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Dilma e o consumidor

A confiança do consumidor cresceu em janeiro, segundo a pesquisa mensal CNI/Ibope. E não foi pouco. Chegou ao maior patamar em cinco meses. Em tese, isso é uma boa notícia para Dilma Rousseff, porque nada se correlaciona mais com a popularidade presidencial do que algumas das questões que estão por trás da medida de confiança do consumidor. Porém, nós já vimos esse aumento acontecer antes e, para azar de Dilma, não se sustentou.

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José Roberto Toledo

11 Fevereiro 2016 | 03h00

Após oito quedas consecutivas que começaram no final de 2014, o INEC (Índice Nacional de Expectativa do Consumidor) cresceu em julho e agosto do ano passado e, novamente, em outubro e novembro – apenas para cair praticamente tudo o que tinha subido nos meses subsequentes. Assim, desde junho do ano passado, a confiança do consumidor tem se mantido somando altos e baixos – dentro da mesma média, que é a menor da série histórica.

O INEC é a síntese de seis questões econômicas, mas apenas três delas explicam incríveis 92% da desaprovação de Dilma. Isso mesmo: segundo regressão linear calculada pelo Ibope, mais de 9 em cada 10 respostas negativas sobre como a presidente está governando o País se devem à economia. E essa correlação só vem aumentando com o tempo. Por mais que denúncias de corrupção danifiquem, é o bolso que mata a popularidade presidencial.

Entre os três cavaleiros do apocalipse da governabilidade, um está montado num pangaré e tem metade da influência dos outros dois. Trata-se da situação financeira atual do entrevistado, em comparação com o passado recente. A cada ponto porcentual que ela cai, a desaprovação de Dilma cresce 0,7 ponto. Ou seja, a medida que a renda média vinda do trabalho diminui, a presidente tende a penar ainda mais no purgatório da opinião pública.

Mas esse é o menor dos seus problemas. Quando o consumidor perde a esperança e sua expectativa de comprar bens de maior valor reflui, a popularidade de Dilma sofre um revés ainda maior. A cada ponto que diminuir essa expectativa, a desaprovação ao trabalho do governante aumenta em 1,4 ponto. Quando sai a notícia de que a venda de automóveis é menor em “x” anos, e a de TV e geladeiras, a mais baixa em “y” meses, pode estar certo de que a taxa de aprovação de quem está no Planalto vai cair.

Pior do que isso, só o desemprego. Segundo os cálculos do Ibope, a cada ponto de aumento da percepção das pessoas de que o desemprego vai crescer, a impopularidade de Dilma cresce 1,5 ponto. É um desastre.

Entre outras coisas, significa dizer que com as taxas oficiais de desocupação medidas pelo IBGE em alta, será muito difícil – para não dizer quase impossível – para o governo recuperar seu apoio perdido. Aqui, porém, cabe enfatizar um ponto importante: a expectativa de aumento do desemprego é diferente da taxa de desemprego em si. Elas se movem independentemente uma da outra.

Não chega a ser uma regra, mas é comum que a expectativa de aumento do desemprego se antecipe às oscilações das taxas oficiais. É como se o trabalhador soubesse o que vai acontecer antes dos economistas, seja porque ele está vendo que as vagas de seus colegas que deixaram o emprego não são preenchidas, seja porque ele vê parentes serem demitidos, seja porque ele próprio percebe que está prestes a entrar no seguro-desemprego.

O crescimento do INEC em janeiro foi um sinal positivo que vai na contramão de quase todos os outros indicadores econômicos. Por isso é bom esperar pelos dados de fevereiro e março. Se eles mantiverem a tendência, o governo pode sonhar com a remota possibilidade de Dilma começar a escalar o poço em que se meteu. 

A despeito do que venha acontecer, os cálculos do Ibope servem para lembrar que a Lava Jato pode ter aleijado o PT, combalido Lula, mas que, ainda assim, não é o maior problema de Dilma. Para a presidente, o que pesa mesmo é o bolso do consumidor.

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