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Da glória do Cruzado à solidão do Amapá

João Domingos/BRASÍLIA - O Estado de S. Paulo

28 Junho 2014 | 18h 36

Depois dos bons tempos do poder, ex-presidente José Sarney sai de cena politicamente isolado

No Planalto. José Sarney em reunião ministerial nos dias finais de sua presidência
No Planalto. José Sarney em reunião ministerial nos dias finais de sua presidência

Imperatriz, sul do Maranhão, 6 de abril de 1989. Cabisbaixo, o presidente José Sarney pega o microfone. No palanque improvisado no Clube Juçara ele inicia um discurso com seu mais tradicional bordão: “Brasileiras e brasileiros...”. Acrescenta: “... de Imperatriz e do Maranhão”. Diz que está emocionado e afirma que a Ferrovia Norte-Sul – cujos primeiros cento e poucos quilômetros seriam inaugurados naquele momento – não é de nenhum Estado. “É a ferrovia da integração nacional.”

E prossegue, desconfiado: “Nos 11 meses que ainda me restam nós vamos continuar. Se de alguma coisa me arrependo durante o meu governo é de não ter tido a audácia de resistir àqueles que resistiram à Norte-Sul. Mas, compensarei, sem dúvida, esta omissão, depois de deixar a Presidência, pois no dia em que parar a construção desta estrada, eu estarei ali presente, naquele lugar (aponta para os trilhos), esperando até o dia em que ela recomece a ser feita.” Depois que deixou a Presidência, em março de 1990, a obra foi interrompida várias vezes – até hoje não foi concluída. Nem por isso Sarney se sentou nos trilhos. Esse tipo de enfrentamento não faz parte de seu perfil.

No dia seguinte, Sarney tomou o trem de volta a São Luís. À medida que a composição avançava, ele ia se animando. Concedeu entrevistas em portunhol, disse que não trocaria a dívida externa do País por compensações ambientais e fez mais discursos em Açailândia e Santa Inês. Ali, diante do povo do Maranhão, ele parecia ganhar coragem e valentia, mas isso era em 1989. Com o tempo, esse mesmo Maranhão rejeitou Sarney.

Isolado no PMDB – que havia apoiado até uma CPI da Corrupção contra o governo federal – e pelo então governador maranhense Epitácio Cafeteira, e sabendo-se sem chances de ser eleito senador – um passo atrás para quem havia sido presidente da República e governador aos 35 anos –, só lhe restou mudar o domicílio eleitoral para o Amapá. E, pelo novo Estado, criado pela Constituinte que convocou, fez-se senador até hoje. Agora, 25 anos depois de ter deixado o Maranhão, e aos 84 de idade, com problemas de saúde, ele pressentiu de novo o risco de enfrentar uma eleição sem a certeza de vitória. Decidiu se aposentar.

Paralisações. Naqueles 11 meses que lhe restavam, em 1989, Sarney não tinha apoios no Congresso e via à sua volta uma sequência de greves – 8.790, segundo ele mesmo contou – que prejudicava tanto o setor privado quanto o estatal. A Assembleia Constituinte que convocara, um feito político tido como de coragem, que o levaria definitivamente para a democracia, tentara tirar dele dois anos de mandato. Teve de negociar muito para perder só um. Adversários o acusaram de distribuir concessões de emissoras de rádio e de TV em proveito próprio.

Tudo isso acontecia sob as vistas grossas do então deputado Ulysses Guimarães, que se empenhava em assegurar sua candidatura à Presidência pelo PMDB, justamente para suceder ao presidente acuado. Sarney julgava-se vítima de ingratidão tanto da parte de Ulysses – que mandara e desmandara no governo – quanto do PMDB. Três anos antes, por causa do Plano Cruzado que o presidente lançara no início de 1986, o partido havia se consagrado nas urnas, elegendo 22 dos 23 governadores. Ainda um fruto dos alegres dias dos “fiscais do Sarney”.

Faltando 11 meses para o fim do governo – e enquanto Sarney inaugurava os primeiros trechos da ferrovia Norte-Sul –, o País presenciava a intensa movimentação para a eleição do primeiro presidente depois do golpe militar. O grande vitorioso foi Fernando Collor de Mello, com o discurso de “caçador de marajás”, e que na campanha havia atacado Sarney de forma violenta.

Lula. Negociador por natureza, assim que Sarney chegou ao Planalto o clima mudou – ficava para trás o tempo dos generais e a liberdade de informação se espalhava por toda parte. Conciliador, aproximou-se de Luiz Inácio Lula da Silva, que tanto o atacara e fora um crítico ferrenho da Norte-Sul, e de Epitácio Cafeteira (PTB), que lhe fechou as portas no Maranhão e o empurrou para o distante Amapá.

Mas, como afirmam assessores e políticos que lhe foram próximos, ele nunca foi santo.

Sarney apoiou, por exemplo, a censura imposta ao Estado pela Justiça de Brasília, a pedido de seu filho Fernando – caso que o Judiciário está por resolver há 1.734 dias. Também não perdoou o escritor Millôr Fernandes, que fez duras críticas ao livro Brejal dos Guajas, lançado por Sarney quando era presidente. Para Millôr, era “uma obra-prima sem similar na literatura”, pois “só um gênio poderia fazer um livro errado da primeira à última frase”. Quando Millôr morreu, em 2012, intelectuais do País inteiro lhe fizeram homenagens. Sarney não apareceu.

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