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ENTREVISTA:

Política

Aécio

Dilma ignorou sinal de apoio, diz Aécio

Quase um ano após o fim da eleição presidencial, tucano afirma que estava disposto a dar auxílio a uma agenda para o País

Eduardo Kattah

10 Outubro 2015 | 21h00

BRASÍLIA - Na semana em que o Tribunal Superior Eleitoral abriu uma ação de impugnação de mandato de Dilma Rousseff e seu vice, Michel Temer - ajuizada pelo PSDB -, o senador e ex-presidenciável tucano, Aécio Neves (MG), afirma que logo após a derrota no 2.º turno da disputa de 2014 deu “um sinal” de apoio à presidente reeleita “em torno de uma agenda para o País”. Segundo ele, Dilma não compreendeu e agiu com “soberba” e “arrogância”. Quase um ano depois da eleição, Aécio avalia em entrevista concedida ao Estado na terça-feira passada que seu mérito na disputa foi reeditar a polarização com o PT. O senador também revela mágoa com o comportamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Ele se apequenou.”

Um ano depois de encerrado o 2º turno, como o sr. enxerga hoje a eleição presidencial de 2014?

É uma eleição que vai ficar marcada no Brasil pelos múltiplos cenários que vivemos, mas com um resultado, a meu ver, paradoxal. Porque nós que perdemos passamos a ser tratados como vitoriosos nas ruas e quem venceu está sitiado hoje no Palácio e seus aliados não podem nem sequer caminhar pelas ruas quando são identificados. A marca que a história vai levar dessa eleição é que o grupo que estava no poder efetivamente fez o diabo para vencer as eleições, submeteu o Estado brasileiro a esse projeto de poder. Foi uma vitória eleitoral, mas uma derrota política para quem está no governo, tamanha as contradições entre aquilo que se dizia e aquilo que acontece no Brasil de hoje. 

No fim do ano passado, o sr. disse que perdeu a eleição não para um partido político, mas para uma organização criminosa. Mantém essa declaração?

Reitero. Não é apenas eu que digo isso. É a Polícia Federal, o Ministério Público, a Operação Lava Jato. A cada dia fica mais claro como um projeto de poder se sobrepõe aos limites mínimos de correção, enfim, republicanos. Cada vez fica mais claro que esse grupo político que se apoderou do Estado, institucionalizou a corrupção no seio de algumas das nossas empresas estatais para se manter no poder. Então acho que a nossa derrota eleitoral na verdade podemos dizer que foi uma vitória política. O PSDB resgatou a polarização e é o grupo político em condições de encerrar esse ciclo perverso do PT que está aí. Foi uma campanha que começa com um discurso até sedutor da terceira via, que é até algo adequado e razoável, mas com a dinâmica da campanha e a própria tragédia que abateu o Eduardo (Campos, então presidenciável do PSB) e as circunstâncias políticas permitiram que o PSDB voltasse a falar com a sociedade. 

O sr. adotou na campanha um discurso antipetista. Foi uma postura contraditória de quem chegou a firmar uma parceria eleitoral com o PT em 2008 e pregava uma “convergência nacional” entre os dois partidos?

Essa convergência que nós pregávamos lá trás foi renegada pelo próprio PT. Ao PT não interessava a nossa proposta, que indicasse algum tipo de concessão para eles. Acho que no fundo eles temiam alguma aliança com o PSDB, até pela qualificação dos quadros do partido. Então, aquilo que nós pensamos na eleição de 2008 (quando o tucano se aliou ao ex-prefeito de Belo Horizonte e atual governador mineiro, Fernando Pimentel, do PT) foi condenado veementemente pela direção do partido e acabou por nos afastar. Numa campanha eleitoral você tem que ser mais claro em determinadas questões e em determinadas posturas você enquanto governador não tem que fazer esse papel. 

A eleição de 2014 representou um rompimento da sua relação com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem era próximo? O PSDB-MG processa Lula por calúnia e difamação contra o sr.

Eu sempre tive uma relação pessoal com o presidente e sempre registrava que ele teve com Minas uma relação republicana e não perseguiu Minas. Mas eu acho que o presidente perdeu a oportunidade de deixar nessa campanha uma imagem de grande estadista. E saiu dessa campanha menor do que entrou. Ele se apequenou ao fazer acusações pessoais que não deveriam jamais vir da boca de um presidente da República. E hoje o vemos acossado por denúncias de toda ordem. Acho que ele saiu dessa campanha menor, porque valeu para ele o diabo para vencer essa campanha também. Me entristeceu a forma menor como ele agiu na campanha eleitoral principalmente pela relação que nós construímos ao longo de oito anos, onde até mesmo ele me estimulava a voos maiores. Eu não o reconheci principalmente no 2.º turno da campanha pela forma radical que ele atuou. 

No discurso no qual o sr. reconheceu a derrota, disse que cumpriu sua missão e pediu que Dilma unisse o País em torno de um projeto honrado. Há uma tese de que ainda vivemos um terceiro turno da eleição presidencial...

