Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Dilma ironiza proposta de senador do PMDB de eleições gerais em outubro

Presidente sugeriu que parlamentares fossem convencidos primeiro de abrir mão dos seus mandatos; Dilma também admitiu que o Planalto não pretende fazer qualquer reestruturação em ministérios antes da votação do pedido de impeachment na Câmara

Tânia Monteiro, O Estado de S. Paulo

05 Abril 2016 | 10h55

BRASÍLIA – A presidente Dilma Rousseff ironizou a proposta apresentada pelo senador Valdir Raupp, da executiva nacional do PMDB, de aprovação de uma mudança na Constituição para que sejam realizadas eleições gerais para todos os cargos em outubro deste ano. “São propostas. Não rechaço, nem aceito, mas convença a Câmara e o Senado primeiro a abrir mão dos seus mandatos e aí vem conversar comigo”, declarou a presidente Dilma, em entrevista, na manhã de desta terça-feira, 5, na Base Aérea de Brasília. Dilma já avisou várias vezes que não admite a hipótese de renúncia do seu cargo.

Na entrevista, a presidente Dilma avisou ainda que não vai fazer nenhuma reforma ministerial antes da votação do pedido de impeachment contra ela no plenário da Câmara dos Deputados. "O Palácio do Planalto não pretende qualquer reestruturação antes de qualquer votação na Câmara. Especulações sobre ministérios, sobre mudanças no governo, são absolutamente especulações. Sem base de verdade", avisou Dilma, que descartou ainda a possibilidade de o Ministério da Educação (MEC) entrar nas negociações por cargos. “O MEC não está em questão”.

Para a presidente Dilma, estas “especulações” são “extremamente nocivas”, criam “instabilidade” e é uma forma de “transforma factoide em realidade”. Dilma não quis comentar ainda se o PMDB perderá espaço na Esplanada por causa da decisão da direção do partido de sair do governo ou se o seu desembarque da base governista foi precipitada. “Não avalio ação de partido nenhum porque não é algo adequado”.

A presidente reiterou seu “otimismo” em relação ao resultado da votação do processo de impeachment contra ela, no Congresso. “Sou uma pessoa que luta. Tenho o otimismo dos que lutam”, desabafou ela, demonstrando confiança de que derrubará o processo no Plenário.

Dilma discordou ainda de notícias divulgadas na imprensa de que o PT teria sido o partido que mais perdeu prefeitos por conta das denúncias. Segundo ela, na Câmara, por exemplo, isso não é verdade, porque o PT se manteve estável. “Eu não acho que tenha uma avaliação perfeita de quem perdeu o que. Isso só vai ser provado depois”, comentou. Dilma reiterou ainda que a ação do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, em apressar o processo de impeachment contra ela, “é uma vingança”. “Vocês mesmos noticiaram isso”, disse ela, sugerindo que os jornalistas procurassem o que publicaram sobre isso.

Pacto. A presidente Dilma Rousseff afirmou que "nenhum governo conseguirá governar o Brasil se não tiver um pacto pelo diálogo, pela estabilidade, se não respeitarem as regras do jogo". "A hora que desrespeita a regra de um jogo você desrespeita o próprio jogo democrático. É isso que está em questão neste momento", afirmou a presidente em conversa com a imprensa após visita à aeronave KC-390 da Embraer, na Base Aérea de Brasília.

Dilma observou que, desde o início do seu primeiro mandato presidencial, "tentam construir mecanismos" para tirá-la do governo. "Primeiro, foi o pedido de recontagem de votos. Depois, falaram que as urnas tinham problemas e não apareceu problema nenhum. Depois tentaram construir mecanismos para me retirar do governo. Um é esse do impeachment, com as pedaladas fiscais de 2015, que não foram julgadas nem pelo Tribunal de Contas da União (TCU) nem pelo Congresso", afirmou, lembrando ainda do questionamento sobre as contas de campanha junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

"Acham que, ao tirar um governo legitimamente eleito, esse País vai ficar tranquilo, vai ter pacificação. Não é. Quando você rompe um contrato dessa magnitude, que é base do presidencialismo, que me deu 54 milhões de votos, você rompe contratos em geral. Você rompe a base da estrutura democrática do País", disse a presidente.

