Desinformação afeta democracia, diz jornalista

Repórter britânico que revelou episódio de escutas clandestinas por tabloide analisa atuais desafios da mídia

Entrevista com

Nick Davies, jornalista britânico, repórter do 'The Guardian'

Renata Tranches, O Estado de S. Paulo

10 Outubro 2015 | 06h50

Um dos convidados do 'Festival Piauí GloboNews de Jornalismo', o britânico Nick Davies afirma que a publicação de “desinformações” tem afetado o bom funcionamento da democracia. Entre 2009 e 2011, no Guardian, Davies investigou e revelou o uso indiscriminado de escutas telefônicas clandestinas pela equipe do tabloide News of the World, em um dos maiores escândalos da história recente da Grã-Bretanha. A investigação, que levou ao fechamento do jornal que pertencia ao império de Rupert Murdoch, mostrou que a prática era incentivada pelos editores e até pelo dono do grupo. Em entrevista ao Estado, ele analisa os atuais desafios da mídia e como o jornalismo investigativo do The Guardian conquistou milhões de leitores. “Há muitas pessoas que realmente querem entender as coisas.”

O sr. diz que há uma veiculação de desinformação no debate sobre a saída da Grã-Bretanha da União Europeia (UE). Tem a ver com uma questão cultural?

Primeiramente, é uma questão de informação errada. Por centenas de anos, muitas pessoas boas sacrificaram suas liberdades e suas vidas para criar as democracias. Não acho que elas imaginaram que as pessoas nessas democracias seriam alimentadas com tanta informação ruim, o suficiente para impedir a democracia de funcionar propriamente. Tivemos eleições gerais na Grã-Bretanha em maio e alguns tabloides se engajaram em um projeto político para impedir seus leitores de votar no Partido Trabalhista. Uma das coisas que tiveram maior influência foi uma fotografia que eles tiraram do líder Ed Miliband comendo um sanduíche de bacon. Sua boca estava muito aberta e seus olhos estavam meio fechados e ele parecia louco. E eles puseram essa foto na capa dos jornais. Não posso provar, mas acredito que um número significativo de pessoas pensou: ‘Não posso votar em um homem como esse’. A democracia tem sido reduzida a essas ideias e declarações bobas e sem sentido.

O sr. faria um paralelo com outros países?

É um problema disseminado mundo afora. Os políticos estão se tornando muito espertos em manipular essas pessoas. Mas acho que o caso é particularmente pior entre os britânicos porque temos uma imprensa popular particularmente ruim.

Nesse contexto, como analisa o discurso contrário à imigração da ministra do Interior, Theresa May (do Partido Conservador), esta semana?

 

É a mesma coisa. É um problema muito complicado. Tenho visto dados de que há 60 milhões de refugiados em movimento, não apenas da Síria, mas do Afeganistão, Somália, Eritreia. Milhões de pessoas deixando zonas de guerras. De novo, vemos a redução de coisas importantes para pequenos momentos emocionais. Durante todo o verão, os tabloides noticiaram de uma maneira muito raivosa histórias sobre refugiados. Eles estiveram nas praias de ilhas gregas e havia turistas ingleses que estavam sentados lá em seus biquínis e calções de banho que não queriam ver esses refugiados. Os tabloides estavam apresentando esses imigrantes como sujos, inconvenientes, atrapalhando o feriado. Então, surgiu aquela fotografia famosa do menino sírio de 3 anos (Aylan Kurdi) morto afogado na praia turca e isso mudou tudo. Os jornais de repente se deram conta de que eles tinham de mudar seu ponto de vista e começaram a dizer que tinham de deixar os sírios entrar. E o que fazer com os 60 milhões de pessoas procurando por um lar? Não é um problema fácil de resolver, mas nem começamos a lidar com ele, porque oscilamos entre um posição emocional louca para outra.

A mídia perdeu o foco?

Há duas coisas diferentes para se falar. Uma é sobre a democracia em si, que tem passado por um problema muito grande. Mas, se pusermos isso de lado, jornalistas também estão em um grande problema porque a internet teve um efeito muito destrutivo. Levou nossos leitores, nossos anunciantes, não temos dinheiro suficiente como costumávamos ter para organizar nosso trabalho profissional. Mas o ponto é que, se você tirar o dinheiro das redações, então os repórteres não terão tempo de ir para a rua e encontrar histórias, checar os fatos e produzir as informações de que as pessoas precisam. Na Grã-Bretanha, os jornalistas não são nada populares. Grandes jornais estão fechando ou reduzindo seu tamanho e as pessoas dizem: ‘Eu não ligo, são apenas um grupo de junkies perdendo seus empregos’. Mas é muito mais que isso. É a habilidade das organizações de mídia de fazer seu trabalho, de dizer a verdade, que está com problemas. Suspeito que o mesmo acontece aqui no Brasil. Há uma conexão nessa redução da capacidade de dizer a verdade sobre as coisas importantes.

