1. Usuário
Assine o Estadão
assine

1964

Depoimentos de pessoas que viveram o momento do golpe

Roldão Arruda - O Estado de S.Paulo

28 Março 2014 | 21h 53

Segundo Almino Affonso, o general Assis Brasil, chefe da Casa Militar, disse a Jango que não havia nada que escapasse à rotina

Almino Afonso, 84 anos, advogado e político paulista, filiado ao PMDB. Foi ministro do Trabalho no governo do presidente João Goulart, na primeira metade do ano de 1963. No dia 31 de março, ocupava uma cadeira na Câmara dos Deputados, na base de sustentação do governo.

 

Ao chegar à Câmara, no dia 31, tomei conhecimento de que a marcha do general Mourão Filho, de Juiz de Fora para o Rio, já estava acontecendo, com o propósito de derrubar o governo João Goulart. Fiquei surpreso, embora o clima de inquietação já fosse grande. Saí de lá e fui para a casa de Virgílio Filho, líder do governo no Senado. Ele também não tinha noção do movimento militar e por isso tomamos a decisão de ligar para o Goulart, que estava no Rio, no Palácio Laranjeiras.

 

Arquivo Estadão -19/10/1963

Assis Brasil (esq.) toma posse como ministro da Casa Militar, ao lado de Jango

Na conversa, o senador lhe deu a versão que tínhamos ouvido e pediu que dissesse o que ele deveria dizer na tribuna, caso fosse discursar mais tarde. O presidente respondeu que não havia nada que pudesse inquietar, que não havia procedência na versão do movimento militar, que era parte do tumulto que a oposição criava. Na extensão telefônica, no seu gabinete, encontrava-se o general Assis Brasil. Goulart perguntou a ele o que havia de verdade. O chefe da Casa Militar respondeu então que não havia nada que escapasse à rotina.

 

Eram marchas habituais na prática do Exército.

O presidente interpelou outra vez: 'Não há nada?' E ele respondeu: 'Nada, absolutamente nada, presidente.' O Jango diz para o Artur Virgílio: 'Tu ouviste, Artur. Não há nada. Não passa da toada da oposição.' O senador: 'Posso transmitir em meu discurso no Senado o que acabo de ouvir?' Goulart: 'Pode não, deve.'Terminou assim o nosso diálogo, ao meio do dia 31 de março. Depois cada um foi para sua casa almoçar.

General da reserva Luiz Gonzaga Lessa, ex-comandante da Amazônia, ex-presidente do Clube Militar do Rio.

Eu era tenente-paraquedista do antigo Núcleo de Divisão Aero-terrestre e estávamos de prontidão desde as vésperas do discurso de João Goulart na Central do Brasil, no dia 13 de março. Nos dias 31 de março e 1º de abril, fiquei no quartel o dia inteiro. Chegamos a pensar que iríamos subir a serra para dar suporte à tropa do general Olympio Mourão Filho, que vinha descendo de Juiz de Fora para o Rio, porque existiam informações de que uma outra tropa, saindo de Petrópolis, iria barrar a passagem dele. Mas não foi preciso. Não tive nenhum receio, nenhum medo naquele dia. A tropa de paraquedistas estava pronta para qualquer missão.

Nathalia Timberg, 84 anos, atriz.

Não esqueço que, logo após tomar consciência do golpe, recebi um convite para fazer Antígona de Jean Anouilh, uma peça inspirada na tragédia grega, que foi encenada na França justamente na época da ocupação alemã. Era uma peça de contestação e, ao final das apresentações, a plateia erguia a voz e gritava comigo: 'Não'. Era muito bonito. Não posso me esquecer.

Fernando Gabeira, 73 anos, jornalista, escritor e político, filiado ao PV.

Eu trabalhava no jornal Panfleto, em Copacabana. No dia do golpe, fui participar de uma manifestação no centro, acompanhando as notícias do dia pela rádio Mayrink Veiga. Durante a manifestação, andaram dando alguns tiros no interior do Clube Naval, que ficava perto dali. Percebemos que a coisa estava acabada para o governo no momento em que a rádio, que havia sido importante na Cadeia da Legalidade (formada por Leonel Brizola, em 1961, para garantir a posse de Goulart) caiu nas mãos dos golpistas.

Plínio de Arruda Sampaio, 83 anos, político filiado ao PSOL.

Em 1964, era deputado federal pelo Partido Democrata Cristão (PDC) e relator do projeto de reforma agrária apresentado ao Congresso pelo presidente João Goulart. Na tarde do dia 31 vou falar num comício no meio do canteiro de obras do Teatro Nacional. Faço um bruta discurso para os candangos. Quando volto para casa, assim que paro o carro, aparece um menino, de cinco ou seis anos, e me diz que foi sem querer, que não queria acertar a pedra. Entro e encontro o meu filho, o Plininho, com o olho sangrando. Apavorado, saio correndo com ele para o serviço de pronto-socorro que funcionava na Câmara. Graças a Deus não pegou o olho, não atrapalhou nada da visão. Foi só o supercílio. Mais tarde, esse episódio me ajudou muito. Quando fui acusado de, naquele dia e naquela hora, estar comandando um grupo de candangos armados para matar deputados e senadores, eu tinha um álibi perfeito. Mesmo assim, fui indiciado em vários inquéritos policiais militares, o que me levou a deixar o País.

Eduardo Suplicy, 72 anos, economista, político filiado ao PT e senador

Fiquei surpreso com o golpe. Eu fazia parte do centro acadêmico da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo e um dia antes, a 30 de março de 1964, havia participado da organização de um grande debate na escola, com a presença de vários professores, sobre a situação política do País. Ao final, como já se falava muito em golpe, realizamos uma votação entre os estudantes para saber se eram favoráveis ou não. Venceu, por grande margem de votos, a proposta que eu defendia, de respeito às normas constitucionais. No dia 31, acompanhei com muita atenção todo o noticiário e conversei muito com meus pais, que defendiam o golpe e haviam participado, dias antes, da Marcha com Deus pela Família.

Marcello Lavenère Machado, 75 anos, advogado, ex-presidente da OAB

Eu morava em Maceió e participava de um grupo de jovens advogados, ligado à Igreja Católica, que ajudavam a promover a sindicalização de trabalhadores rurais no Estado. Lembro que, na hora em que chegou a notícia do golpe, com a saída de Goulart, eu participava de uma reunião no seminário metropolitano com um grupo de quase 40 líderes rurais. Eles estavam recebendo informações sobre maneiras de sindicalizar os trabalhadores. Interrompemos o curso, passamos as informações sobre o que estava acontecendo e dissemos que não convinha ficar reunido naquele momento, porque a repressão iria ficar forte. Depois, nos organizamos e acompanhamos os líderes rurais, de dois em dois, até a rodoviária, para que voltassem aos seus locais de origem.

1964