. O valor, portanto, de ir às ruas, o valor de ter direitos e de exigir mais direitos.

Embora nós saibamos que os regimes de exceção sobrevivem sempre pela interdição da verdade, pela interdição da transparência, nós temos o direito de esperar que, sob a democracia, se mantenha a transparência, se mantenha também o aceso e a garantia da verdade e da memória e, portanto, da história. Aliás, como eu disse quando instalamos a Comissão da Verdade, a palavra "verdade" na tradição ocidental nossa, que é grega, é exatamente o oposto do esquecimento e é algo tão forte que não dá guarida para o ressentimento, o ódio, nem tampouco para o perdão. Ela é só e, sobretudo, o contrário do esquecimento, é memória e é história. É nossa capacidade de contar tudo o que aconteceu.

O dia de hoje exige que nós nos lembremos e contemos o que aconteceu. Devemos isso a todos os que morreram e desapareceram, devemos aos torturados e aos perseguidos, devemos às suas famílias, devemos a todos os brasileiros. Lembrar e contar faz parte, é um processo muito humano e faz parte desse processo que nós iniciamos com as lutas do povo brasileiro, pelas liberdades democráticas, pela anistia, pela Constituinte, pelas eleições diretas, pelo crescimento com inclusão social, pela Comissão da Verdade, enfim, por todos os processos de manifestação e de ampliação da nossa democracia que temos vividos ao longo das ultimas décadas, graças a Deus.

Um processo que eu foi construído passo a passo durante cada um dos governos eleitos depois da ditadura. Nós reconquistamos a democracia a nossa maneira, por meio de lutas e de sacrifícios humanos irreparáveis, mas também por meio de pactos e acordos nacionais. Muitos deles traduzidos na Constituição de 1988. Como eu disse, na instalação da Comissão da Verdade, assim como eu respeito e reverencio os que lutaram pela democracia, enfrentando a truculência ilegal do Estado e nunca deixarei de enaltecer esses lutadores e essas lutadoras, também reconheço e valorizo os pactos políticos que nos levaram a redemocratização.

A grande Hanna Arendt escreveu um dia que toda dor humana pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história. A dor que nós sofremos, as cicatrizes visíveis e invisíveis que ficaram nesses anos, elas podem ser suportadas e superadas porque hoje temos uma democracia sólida e podemos contar nossa história.

Como eu disse, nesse Palácio, repito, há quase dois anos atrás, quando instalamos a Comissão da Verdade, eu disse: se existem filhos sem pais, se existem pais sem túmulos, se existem túmulos sem corpos, nunca, nunca, mas nunca mesmo, pode existir uma história sem voz. E quem da voz à história são os homens e as mulheres livres que não têm medo de escrevê-la. E acrescento: quem dá voz à história somos cada um de nós, que no nosso cotidiano afirma, protege, respeita e amplia a democracia no nosso país. Muito obrigada.

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