Depois de mágoas, Lula planeja escrever memórias

Às vésperas de deixar o governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou escapar hoje que ainda sente mágoas da oposição e da imprensa. No último café da manhã com jornalistas que fazem a cobertura do Palácio do Planalto, ele disse que vai precisar de tempo para escrever suas memórias. "Você não está preparado para fazer um livro no dia seguinte. Você está com mágoa. É preciso dar um tempo. Imagina se um marido e uma mulher no dia seguinte à separação resolvem escrever um livro? Vai ser um desastre. Você tem que deixar o ódio se assentar", disse.

LEONENCIO NOSSA, Agência Estado

27 Dezembro 2010 | 12h37

Embora tenha usado palavras fortes, Lula fez esses comentários com o semblante tranquilo e observou que o ex-presidente Juscelino Kubitschek (1956-1960) foi bastante criticado. "Todo o santo dia ele era chamado de corrupto e ladrão. Depois de um tempo, reconheceram a importância dele".

Lula disse que pretende trabalhar na construção de um memorial que permita a todas as pessoas fazerem uma análise própria do que representaram seus oito anos de governo. "Eu pretendo fazer isso devagar. Nada apressado".

Pela primeira vez, Lula fez uma conexão entre sua trajetória política com o movimento de resistência estudantil à época ditadura. "O Lula não surgiu do nada. Ele é o resultado de um processo que começou com a revolução dos estudantes nos anos 60, depois passou pela revolução dos sindicalistas nos anos 70 e até a teologia da libertação da Igreja Católica", disse.

"Quando analisarem a história, acho que os mais cuidadosos vão perceber que sou resultado de uma sociedade em efervescência. Eu seria muito presunçoso se dissesse como gostaria de ser lembrado. Só sei que mudei a relação do Estado com a sociedade, com os movimentos sociais", completou.

Saudade da piscina

O presidente disse nesta manhã que não sentirá falta da piscina do Palácio da Alvorada e dos helicópteros da Presidência da República. Hoje, um jornalista lembrou um comentário do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que no final de 2002 afirmou que ia sentir saudades da piscina do palácio. "Usei pouco a piscina e tenho medo de helicóptero. Não vou sentir falta", disse Lula.

Na conversa com os jornalistas, Lula disse que o "apartamentozinho" de São Bernardo do Campo (SP) é mais aconchegante que os palácios de Brasília. Depois, o presidente disse que iria sentir falta das relações de amizade que fez no governo e, especialmente, durante as viagens, além de afagar os jornalistas: "Por incrível que pareça, vou sentir falta de vocês. É saudade".

No entanto, o afago durou pouco. Em seguida, o presidente reclamou da cobertura da imprensa. "Esses dias li uma matéria em que a grande derrotada nas eleições foi a Dilma (Rousseff, presidente eleita) e os vitoriosos foram o (José) Serra e a Marina (Silva)", se queixou.

Diante dos jornalistas, o presidente defendeu uma regulação dos veículos de comunicação e disse que a sua proposta não é uma forma de controle. "Eu não defendo o controle da mídia, mas a responsabilidade. A mídia tem de parar de achar que não pode ser criticada", disse. Lula disse que o Brasil é o país de maior liberdade de imprensa. "No Brasil, exercemos a liberdade de imprensa mais que em qualquer país", completou.

Mais conteúdo sobre:
Lula jornalistas despedida mágoas oposição

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.