Dilma resiste à pressão da base e avisa que faxina segue se houver denúncias

Apesar do evidente mal-estar entre os partidos da coalizão por conta da limpeza iniciada nos Transportes, auxiliares da presidente avaliam que ela dará prosseguimento à ‘limpeza’ na Esplanada; Trabalho e Cidades seriam os próximos alvos

Leonencio Nossa e Tânia Monteiro, de O Estado de S.Paulo

20 Julho 2011 | 23h00

BRASÍLIA - A despeito das queixas de aliados pelas demissões de representantes do PR no setor de Transportes por supostas irregularidades, a presidente Dilma Rousseff já deu demonstrações de que manterá o rigor na "faxina" nos ministérios sempre que surgirem denúncias consideradas relevantes. Embora haja mal-estar na base de sustentação do Planalto, assessores do governo dizem que não há preocupação com a governabilidade.

 

Dilma recebeu na quarta-feira, 20, o ministro das Cidades, Mario Negromonte, da cota do PP. A pasta está na lista de possíveis novos alvos da "faxina" de Dilma, assim como o Ministério do Trabalho, comandado por Carlos Lupi, do PDT, informaram assessores do governo.

 

 

Em recados que chegaram nos últimos dias ao gabinete da presidente, aliados disseram que até concordam com as mudanças, mas reclamaram das atitudes duras de Dilma em relação aos representantes do PR.

 

A presidente e sua equipe dizem que foi possível manter a marca de "austeridade" durante a "limpeza" nos Transportes, com 16 demissões. Dilma continuará a dispensar envolvidos em acusações, mas avisou que não será "refém" nem de denúncias publicadas pela imprensa nem de dossiês.

 

Até mesmo a cúpula do PT está apreensiva com o estilo duro da presidente. Na tentativa de amenizar esse incômodo, auxiliares da presidente observam que não há divergências, por exemplo, com o PMDB, maior partido da base. Eventuais divergências no futuro, dizem, devem ser tratadas caso a caso.

 

 

Opinião pública. O Estado perguntou a auxiliares da presidente se o comportamento dela leva em conta pesquisas de opinião pública. Os assessores disseram que Dilma não está preocupada com pesquisas e está apenas realizando o governo para o qual foi eleita. Eles, no entanto, relatam que a presidente dedica uma parte do seu tempo para reagir a notícias consideradas por ela negativas que saem na imprensa.

 

Dilma busca informações para confirmar fatos e reage repreendendo ministros ou cobrando atitudes e explicações.

 

A presidente tem demonstrado obsessão em controlar as informações que circulam no Planalto e na Esplanada dos Ministérios, reclamando de subordinados que "vazam" informações de audiências e reuniões.

 

Lula. Assessores de Dilma também minimizam um eventual desgaste dela com o grupo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No Planalto, todos fazem coro que a relação continua "intensa" e que Dilma busca sempre manter o "padrão" de aceitação pública obtido pelo antecessor. Os assessores, porém, reconhecem que o comportamento de Dilma chega a ser um contraponto com o estilo conciliador de Lula com partidos da base e confronto direto com a mídia.

 

Nas últimas semanas, assessores do governo mais próximos de Lula fizeram pressão, nos bastidores e em público, para que a presidente recuasse na decisão de demitir Luiz Antonio Pagot, diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit), apadrinhado do senador Blairo Maggi (PR-MT). Dilma manteve a demissão.

 

Auxiliares dela, no entanto, avaliam que o grupo mais próximo de Lula conseguiu acalmar o PR ao trabalhar a versão de que a saída de Pagot foi apenas política e de mudança administrativa.

 

A situação do ex-ministro Alfredo Nascimento é uma das poucas preocupações do governo. Deputados ligados a ele relataram a auxiliares da presidente que o ex-ministro se sente o principal prejudicado pela "limpa" nos Transportes. Ele reclama que saiu do governo com a imagem arranhada, o que considera dramático para um político que depende de votos e tem planos para as eleições de 2012.

 

Dilma pretende retomar, nas próximas semanas, encontros no Palácio da Alvorada com representantes da base aliada.

 

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