Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

'CPI não revelará um milímetro a mais', diz ministro

Para titular da Defesa, comissão criada na Câmara para investigar denúncias na Petrobrás não será problema para o governo, que, segundo ele, 'vai tocar a vida'

Entrevista com

Jaques Wagner

Débora Bergamasso e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2015 | 02h06

BRASÍLIA - Peça chave na articulação política do governo, o ministro da Defesa, Jaques Wagner, afirmou em entrevista exclusiva ao Estado que a iminente instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Câmara dos Deputados para investigar denúncias de corrupção envolvendo a Petrobrás "pode fazer palco, mas não revelará nem um milímetro a mais do que já está revelado". Para Wagner, o governo "vai tocar a vida", porque está preocupado com as "dificuldades econômicas que tem para administrar".

Além de ser um dos poucos ministros a sair a público para defender o governo neste momento, o político baiano também endossou a inocência do ex-presidente da estatal José Sergio Gabrielli, que foi seu secretário de Estado quando governou a Bahia. "Zero, zero, zero, esqueçam, não vai ter nada contra ele."

A instalação de uma CPI no Congresso para investigar a Petrobrás é mais um problema para o governo?

Isso pode fazer palco, mas não revelará nem um milímetro a mais do que já está revelado. Quem é governo quer céu de brigadeiro, é óbvio. Mas vamos tocar a vida. Já temos dificuldades econômicas para administrar. Não vamos ficar procurando cabelo em casca de ovo. Quem gosta de CPI é oposição. Não acho bom para o País ter essa CPI, mas também não temo nada. Vão conseguir revelar algo a mais? Não.

Os escândalos da Petrobrás podem sobrar para o ex-presidente da empresa José Sergio Gabrielli?

Zero, zero, zero, esqueçam, não vai ter nada contra ele. Esse rapaz é tão cioso das coisas que, por ele ser da Bahia, assim como eu, em alguns momentos até me atrapalhou quando precisava defender os interesses do Estado. Uma vez, ele foi lançar um edital na área de cultura lá e ao discursar ele começou a justificar o motivo pelo qual estava atendendo àquele pedido. Não aguentei e disse: "Ô, Gabrielli, e também porque você é baiano, né, e não é porque você é presidente da Petrobrás que não vai poder fazer alguma coisa pela Bahia".

Haverá dificuldade de relacionamento entre o Executivo e o novo presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ)?

Não tem apocalipse. Não acho que ninguém que se sente na cadeira de presidente da Câmara vá pregar a guerra. A liberdade que tem um líder de partido não é a mesma liberdade que tem um presidente da Câmara. Ele não vai mudar de ideologia, mas mudou de posição. Ele defende autonomia de poder, o que é natural e está nos estatutos. Tenho certeza que a maioria do partido não quer pregar o racha, mas construir pontes. E outra, o partido (PT) que ganhou o Executivo, pode perfeitamente compartilhar no Legislativo.

Mas a vitória de Cunha foi uma derrota grande do governo?

Foi derrota para o governo? Foi. Foi derrota para o PT? Foi. Mas, agora, tem de administrar. Se tivessem respeitado a regra de alternância de poder nas Casas pelos dois maiores partidos, isso não estaria acontecendo. Dilma vai respeitar o presidente da Câmara como respeita o presidente de um Poder. A derrota foi domingo passado e a vida segue. Os problemas reais do dia a dia vão continuar. É como Copa do Mundo: tomamos de 7 a 1 mas já passou. E se a derrota servir para acalmar a base, está bem.

Como vê a insatisfação generalizada dentro do PT?

O PT é o partido da presidente. Essa tensão não é necessariamente ruim. O PT dizer que queria que o ministro escolhido para a agricultura tivesse uma interface maior com a agricultura familiar é próprio do jogo. Enquanto o pessoal do agronegócio iria reclamar. Isso não ia tirar a paz. Mas, como diz o (ex-presidente) Lula: a gente ganha com os que nos acompanham e governamos com estes que nos acompanharam. Não há outra regra. A pessoa serve para apoiar mas não serve para governar? A vida é assim. Agora, o que me entristece é ver um ex-presidente da República (Fernando Henrique Cardoso, PSDB) publicar um artigo que diz "Chegou a hora" (publicado no 'Estado' no domingo), propondo um golpe pelo judiciário. Pelo amor de Deus, isso entristece o currículo dele. Fiquei decepcionado. Já acabou a eleição.

A recente reportagem do 'The New York Times' dizendo que o governo americano continua espionando a presidente pode atrapalhar as relações entre Brasil e Estados Unidos?

Não cabe a mim responder isso, mas por coincidência recebi aqui no gabinete a embaixadora dos Estados Unidos, Liliana Ayalde. Conversamos sobre tratados que estão em curso e que quero acelerar para mandar para o Congresso, que são acordos de cooperação e que preveem crescimento na cooperação. Então eu disse a ela: "Eu só espero que a notícia do 'NYT' não se confirme para não atrapalhar nossa caminhada".

E ela?

Ela negou, disse que era especulação do jornal e assegurou que isso não vai atrapalhar em nada. Eu disse que espero que não seja verdade porque, se for, é problema. Mas não vou ficar fazendo chuva em copo d'água. Quem tem de responder sobre isso é o governo americano. Ela, que fala pelo governo americano, desmentiu aqui. Disse que é especulação de jornal. Eu recebi o conforto dela dizendo que não era verdade e que isso não irá atrapalhar.

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