Crise moral

Não pode ser considerado normal que um governo com sete meses de existência – três meses e pouco interino e outros três meses e pouco efetivo – tenha perdido seis ministros e um assessor especial por suspeitas que vão desde ações para atrapalhar o trabalho da Justiça e tráfico de influência na máquina pública a envolvimento com caixa 2 e recebimento de propinas.

João Domingos, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2016 | 03h00

O normal nas demissões de ministros são as costuras políticas que exigem que uma vaga seja aberta para se acomodar um novo aliado que chega. Ou mesmo a incompetência descoberta somente depois da nomeação. 

Também não é normal que o grande número de baixas já verificado possa num futuro próximo ser acrescentado de mais nomes. Ainda há alguns na lista de suspeitos que, amanhã ou depois, poderão se ver obrigados a pedir demissão porque a permanência deles no governo criará instabilidade política. Em suma, podem complicar ainda mais a já complicada vida do governo. 

Sem falar que o próprio presidente Michel Temer também costuma frequentar as listas fornecidas por ex-executivos de empreiteiras que fizeram acordo com a Justiça e decidiram contar tudo o que sabem sobre as relações promíscuas de um passado quase nada distante entre empresários, governos, partidos, políticos e lobistas.

Ninguém nega que o Brasil passa por uma crise econômica das mais graves de sua história. Não se nega também que o governo de Dilma Rousseff deixou de legado ao País a crise econômica e uma profunda crise política. Chegou-se até a imaginar que o impeachment e a posse de Michel Temer pusessem um fim à crise política. Afinal, Temer assumiu a Presidência com uma base de sustentação no Congresso tão grande que poderia aprovar as reformas que quisesse. Portanto, teria condição de também pôr fim à crise econômica.

Por que então o País mais do que nunca arde numa crise política e continua vendo a crise econômica no seu horizonte? 

É porque o Brasil passa também por uma crise moral, revelada pelas diversas operações do Ministério Público e da Polícia Federal contra a corrupção, sobretudo a Lava Jato. Quanto mais se cavuca, mais se suspeita de que a imoralidade entranhou-se em parte das instituições. Há suspeitas de influência criminosa em nomeações para tribunais superiores, para as mais diversas estatais, não só a Petrobrás, para bancos, para fundos de pensão e outros locais importantes do aparelho do Estado.

A situação não melhora quando se olha para o Congresso. Preso em Curitiba está o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), há menos de um ano com poder suficiente para aceitar o pedido de impeachment de Dilma Rousseff, que levou ao fim do ciclo de poder do PT. Na mesma época Cunha alimentava o sonho de se tornar o candidato do PMDB a presidente da República, num plano político muito bem feito. À revelia de seu próprio partido, montou uma base de apoio político pessoal, com 13 partidos e 239 deputados, que se autodenominou “Centrão”. Cunha pretendia se apresentar ao eleitor como um candidato conservador, contrário ao aborto, à união homoafetiva, favorável ao aumento da repressão do Estado e à redução da maioridade penal. Para um País amedrontado pela violência, não se pode negar que teria chances de ser eleito. 

Recorde-se ainda que o Congresso e o Senado são presididos por Renan Calheiros (PMDB-AL), réu no STF, além de ser investigado em mais processos, impedido, por ordem da Corte, de substituir o presidente da República.

A crise moral não poupou também muitos dos dirigentes dos principais partidos, boa parte sob suspeita de recebimento de dinheiro irregular de empreiteiras. Entre eles, comandantes do PT, PMDB, PSDB, PP, só para citar alguns.

O eleitor dará o troco na próxima eleição. Não tem como não dar.

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