Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Dilma troca Janine Ribeiro por Mercadante

Para tentar barrar ações pró-impeachment, presidente tira petista da Casa Civil e o transfere para a Educação; Wagner assume gerência do governo

Vera Rosa e Adriano Ceolin, O Estado de S. Paulo

01 Outubro 2015 | 08h35

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff fez nesta quarta-feira, 30, o gesto mais ousado até agora para salvar o seu mandato e avisou a cúpula do PMDB e do PT que substituirá o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Na tentativa de conter as ameaças de impeachment, Dilma decidiu fortalecer o grupo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto e ampliar o espaço do PMDB, que, após um flerte com a oposição, comandará sete dos 39 ministérios.

O titular da Defesa, Jaques Wagner, vai assumir a Casa Civil, oito meses depois da pressão exercida por Lula para que ele ocupasse o cargo, e Mercadante voltará para o Ministério da Educação, pasta que já comandou de 2012 a 2014. Para abrigar Mercadante, Dilma demitiu na quarta-feira Renato Janine Ribeiro, que não completou seis meses à frente da pasta.

A reforma ministerial está sendo considerada até por aliados como a última cartada da presidente para barrar as tentativas de afastá-la do cargo. Diante do agravamento da crise política, Dilma resolveu dar um sinal mais forte de que está disposta a “recomeçar” o segundo mandato, sacrificar o PT, ampliar as mudanças na equipe e mexer no coração do governo.

Com essa “chacoalhada”, o Planalto espera recompor a base de sustentação no Congresso para aprovar o pacote fiscal. Lula comemorou as mudanças, mas ainda conversará hoje com Dilma, em Brasília, para tentar resolver as últimas pendências com o PMDB. O anúncio da reforma pode ficar para esta quinta ou sexta-feira.

‘Insustentável’. Dilma resistiu muito a dispensar Mercadante, seu braço direito, mas na noite de terça-feira admitiu que a situação dele era “insustentável”. Desgastado, enfrentando dificuldade de relacionamento com a Câmara e o Senado, o chefe da Casa Civil não participou das principais conversas sobre a reforma. Além disso, Mercadante é desafeto do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que decidirá se os pedidos de impeachment terão ou não prosseguimento.

Considerado mais habilidoso, Wagner já foi articulador político do Planalto, no governo Lula, quando dirigiu a Secretaria de Relações Institucionais. Ex-governador da Bahia, o petista fará dobradinha com Ricardo Berzoini, também da confiança de Lula, hoje nas Comunicações, que assumirá a nova Secretaria de Governo. “Como tenho essa fama de adepto do diálogo, e as pessoas acham que o governo tem dificuldades nessa área, dizem que posso contribuir. Mas não acredito em salvador da Pátria nem em solucionador isolado”, afirmou Wagner.

O titular de Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo (PC do B), será deslocado para Defesa. Aldo tem ótimo relacionamento com os militares.

Na conversa com o vice-presidente Michel Temer, Dilma anunciou que o PMDB ficará com sete ministérios – hoje controla seis. Até agora, está acertado que a bancada do partido na Câmara, chefiada por Leonardo Picciani (RJ), ganhará as pastas de Saúde e de Portos.

Dilma demitiu por telefone o ministro da Saúde, Arthur Chioro (PT), na manhã de terça. O deputado Marcelo Castro (PMDB-PI) é o mais cotado para o posto.

A presidente ofereceu ontem o Ministério da Ciência e Tecnologia ao PSB, em reunião com três governadores do partido. Embora o PSB tenha recusado, Dilma quer o apoio da bancada para evitar o impeachment.

Com o “não” do PSB, Ciência e Tecnologia deve agora entrar na lista dos agrados ao PMDB. A ideia é manter Eliseu Padilha (Aviação Civil) e Henrique Eduardo Alves (Turismo), aliados de Temer. Dilma também quer fundir o Ministério da Pesca com Agricultura. Helder Barbalho, filho do senador Jader Barbalho, pode ser deslocado de Pesca para Portos. O deputado Celso Pansera (PMDB-RJ), ligado a Cunha, é citado para Ciência e Tecnologia. Kátia Abreu permanecerá na Agricultura e Eduardo Braga, em Minas e Energia. Os dois representam a bancada da sigla no Senado.

O PT tem hoje 13 ministérios e perderá no mínimo seis. O PDT foi convidado para tocar Comunicações. Transportes continuará com PR, Cidades com PSD e Integração Nacional, com PP. / COLABORARAM ISADORA PERON e DANIEL CARVALHO

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