Deputados dizem que peemedebista quebrou decoro

Um dia após ser apontado como detentor de contas bancárias na Suíça, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), foi alvo de questionamentos de parlamentares de PSOL, PT, PSB, PMDB e Rede Sustentabilidade. Em especial pelo fato de quando foi à CPI da Petrobrás no dia 12 de março deste ano ter afirmado que não tinha contas no exterior. "Não tenho qualquer tipo de conta em qualquer lugar que não seja a conta que está declarada no meu Imposto de Renda", disse em seu depoimento.

Daniel Carvalho , Carla Araújo / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2015 | 02h04

O grupo de parlamentares avalia que ele pode ser cassado por quebra de decoro em razão dessa declaração, que contrasta com apurações da Procuradoria-Geral da República que sustentam que o deputado do PMDB e parentes dele têm contas secretas naquele país. A Suíça transferiu para o Brasil investigação criminal sobre Cunha, denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro na Operação Lava Jato.

Com a remessa dos elementos contra o deputado no país europeu, a Procuradoria, em Brasília, poderá investigá-lo e processá-lo. Cunha teria recebido, na Suíça, propina relativa a contratos da Petrobrás. A transferência da apuração criminal foi feita por meio da autoridade central dos dois países (Ministério da Justiça). O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, aceitou o envio feito pelo MP da Confederação Helvética.

Assim como no dia anterior, quando a informação da Procuradoria se tornou pública, ele ignorou ontem as perguntas e passou a maior parte do dia trancado em seu gabinete.

Conselho de Ética. O grupo de deputados apresentou um requerimento em que pede a Cunha informações sobre eventuais contas dele e de familiares. O pedido também será apresentado à Procuradoria e, caso Cunha não se manifeste até a próxima semana, os congressistas entregarão ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara uma solicitação para que o presidente da Casa exponha os dados bancários e fiscais.

Essa petição, no entanto, teria de ser aprovada pelo Conselho, comandado por um aliado de Cunha. A estratégia do grupo anti-Cunha inclui questioná-lo em todas as sessões para desgastar a imagem dele. Com recortes de jornais e cartazes onde se lia "Cunha não nos representa" e "Não em nosso nome", nove deputados apresentaram o requerimento.

Interesse público. Eles dizem representar um grupo de 15 membros do Parlamento que questionam o presidente da Câmara. "Todos querem essa resposta. É um dever do presidente da Casa se explicar ao plenário. O Ministério Público da Suíça, que desde abril investiga as contas que seriam de Eduardo Cunha e seus familiares, não é leviano de inventar história", disse o líder do PSOL na Casa, Chico Alencar (RJ), que, momentos antes, já havia questionado o presidente da Casa, na tribuna do plenário, mas foi ignorado por ele. "O presidente Eduardo Cunha tem ou não contas secretas na Suíça?", questionou. "É cristalino, é simples. Não tenho e se veio algo em meu nome, abro mão disso. Como o deputado Paulo Maluf sempre faz", afirmou o parlamentar, referindo-se ao deputado Paulo Maluf (PP-SP), que nega reiteradamente ter contas no exterior.

"É inaceitável o presidente da Casa, diante de denúncias tão graves, ficar em silêncio. Exigimos uma resposta. Ele se diz alvo de perseguição do governo. O que falar sobre a investigação do Ministério Público da Suíça? Será perseguição do governo suíço?", perguntou o deputado Alessandro Molon (Rede Sustentabilidade-RJ).

O peemedebista cancelou uma viagem que faria ontem à Itália. Alegou que permaneceria em Brasília para ir ao casamento do senador Romero Jucá (PMDB-RR) neste sábado.

"Todos querem essa resposta (se Cunha tem contas na Suíça). É um dever do presidente da Casa se explicar ao plenário. O Ministério Público da Suíça, que desde abril investiga as contas que seriam de Eduardo Cunha e seus familiares, não é leviano de inventar história"

Chico Alencar

LÍDER DO PSOL NA CÂMARA DOS DEPUTADOS

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