Denúncia aponta que recibos de Renan são ´notas frias´

Reportagem do Jornal Nacional revela que negócios do senador com venda de gado teriam sido feitos com empresas já fechadas; caso está no Conselho de Ética

Agencia Estado

15 Junho 2007 | 15h13

A situação do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), começa a se complicar. Os recibos entregues pelo senador ao Conselho de Ética para esclarecer o pagamento da pensão à filha de três anos que teve com a jornalista Mônica Veloso conteriam irregularidades, segundo reportagem do Jornal Nacional desta quinta-feira, 14. Renan usou a venda de gado como justificativa para comprovar um ganho de R$ 1,9 milhão nos últimos quatro anos. Segundo o Jornal Nacional, o negócio teria sido feito com empresas já fechadas e as notas apresentadas seriam ´frias´. Além disso, as pessoas que teriam negociado com o senador negaram a compra de gado. O próprio gerente da fazenda de Renan afirmou à reportagem que o número de cabeças é bem menor do que o apresentado. O senador falou em 1,7 mil e o gerente 1,1 mil cabeças. O senador responde a processo no Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar. Ele é acusado de ter despesas pessoais pagas por Cláudio Gontijo, lobista da empreiteira Mendes Júnior. Os cerca de R$ 12 mil mensais seriam usados no pagamento da pensão da filha e do aluguel do apartamento onde a jornalista morava com a criança. Renan nega as acusações e diz ter pago com recursos próprios. Há uma semana ele entregou ao Conselho de Ética, uma relação de cópias de cheques, estratos bancários e 70 recibos em folhas de papel sem timbre ou numeração, assinadas por ele, que se referem a venda de gado. Segundo o Jornal Nacional, o senador foi procurado, mas não quis gravar entrevista. Disse apenas que tem como comprovar a legalidade da venda de gado e que todo o dinheiro recebido foi depositado em sua conta pessoal. Afirmou ainda que não é problema dele se algum empresário quis enganar o fisco. Documentos estranhos Chama a atenção na relação sobre rendimentos rurais que o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) encaminhou à Corregedoria e ao Conselho de Ética, do período de janeiro de 2003 a dezembro do ano passado, o fato de não haver nos extratos da sua conta na agência do Banco do Brasil, instalada no Senado, a identificação de nenhum dos depositantes. Não há transferências online, nem mesmo quando a conta do suposto comprador de gado também é do Banco do Brasil. Em alguns casos, os valores citados são atribuídos genericamente a "arroubas de vaca". Há recibos citando quando a compra é de "boi" ou "vacas" vendidas. Os nomes dos compradores se repetem várias vezes. No caso de Marcelo Nunes de Amorim, aparecem três recibos sobre gado que ele teria comprado de Renan. Dois dos recibos têm a mesma data de 21 de abril de 2004, um no valor de R$ 30.800,00, "correspondente a 550 arroubas de vaca", e o outro de R$ 95.232,00, "correspondente ao pagamento de 1.536 arroubas de boi". A data do outro recibo sobre a venda de gado a Marcelo Amorim é 26 de abril, também de 2004, no valor de R$ 44 mil, "correspondente a 785,85 arroubas de vaca". Não há nenhum carimbo ou nota fiscal atestando a realização das operações. São recibos escritos no computador, na maior parte das vezes adotando o mesmo modelo, parecendo que foram escritos em série. Irregularidades apontadas em reportagem De acordo com a reportagem do Jornal Nacional, dados do Cadastro da Secretaria de Fazenda do Estado de Alagoas revelam que os donos de três das seis empresas que teriam comprado bois das fazendas do senador, moram numa única rua no bairro de Rio Novo na periferia de Maceió. Duas delas foram multadas por extravio de notas fiscais. João Teixeira dos Santos, de 82 anos, é sócio-gerente de uma das empresas, Carnal - Carnes de Alagoas Ltda -, já inativa. Renan apresentou três recibos de vendas para a Carnal no valor de R$ 127 mil. João diz que nunca deu cheques, nem comprou carnes do senador. A empresa GF da Silva Costa, do mesmo bairro, teria comprado R$ 164 mil em bois de Calheiros. No endereço de Genildo Ferreira, dono da GF, cujo CPF consta como suspenso na Receita Federal, ninguém o conhece. O endereço da empresa é num casa em Satuba, cidade vizinha, ela não funciona ali. Na Secretaria da Fazenda consta que também essa empresa está inativa e foi multada em mais de R$ 680 mil por extravio de notas fiscais. Cinco recibos apresentados pelo senador são posteriores ao fechamento da empresa. Roberto Gomes de Souza foi contador da GF da Silva Costa e da Carnal e diz que não se lembra de negócios dessas empresas com o senador. A Stop Carnes, um pequeno açougue, consta como inativo, mas ainda está em funcionamento. Renan teria vendido R$ 47 mil em gado para essa empresa. O dono, Alzir de Souza e Silva, confirma ter comprado gado de Renan, mas não sabe dizer quanto, nem tem os recibos. Diz ter comprador por meio de intermediários e que nunca teve contato pessoal com o senador. O maior cliente, é o açougue São Jorge, em Benedito Bentes, com recibos em nome de M.W. Ricardo Rocha, microempresa que teria comprado do senador R$ 429 mil em carnes. A empresa declarou faturamento de apenas R$ 23 mil no ano passado. Procurados, os proprietários, Maria Valdecy Ricardo da Rocha e José Acássio da Rocha, se negaram a dar entrevista. Conselho de Ética As novas denúncias podem evitar a tentativa de arquivamento do processo no Conselho de Ética. Na última quarta-feira, o senador foi favorecido por uma decisão inédita: em rito sumário, sem ouvir nenhuma das partes envolvidas, o relator Epitácio Cafeteira (PTB-MA) mandou o conselho arquivar a representação contra ele por quebra de decoro parlamentar, apresentada pelo PSOL. Cafeteira disse que, embora tenha feito uma "busca terrível" de documentos na segunda e na terça-feira, não encontrou nada que incriminasse o colega. Sobre sua pressa, disse que buscou evitar "expor e afrontar a instituição" que Renan representa. "Não se pode admitir que a instituição permaneça por mais tempo submetida a essa campanha difamatória." Nesta sexta-feira, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) afirmou que irá apresentar um relatório paralelo ao conselho propondo que o colegiado aprofunde as investigações sobre as denúncias. A reunião está prevista para as 10 horas. (Colaborou Rosa Costa, do Estadão)

Mais conteúdo sobre:
renan conselho ética gado

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.