Dilma lembrou que o Fundo Monetário Internacional (FMI) chegou a prever em relatório, no final do ano passado, que o Brasil passaria mais rapidamente pela crise. "Mas isso não se deu e se atribui uma parte disso à instabilidade política. Isso precisa levar em conta", comentou.

Perguntada se o País podia passar por uma convulsão, caso ela seja afastada do governo pelo impeachment, Dilma disse que não, e que "o País não está nessa época mais". Ressalvou, no entanto, que "a instabilidade pode permanecer de forma profunda e extremamente danosa. Quando você de fato tem responsabilidade com o País, você não cria tumulto desnecessário. Não cria tumulto sem base. Precisa abrir o diálogo. O governo está inteiramente disposto a abrir o diálogo".

A presidente criticou ainda os que pensam que programas como o Bolsa Família beneficiam uma parcela pequena da população. "Não dá para a população de classe média alta achar que o Bolsa Família beneficia poucos." Ela lembrou ainda que o País tem uma riqueza chamada "mercado interno".

Na entrevista, a presidente Dilma criticou ainda a postura da oposição que, segundo ela, desde o dia em que assumiu o governo, tem apresentado uma quantidade grande de pautas bomba. Dilma citou como exemplo de pauta bomba o projeto que muda a fórmula do indexador da dívida dos Estados, em tramitação no Congresso. "Tem uma (pauta bomba) especial, de hidrogênio, que tem impacto de R$ 300 bilhões, ao transformar os juros das dívidas dos Estados em juros simples. Eu pergunto: quem é que consegue um empréstimo com juros simples? Nenhum de vocês", desabafou.

Segundo ela, propostas como essa são inconsistentes e aqueles que apostam no quanto pior melhor criam situação difícil para o País. "É público e notório que existe um vaso comunicante entre a economia e a política. É público e notório que há no Brasil o pessoal que torce para o quanto pior melhor. O quanto pior para nós todos, para a população brasileira, quanto melhor para eles, que querem o poder. Que querem encurtar o caminho para o poder", afirmou.

Dilma lembrou que o Brasil é uma democracia, "que conquistamos a duras penas". "Não se tem estabilidade sem democracia. Não tem crescimento econômico sustentável sem democracia. Precisa ter tranquilidade para crescer", completou. 

Defesa. Dilma elogiou ainda a defesa feita pelo ministro da Advocacia Geral da União, José Eduardo Cardozo, em relação ao seu mandato, na comissão especial que avalia o impeachment na Câmara. "Eu concordo integralmente com ela, até porque discuti bastante todos esses aspectos. Acho lamentável essa questão em relação tanto aos decretos como à questão das chamadas pedaladas fiscais. Acho que qualquer tentativa de transformar isso em motivo de impeachment é golpe. É golpe porque não tem base legal. Foi de forma, eu acho que, inequívoca, e circunstanciada demonstrada pelo ministro José Eduardo Cardozo".

Gasolina e diesel. Na entrevista, a presidente Dilma afirmou também que o governo não interfere no aumento ou redução do preço da gasolina e do óleo diesel e que esta é uma questão da Petrobrás. "O governo não tem nada a ver com subir ou baixar o preço da gasolina", disse. "O que eu acho interessante é o seguinte: toda vez que é para subir, o governo não deixa, toda vez que é para descer, o governo não quer. Então, fica difícil, viu. Fica muito difícil".

A presidente destacou ainda que "é fato" que existe uma "discrepância" entre o preço dos combustíveis lá fora e aqui no Brasil. "O problema é que eu acho, por qualquer avaliação, vocês podem perguntar para qualquer avaliação, há desde o ano passado uma discrepância entre o preço praticado no Brasil e o preço praticado lá fora. Então, se a Petrobrás houver por bem fazê-lo, é o caso de ela fazer. Se ela houver por bem não fazer, é o caso de ela não fazer. Agora, que existe a discrepância, existe. Mas nós sabemos que existe isso desde o ano passado", desabafou.

Notícias divulgadas na segunda-feira, 4, informavam que a direção da Petrobrás quer reduzir o preço dos combustíveis, mas que a decisão estaria gerando insatisfação no conselho de administração da empresa. Dilma não quis responder se mexer no preço da gasolina agora não poderia abalar a credibilidade da empresa.

 

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