1. Usuário
Assine o Estadão
assine
  • Comentar
  • A+ A-
  • Imprimir
  • E-mail

Dilma acena com diálogo e afirma que corrupção no Brasil 'é senhora idosa'

- Atualizado: 17 Março 2015 | 08h 35

Em entrevista após protestos contra o governo, presidente diz que problema ‘não nasceu hoje’ e ‘não poupa ninguém’, justifica eventual erro na política econômica com manutenção de empregos e defende necessidade de aprovação do ajuste fiscal

Atualizado em 17.03

Brasília - Um dia após os protestos contra o governo pelo País, a presidente Dilma Rousseff procurou nesta segunda-feira, 17, desfazer a imagem de isolamento e se disse disposta ao diálogo "com quem quer abrir diálogo". Ao defender a aprovação do ajuste fiscal e reconhecer "algum erro de dosagem" da política econômica, Dilma justificou as medidas do primeiro mandato e rebateu tentativas de colar a corrupção a seu governo. "Ela não só é uma senhora bastante idosa neste País como ela não poupa ninguém."

A resposta foi dada a uma pergunta na qual foi citada declaração do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que restringiu a corrupção ao Executivo. O governo aposta no pacote contra a corrupção para amenizar a crise e destacou o caráter "democrático" dos protestos. 

"Quem for responsável, pagará pelo que fez", disse Dilma sobre investigações da Lava Jato

"Quem for responsável, pagará pelo que fez", disse Dilma sobre investigações da Lava Jato

A ênfase no "diálogo" - palavra repetida 12 vezes - tem base em pesquisas de opinião. Ainda assim, ontem voltou a ocorrer panelaço em bairros de São Paulo, Rio e Belo Horizonte quando o Jornal Nacional, da TV Globo, exibiu as declarações de Dilma. Leia os principais trechos da entrevista.

Manifestações. Tenho certeza que o que queremos é um lugar em que todos possam exercer seus direitos pacificamente, sem ameaças, desrespeitos às liberdades civis e às liberdades políticas. Um País que, amparado na separação, independência e harmonia dos poderes, na democracia representativa, na livre manifestação popular nas ruas e nas urnas, se torna mais impermeável ao preconceito, à intolerância, à violência, ao golpismo e ao retrocesso. A credibilidade das instituições e a preservação das regras da democracia são os melhores antídotos contra a corrupção, a intolerância e a violência. É com a democracia que se vencerá o ódio, que se combaterá corruptores e corrompidos. Nós respeitamos as ruas, um dos legítimos espaços de manifestação popular, pacífica e sem violência. Respeitamos e ouvimos com atenção todas as vozes, de todos os matizes, de todas as tendências. Por isso o governo sempre irá dialogar com as manifestações. Ouvir é a palavra, dialogar é a ação. O sentimento tem de ser de humildade e firmeza.

Erros. Se cometemos algum erro de dosagem (da política econômica), é possível que a gente possa até ter cometido algum. Agora, qual foi o erro de dosagem que cometemos? Gostaríamos muito que houvesse uma melhora econômica de emprego e renda. Tem gente que acha que a gente tinha de ter deixado algumas empresas quebrarem e os trabalhadores se desempregarem. Eu tendo a achar que isso era um custo muito grande para o País. É possível discutir se podia ser um pouco mais ou um pouco menos. Mas isso não explica por que estamos nessa situação. O que explica é um fato constatado: a economia não reagiu. Ninguém pode negar que fizemos de tudo para a economia reagir. Podem falar: era melhor deixar quebrar. Eu não acredito nisso. Em qualquer atividade humana se cometem erros. Longe do meu governo achar que não cometeu erro nenhum. Agora, o que eu não posso concordar é aceitar ser responsabilizada por algo que seria pior se deixássemos. Nós seguramos - comparando com o resto do mundo - os 20 milhões a mais de emprego.

Humildade. Atitude de humildade é pelo seguinte: você só pode abrir diálogo com quem quer abrir diálogo. Com quem não quer não tem como. Procurarei ter diálogo com seja quem for, é uma atitude de abertura. Eu não estou aqui fazendo nenhuma confissão, isso aqui não é um palco de confissão, é uma entrevista. Se alguém achar que eu não fui humilde em algum diálogo, me diz qual e vou tomar providência para mudar.

Corrupção. A corrupção não nasceu hoje, ela não só é uma senhora bastante idosa neste País, como ela não poupa ninguém, pode estar em tudo quanto é área, inclusive no setor privado. Vamos lembrar o que ocorreu em 2008-2009, quando pelo menos uma das questões foi fraude bancária. O dinheiro tem esse poder corruptor, temos de ter vigilância, instituições, legislação pra impedir que ocorra. Não vamos achar que tem qualquer segmento acima de qualquer suspeita. Isso não existe. E acho mais: o combate a corrupção começa através de um processo educacional. O fato de você não querer ganhar vantagem em tudo, de você valorizar o trabalho, a pessoa que conquistou as coisas com seu próprio valor.

Ajuste fiscal. O ajuste é essencial para o País. O governo vai lutar pelas correções e pelos ajustes. Vamos fazer esse esforço ao longo deste ano. Mas o Brasil tem todas as condições de sair em menos tempo do que em qualquer outra circunstância. O quanto pior melhor é algo que não se pode aceitar. Vamos brigar depois. Agora vamos fazer para o bem do Brasil tudo aquilo que deve ser feito.

PMDB. Longe de nós querer isolar o PMDB. Pelo contrário, o vice-presidente é o companheiro Michel Temer, extremamente solidário. Temos uma parceria com o PMDB, o PMDB participa do governo. Agora, nós temos uma situação que temos de construir também. Ninguém aqui pode achar que as instituições políticas do País estão à altura das necessidades do País. Não estão. E aí vale para todos os partidos. Estou falando de governabilidade, da forma pela qual se relaciona um partido na presidência da República com outros partidos. Em qualquer democracia, o diálogo é essencial. Se você instabiliza um país sempre que lhe interessa, uma hora essa instabilidade passa a ser algo que ameaça a todos, é a pior situação que tem.

Congresso. O Congresso não tem sido adverso para o governo. Sempre que compreenderam, sempre que foi debatido antes, o Congresso foi bastante sensível. Não vejo um embate. O que é mais atraente é a crise do que a não crise. Então muitas vezes se coloca crise onde não tem. Agora, tem dificuldades, e vai ter. (Mas) Não acredito que no caso do pacote anti-impunidade vai ter dificuldade.

Denúncia contra Vaccari. Esses acontecimentos mostram que são infundadas todas as teorias de que o governo interferiu sobre o Ministério Público, ou sobre quem quer que seja, para investigar ou fazer qualquer coisa com quem quer que seja. Tanto é assim que, isso acontece, o governo continua. Se querem investigar, vão investigar; quem for responsável pagará pelo que fez.

Reforma política. Reitero minha convicção de que a conjuntura aponta para uma necessidade urgente de uma ampla reforma política. Sei que o protagonista desta reforma é toda a população brasileira, mas também sei que o espaço adequado para ela é o Congresso..

Mais em PolíticaX