Crise ajuda Lula a conter apetite do PMDB por cargos

Planalto avalia que, mesmo absolvido, Renan já perdeu capital político

Agencia Estado

18 Junho 2007 | 14h34

A crise que atinge o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), será útil para o governo controlar o apetite por cargos da ala peemedebista por ele representada. Com essa avaliação, interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva dizem que, mesmo absolvido, Renan já perdeu capital político e sairá muito fragilizado do episódio. Na prática, Lula e o PT querem manter Renan à frente do Congresso, mas consideram que seu desgaste pode ser conveniente para o Palácio do Planalto. O PT trabalha pelo arquivamento do processo contra o senador, mas vai cobrar a fatura: quer ser contemplado com cargos hoje prometidos ao PMDB. O objeto do desejo petista está principalmente no setor elétrico: nas direções de Furnas, Eletrobrás, Eletronorte, Eletrosul e Itaipu. A fragilidade de Renan também agrada à fatia do PMDB acomodada na Câmara, que sempre disputou espaço com ele no governo. Ao lado do senador José Sarney (PMDB-AP), o presidente do Senado é hoje um dos principais interlocutores de Lula na negociação de cargos para o partido. Os constantes afagos que Lula faz à dupla - com o atendimento de suas reivindicações por espaço no governo - provocam ciúmes não só no PT, mas na ala peemedebista da Câmara. Lula deverá nomear esta semana Márcio Zimmermann para o comando do Ministério de Minas e Energia. Zimmermann é uma indicação de Renan e Sarney assumida pela chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Depois disso, o presidente começará a compor a direção das estatais do setor elétrico e a concluir a montagem do segundo escalão. Atual secretário de Planejamento do Ministério de Minas e Energia, Zimmerman substituirá Silas Rondeau, abatido pela Operação Navalha da Polícia Federal após acusação de que recebeu propina de R$ 100 mil para favorecer a Construtora Gautama. Fortalecido após a crise com Renan, o PMDB da Câmara deve emplacar na presidência de Furnas o ex-prefeito e secretário de Cultura do Rio Luiz Paulo Conde. Já conquistou uma diretoria da Caixa Econômica Federal (CEF) para o ex-deputado Moreira Franco - enquanto o ex-senador Maguito Vilela assumiu uma das vice-presidências do Banco do Brasil - e ainda espera cadeiras na Petrobrás, na BR Distribuidora e na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). "Renan deve apresentar os documentos comprobatórios da venda do gado ao Conselho de Ética do Senado e, fazendo isso, a questão sai do plano político para o pessoal", amenizou o presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP), numa referência às notas fiscais que justificariam seus rendimentos para pagar pensão à jornalista Mônica Veloso. Diplomático, Temer não quis comentar a briga por cargos entre as duas alas do partido e nem mesmo com o PT. O líder do PMDB no Senado, Valdir Raupp (RO), futuro anfitrião de um jantar da bancada peemedebista com Lula, nos próximos dias, também pôs panos quentes na queda-de-braço. "Não há problema tão grande assim para abalar a relação dentro do PMDB e muito menos com o PT", afirmou. Porteira Em conversas reservadas, petistas dizem, porém, que o sangramento de Renan contribuirá para pôr fim à tese da "porteira fechada" hoje defendida por um bom pedaço do PMDB. No jargão político, o termo significa o preenchimento de todos os cargos pelo mesmo partido. O PT, no entanto, usará o aval a Renan na tentativa de impedir o avanço peemedebista sobre o segundo escalão. "Eu não entro nessa disputa", comentou o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), integrante do Conselho de Ética. "Aliás, minha recomendação ao presidente Lula é para que ele sempre peça aos parlamentares que votem de acordo com suas consciências", acrescentou. Suplicy ainda não sabe se seguirá a orientação da bancada do PT para apoiar Renan. "Preciso antes analisar os documentos para firmar convicção dos fatos", ressalvou.

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