É a crise do modelo de negócio ou do jornalismo?

É uma crise do modelo de negócio do jornalismo. Mas não de todo o modelo de negócio. Há alguns que estão indo muito bem na internet.

Podemos comparar com a mundo da música?

A música está em problemas. Não estão fazendo dinheiro vendendo gravações. No cinema, poucas pessoas estão indo ao cinema, a maioria está assistindo filme online, muitos ilegalmente. As livrarias estão fechando por todo o mundo e a culpa é da Amazon, mas as vendas de livros subiram porque é muito fácil comprar na Amazon. As editoras estão felizes com a internet, eles vendem mais livros. Mas os vendedores na rua estão infelizes. É um quadro muito complicado. Às vezes, ouço as pessoas dizendo que a internet é uma coisa maravilhosa, mas é também muito destrutiva.

Nesse contexto, como é para o sr. fazer o seu tipo de jornalismo, aprofundado e investigativo?

Sou um pouco sortudo porque eu já estou estabilizado com o The Guardian, eles me dão tempo para trabalhar. Mas na verdade, há 10 ou 15 anos atrás, quando a internet começou a ter esse efeito, a primeira reação dos jornais foi tentar guardar dinheiro porque estavam ganhando menos. Muitos jornais disseram: ‘Não podemos pagar matérias investigativas, isso tem de parar, não temos mais dinheiro para isso’. Mas agora eles se deram conta de que precisam fazer o oposto. Se um site de notícia publica hard news como um acidente de trem ou de avião, leitores podem obter a mesma história de milhares de outros sites. Por que eles viriam ao seu ou ao meu? Eles vêm porque temos algo que faz nossa cobertura única. Então começamos a entender a importância de colocar no ar notícias que são únicas. Isso significa trazer de volta a investigação para o centro da estratégia. Aprendemos (The Guardian) isso quase que por acidente, porque fizemos a sequência de três grandes investigações: o caso Wikileaks, as escutas ilegais e os vazamentos de (Edward) Snowden da NSA (Agência Nacional de Segurança dos EUA). Fazendo essas histórias, atraímos literalmente dezenas de milhões de leitores para o site do The Guardian. E muitos deles permaneceram.

Como isso foi possível?

Se considerarmos os 7 bilhões de pessoas no mundo, 6,5 bilhões jamais entrarão no site do The Guardian, mas há muitas pessoas que querem realmente tentar entender o mundo. Consideramos que eles vão ao site que realmente os ajude a entender o mundo. É o oposto do que eu tenho dito sobre os tabloides. Há muitas pessoas que realmente querem entender as coisas. As organizações de mídia que tentarem responder a essas perguntas complicadas para essas pessoas poderão sobreviver.

Como será sua palestra?

Vou falar sobre as histórias do escândalo das escutas telefônicas e a razão pela qual essas histórias são importantes. Na verdade, elas são sobre poder. Se fosse apenas sobre jornalistas violando a lei, eu não teria passado sete anos da minha vida trabalhando nisso. Se você olhar com atenção, primeiro descobrirá que, sim, os jornalistas infringiram a lei, mas em seguida verá que a polícia sabia disso e tinha evidências muito concretas e detalhadas sobre o crime que estavam cometendo. Eles decidiram não fazer nada. Daí, começamos a entrar na esfera do poder. A polícia não quer entrar em uma disputa com um jornal que pertence a um homem tão poderoso quanto Murdoch. A mesma coisa acontece com o governo. Gostamos de fazer de conta que vivemos em uma democracia, mas o fato é que esse homem, que costumava ser australiano e agora é americano, não tem direito a um único voto na Grã-Bretanha, mas diz ao nosso governo o que fazer.

Afastada, a pivô do escândalo das escutas, a jornalista Rebekah Brooks, foi readmitida no grupo de Murdoch. O que o sr. achou?

Rupert Murdoch e Rebekah Brooks enviaram uma mensagem muito insultante para a Grã-Bretanha. Estão dizendo que nada mudou. Rebekah foi julgada e considerada inocente. Não devemos questionar uma decisão judicial. Mas, quando ela estava fornecendo evidências no julgamento, ela admitiu o tempo todo que sabia que a quantidade de crimes cometidos foi muito maior do que o que a companhia de Murdoch mostrou. Ela assumiu um papel para encobrir isso. E isso custou à empresa do Murdoch, News Co., algo no valor de US$ 500 milhões. 

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