Eu fui o primeiro brasileiro a reconhecer a derrota. Obviamente, isso não me tira, mais do que o direito, o dever, de continuar exercendo o meu papel de oposição. Numa eleição, a população elege o governante e elege a oposição. Quando liguei para a presidente da República poucos minutos depois de derrotado, disse a ela: ‘Meus cumprimentos, a senhora tem uma grande missão, que é unir o País’. Eu dei ali um sinal. Ela agradeceu, mas não teve nem sequer a delicadeza de cumprir a liturgia dos momentos eleitorais de comunicar ao País que recebeu os cumprimentos do candidato derrotado. E não compreendeu que estava ali dando um sinal claro de que eu estava disposto de alguma forma a contribuir para isso. Para mim essa é a questão essencial. A presidente venceu as eleições com o País dividido, não compreendeu isso e virou as costas para boa parte do País. Por isso ela hoje é rejeitada por grande parte dos eleitores, inclusive os que votaram nela. Ela agiu com a soberba de sempre, a arrogância de sempre como se tivesse tido uma votação massacrante no País e não teve. 

O sr. então está dizendo que estava disposto a ajudar no segundo mandato?

Em torno de uma agenda para o País sim. Eu já percebia a gravidade da situação, eu alertava para a gravidade da situação. A presidente Dilma privou o País de uma discussão séria em torno de medidas que precisariam ser tomadas. 

Dilma é acusada de ter cometido um estelionato eleitoral. Mas em sua campanha o sr. prometeu, por exemplo, ampliar o Bolsa Família, expandir o Pronatec e o Prouni, manter a política de aumento real do salário mínimo; disse que buscar alternativas ao fator previdenciário... Se o sr. vencesse, não poderia ser acusado do mesmo?

Acho que não. Nós nunca estabelecemos metas além daquelas que poderíamos cumprir. E nosso governo traria algo que a presidente não alcançará mais nesse mandato, que é a confiança, o que impactaria positivamente na redução da taxa de juros de longo. A reforma que nós faríamos, coerente com o que nós pensávamos, atrairia o capital privado, teríamos uma simplificação tributária. 

A que o sr. atribui a derrota por no 2º turno?

Pelo que nós estamos percebendo o que aconteceu no Brasil, nós fomos longe demais. Além da mentira, nós enfrentamos um terrorismo nas regiões mais pobres do País. Nós íamos acabar com o Bolsa Família, nós íamos acabar com o Minha Casa Minha Vida, com o Minha Casa Melhor, aquilo que o governo está fazendo hoje. Nós íamos punir os mais pobres e são os mais pobres que estão pagando hoje um preço maior por não reajuste do Bolsa Família desde o começo do ano passado com a inflação que está em dois dígito. Fizemos um ato hercúleo de chegar aonde chegamos. Nós não disputamos contra um partido político, disputamos contra uma organização criminosa que se apoderou do Estado e estabeleceu um terrorismo. Para se ter ideia em determinadas cidades do Nordeste no 2.º turno eu nem sequer tive 10% dos votos. 

Acha que perdeu por causa da votação no Nordeste?

Sim, nas regiões mais produtivas nós vencemos. 

Mas e a derrota em Minas?

Foi algo surpreendente para nós, eu admito isso. Talvez por um excesso de confiança, equívoco na campanha local e talvez Minas Gerais seja hoje o Estado mais frustrado com o resultado eleitoral. Pesquisas que nós temos me dão hoje mais de 75% das intenções de voto no Estado. Mas foi uma derrota que a mim, reconheço isso, surpreendeu. Em parte talvez por uma certa estratégia equivocada, quando nós achávamos que o resultado viria com naturalidade.

O equívoco foi a escolha do ex-ministro Pimenta da Veiga como candidato?

Ele fez a parte dele. Não seria correto da minha parte jogar a culpa no candidato, até porque eu tive uma responsabilidade grande na definição. 

O PSDB entrou com ações no TSE pedindo investigação e a cassação da chapa. Há motivos para a impugnação dos eleitos?

As denúncias que nos chegaram ensejaram essas ações. Cabe ao tribunal eleitoral julgar. Nosso papel é garantir que o tribunal atue e que ela tenha o direito de defesa, mas quem diz que o dinheiro da propina foi utilizado na campanha não é mais a oposição, são parceiros ou ex-parceiros do governo, são delatores que foram achacados - como diz o seu Ricardo Pessoa, que teve ameaçados seus contratos na Petrobrás - e outros delatores apontam na mesma direção: foram constrangidos, coagidos pelo governo para transferir parte da propina, seja para a campanha eleitoral dela ou para o partido, que, por sua vez, transferiu para a campanha eleitoral. Os tribunais estão tendo a oportunidade histórica de dizer a razão da sua existência. Não podemos garantir um salvo-conduto para o presidente da República, qualquer que seja ele. Isso é algo pedagógico, para frente. 

Mas há no PT e apoiadores de Dilma críticas ao que chamam de investigações seletivas. Sua campanha recebeu R$ 34 milhões de empreiteiras citadas na Lava Jato. Senadores do PSDB são investigados e o ex-coordenador de sua campanha (senador José Agripino Maia, do DEM) é suspeito de receber propina da OAS em outro caso...

Essa acusação da qual ele (Agripino Maia) é alvo não tem nenhuma relação com a campanha. No nosso caso nós recebemos contribuição de campanha como diz a lei. Existe uma diferença muito grande entre contribuição de campanha e extorsão. Até porque não tínhamos qualquer poder de influência em nenhuma dessas obras e qualquer diretoria da Petrobrás. Vou até além. Acho que muitos dos que nos doaram o fizeram para se ver livre da extorsão do PT.

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