'Cotas aceleram processos para atingir paridade'

Para a secretária de Articulação Institucional, Sônia Malheiros Miguel, políticas públicas podem ampliar participação de mulheres em cargos de poder e decisão

Daniel Bramatti / SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

28 Dezembro 2010 | 22h18

A instituição de cotas por gênero poderia acelerar a incorporação de mão de obra feminina nos níveis mais altos da administração pública, afirma Sônia Malheiros Miguel, secretária de Articulação Institucional da Secretaria de Políticas para Mulheres, órgão vinculado à Presidência da República.

 

Por que há poucas mulheres nos cargos mais altos da administração federal?

É o famoso teto de vidro, cuja existência já foi constatada em vários estudos. As mulheres vão até um certo patamar e, quando se trata de cargos de poder e de mais evidência, ficam em segundo plano. Hoje em dia, apesar de terem diminuído muito, ainda há discursos conservadores de que o lugar da mulher é em casa e não na vida pública. Na hora da ocupação de espaços de poder e decisão é que se vê que essa questão ainda se coloca de uma maneira muito forte.

 

De onde vêm as resistências?

Para as mulheres ocuparem esses espaços de poder e decisão, homens terão de sair. A resistência para largar lugares de poder é muito evidente. Quem está no poder não quer sair. Em todas as áreas da vida brasileira isso se coloca – no Executivo, no Legislativo, nas empresas. Nas esferas mais baixas de gestão ou direção há mais equilíbrio, e, à medida que vai aumentando o poder, as mulheres vão diminuindo.

 

Há avanços?

Avançamos muito na questão educacional. As mulheres são maioria nas universidades e são mais instruídas. No mercado de trabalho, estamos par a par com os homens, ainda que tenhamos problemas na questão salarial. A ocupação dos espaços de poder é a grande barreira que tem de ser vencida pelas mulheres no século 21. As mulheres já demonstraram sua capacidade intelectual e de força de trabalho. O que explica a barreira na ocupação dos espaços de poder é a introjeção quase atávica dessa visão conservadora de que o lugar da mulher não é na vida pública.

 

Como a eleição de uma mulher para a Presidência afeta esse quadro?

A decisão da presidente eleita de ampliar o número de mulheres no mais alto escalão do governo já é um dado importante em relação a isso. Nunca houve tantas mulheres indicadas como ministras. A fala da presidente logo depois de eleita, colocando esse tema no primeiro parágrafo de seu discurso – "sim, as mulheres podem", parafraseando o presidente Barack Obama –, indica uma vontade política que pode e deve repercutir positivamente no preenchimento de outros cargos no governo e mesmo em outras áreas da sociedade brasileira.

 

O estabelecimento de cotas por gênero seria uma solução ou isso problematizaria ainda mais a questão?

O que entendemos como correta é a noção de paridade na ocupação de espaços de poder de decisão. Sou pessoalmente favorável à política de cotas. Ela acelera processos. Mesmo quando há resistências, o clamor e o debate que ela traz para a sociedade é positivo, porque isso coloca em pauta um assunto que normalmente é ignorado. A incorporação das mulheres de uma maneira plena à vida social é irreversível no Brasil. Podemos ver que a sociedade se organiza nesse sentido. Mas essa incorporação pode ser feita de uma maneira mais lenta ou pode ser acelerada com políticas públicas.

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