Desesperança

Se não resolver o desemprego, de nada adiantará Temer dizer que fez um governo reformista

João Domingos, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2016 | 03h00

Quem convive diariamente com Michel Temer assegura que nunca o viu tão animado. Em quatro meses como efetivo – ele assumiu a Presidência de fato e de direito no dia 31 de agosto, depois de três meses de interinidade – o presidente considera que já fez reformas urgentes que vinham sempre sendo adiadas, como a instituição do teto de gastos públicos e as modificações na lei do pré-sal, que tiraram da Petrobrás a responsabilidade de ser a operadora de todos os blocos petrolíferos, para citar algumas.

Isso tudo, tem observado Temer, sem a força de seus antecessores, que assumiram em condições ideais para tocar reformas, pois fruto das urnas. Por isso mesmo, na mensagem de fim de ano para os jornalistas, anteontem, o presidente declarou que seu governo será marcado pelo reformismo. Já fez a do ajuste fiscal, fará a da Previdência e a trabalhista, estas duas já enviadas ao Congresso. E se animou tanto que está disposto a enfrentar dois tabus: as reformas tributária e política.

O presidente contabiliza ainda a seu favor o fato de ter pago tudo o que havia de “restos a pagar”, dívida acumulada por anos seguidos pelos que o antecederam. Temer costuma ainda lembrar que zerou a liberação de emendas parlamentares cuja quitação tornou-se obrigatória recentemente. E de ter feito sobrar dinheiro de alguns setores apenas pelo fato de que auditorias internas identificaram desvios. Evitada a sangria pelo ralo da roubalheira, o dinheiro apareceu. Só no setor de saúde, mais de R$ 1 bilhão.

Temer tem uma base de apoio no Congresso de dar inveja a qualquer presidente, em qualquer lugar do mundo. De acordo com o Estadão Dados, o porcentual de fidelidade ao governo é de 88%, contabilizando-se aí a traição ocorrida durante a votação do projeto de socorro aos Estados, quando todo mundo se voltou contra a orientação do Palácio do Planalto.

Para Temer, é tudo uma questão de gestão. Se mantiver as contas em dia, com equilíbrio fiscal, é possível fazer muita coisa. Mesmo que o dinheiro esteja tão escasso.

Assim termina o ano de 2016 para o presidente, ano que para ele foi muito bom, segundo tem dito àqueles com os quais convive. Parece até que mal ele se aguenta de tanta animação.

Vem aí 2017.

O presidente vai precisar da animação que mostrou nos últimos dias e mais alguma coisa para enfrentar o novo ano. A partir de amanhã terá de administrar a briga interna dos partidos que o apoiam e que lutam pela presidência da Câmara. Logo poderá vir mais alguma surpresa da Lava Jato, além da ação que propõe a cassação da chapa Dilma-Temer no TSE, o que é sempre uma dor de cabeça.

Nada, no entanto, supera o maior de todos os problemas: o desemprego. De acordo com o IBGE, no trimestre encerrado em novembro havia no País 12,132 milhões de pessoas em busca de trabalho, um recorde absoluto nesta questão, que de todas é a pior, pois destrói o tecido social, aumenta a violência, arrasa a autoestima de qualquer um, esfacela famílias, alimenta a desesperança.

Pelos cálculos do IBGE, mais de 3,018 milhões de pessoas ficaram desempregadas em relação ao período de um ano antes. Essa taxa só não foi maior porque 967 mil brasileiros migraram para a inatividade no mesmo espaço de tempo.

Portanto, cada passo que Michel Temer der terá de levar em conta também a geração de empregos. Ele acha que a situação do emprego pode melhorar a partir do segundo semestre. É tempo demais. Nada é mais urgente do que resolver a questão do desemprego.

Se não resolvê-la, de nada adiantará Temer chegar ao fim do mandato, olhar-se no espelho, bater no peito e dizer que fez um governo reformista. 

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