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Entrevista. José Ugaz, presidente da Transparência Internacional

Brasil precisa de uma combinação de reformas e esforços para mudar estrutura da sociedade, diz presidente de ONG

‘Corrupção é imposto pago pelos mais pobres’

Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL / ZURIQUE

A corrupção é a base da desigualdade social no Brasil e são os pobres os mais afetados pelo fenômeno. As declarações são de José Ugaz, presidente da Transparência Internacional, organização com sede em Berlim e presente em mais de cem países. Em entrevista ao Estado, Ugaz elogiou a força-tarefa da Operação Lava Jato, mas reconheceu que, por causa do caso de desvios na Petrobrás, “a percepção da corrupção no Brasil se deteriorou significativamente”. Ugaz, de 56 anos, ficou conhecido como procurador do caso Fujimori, ex-presidente peruano que atualmente cumpre pena de prisão por corrupção e crimes contra os direitos humanos.

Por que o Brasil sofreu uma queda tão acentuada no ranking da Transparência Internacional?

Sem dúvida, o megaescândalo da Petrobrás e suas ramificações afetaram a percepção dos entrevistados sobre os níveis de corrupção no Brasil. É importante ressaltar, no entanto, que o ranking não é uma pesquisa de opinião pública, com entrevistas de rua e uma seleção aleatória de respondentes. O índice é uma compilação de pesquisas com públicos especializados; em geral, líderes empresariais e especialistas sobre sua percepção da corrupção no setor público de um país. Por refletir a opinião de um grupo qualificado, o ranking normalmente não se deixa afetar de maneira significativa por escândalos e outros eventos isolados, justamente porque ele captura a percepção de um público que acompanha a questão de um ponto de vista mais sistêmico. No entanto, o escândalo da Petrobrás e a Operação Lava Jato foram tão impactantes que, mesmo com esta característica “amortecedora” do índice, a percepção da corrupção no Brasil se deteriorou significativamente.

Como o sr. avalia a situação da corrupção no Brasil hoje?

Da mesma forma que os valores exorbitantes de dinheiro e o número de criminosos de alto nível envolvidos no escândalo Petrobrás causou espanto mundial, a Operação Lava Jato, investigando empresários e políticos poderosos, também está mandando uma mensagem ao mundo de que algo extraordinário está ocorrendo na luta contra a corrupção no Brasil. Não há muitos exemplos de países que se aprofundam na investigação e sanção da grande corrupção, especialmente quando ela envolve a cumplicidade entre as elites econômica e política. Isto é o resultado do comprometimento público de um grupo extraordinário de delegados, procuradores e juízes que decidiram romper com a impunidade. Quando um país começa a confrontar o mal da corrupção de maneira mais incisiva, ela se torna mais visível, mais debatida, mais “percebida”.

A Lava Jato é suficiente para acabar com a corrupção no País?

Certamente não. Nenhum país foi bem-sucedido na luta contra a corrupção com medidas isoladas – é sempre uma combinação de reformas e esforços persistentes. No entanto, a Lava Jato é extremamente importante e deve ser defendida. Existem várias pessoas, e pessoas poderosas, querendo ver a operação enfraquecida, a nulidade dos processos e a impunidade como resultado final. Claro, se equívocos e abusos foram cometidos nos procedimentos da operação, eles devem ser corrigidos. Entretanto, como dizem os procuradores da força-tarefa, não se deve demolir um prédio inteiro porque se encontrou um vazamento na tubulação. A corrupção no Brasil parece ser sistêmica e a investigação e sanção de um caso não mudará as estruturas da sociedade brasileira.

Quais outras medidas são necessárias?

Em primeiro lugar, a sociedade brasileira deve assegurar os avanços já alcançados. Há tentativas frequentes de alterar e abrandar as importantes leis anticorrupção aprovadas nos últimos anos. Também é importante promover reformas sistêmicas, tais como as propostas na campanha “10 Medidas contra a Corrupção” liderada pelo Ministério Público. Há necessidade, ainda, de uma mudança cultural. Os cidadãos precisam entender que é possível viver sem o desrespeito às leis para benefício pessoal.

Qual o impacto da corrupção para o brasileiro comum?

A corrupção afeta mais agudamente os brasileiros mais pobres. Quando o corrupto rouba dinheiro para benefício próprio, saúde, educação, alimentação, saneamento e outros direitos humanos básicos são negados aos setores mais vulneráveis da sociedade. A corrupção é um imposto pago pelos mais pobres de nossos países.

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