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Política

José Dirceu

Depoimento de Dirceu na Lava Jato preocupa PT

Dirigentes temem que estratégia de defesa do ex-ministro atribua nomeações para a Petrobrás ao partido e abra novo flanco de investigação

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Alberto Bombig,
O Estado de S. Paulo

28 Janeiro 2016 | 03h00

O depoimento do ex-ministro José Dirceu à Justiça Federal do Paraná, marcado para sexta-feira, 29, em Curitiba, se transformou em mais um motivo de preocupação para a cúpula do PT. O temor é de que, para se defender das acusações de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, Dirceu aponte o partido como responsável por indicações na Petrobrás, o que abriria um novo flanco de investigação contra dirigentes e ex-dirigentes petistas. 

Até quarta-feira, 27, era consenso no PT que Dirceu não incriminaria diretamente outros nomes. Ao apontar o partido como responsável pelas indicações, ele apenas colocaria em prática uma nova estratégia de defesa, avaliavam os petistas. No entanto, o depoimento do ex-ministro poderá, nesse caso, abrir um novo caminho para a investigação relativa ao partido.

Outro temor é de que Dirceu utilize um de seus ex-assessores e amigos que também são alvos da operação para apontar novos nomes. Esse receio cresceu nos últimos dias após o depoimento do empresário Fernando Moura, conhecido no partido pela sólida amizade com José Dirceu. 

Na sexta-feira, 22, Moura, réu da Operação Lava Jato, disse que pagou propina para o PT e que seus contatos sobre valores ilícitos foram feitos com o ex-secretário-geral do partido Silvio Pereira e com o ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque – preso desde abril do ano passado.

“Qualquer coisa que fiz a nível de partido, de conversa, foi feito através do Sílvio Pereira”, afirmou Moura em depoimento prestado no âmbito da mesma investigação na qual Dirceu será ouvido.

Interrogado pelo juiz federal Sérgio Moro, como réu no processo do ex-ministro da Casa Civil da gestão Lula, o lobista apontou contratos da Petrobrás – obras de gasodutos, plataformas – em que ele diz ter feito acertos envolvendo Sílvio Pereira e Duque e que tinham o PT como beneficiário. Ele ainda citou os diretórios como receptores. “Porcentagens de valores de comissão (iam) para o diretório nacional e diretório estadual de São Paulo”, afirmou Moura.

“Isso, tanto com o senhor, quanto o Sílvio?”, questionou um dos procuradores na audiência. “Tenho certeza de que o Sílvio conversou comigo e com o Renato (Duque) também (sobre porcentuais)”, disse Moura. O procurador insistiu: “O senhor conversou com os empresários sobre isso também?”

“Não. Os empresários eu não tive nenhum contato. O contato era direto com o Sílvio”, respondeu afirmativamente Moura, que fechou acordo de delação com a Lava Jato.

Em outro ponto, Moura foi questionado diretamente sobre o ex-ministro. “Com relação aos recebimentos de José Dirceu, o senhor tinha participação, alguma vez coletou valores em espécie em favor dele?” “Nada. E nunca negociei com o Zé, direto, de dinheiro de nada.”

Moura também afirmou que Pereira “nunca” lhe “falou que estava dando para o Zé”. “Nunca paguei nada para ele e ele nunca pagou nada para mim.”

Moura foi questionado se Silvio Pereira sempre foi o contato entre ele e Dirceu: “Silvo Pereira era quem eu tinha contato com ele, a minha relação com Zé era muito mais de amizade”, responde Moura.

Mensalão. Silvio Pereira está oficialmente afastado do PT desde o mensalão, deflagrado em 2005. No fim de 2002, logo após a vitória de Lula na disputa pela Presidência, ele foi o responsável pelo preenchimento de cargos de primeiro escalão no governo que começava a ser montado. No entanto, os petistas afirmam reservadamente que Silvinho, como ele é conhecido no partido, não tinha autonomia para as nomeações e trabalhava sob as orientações de Dirceu e do ex-tesoureiro Delúbio Soares.

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