‘Corrupção atinge níveis inimagináveis’, dizem delegados

Em manifesto, membros da Polícia Federal acusam políticos 'padrinhos' de servidores corruptos de questionar metodologia dos agentes para tirar o foco das denúncias

Fausto Macedo, de O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2011 | 22h40

Delegados da Polícia Federal, inconformados com ataques que a corporação recebe a cada operação, lançaram manifesto por meio do qual lamentam que "no Brasil a corrupção tenha atingido níveis inimagináveis". Destacam que "milhões de reais, dinheiro do povo, são desviados diariamente por aproveitadores travestidos de autoridades".

 

"Quando esses indivíduos são presos, por ordem judicial, os padrinhos vêm a público e se dizem ‘estarrecidos com a violência da operação da Polícia Federal’", afirma o documento, subscrito pela Associação Nacional dos Delegados da PF, uma das principais entidades da classe que detém atribuição constitucional para presidir inquéritos sobre desvios de recursos do Tesouro.

 

"No Ministério dos Transportes, toda a cúpula foi afastada", assinala o protesto. "Estourou o escândalo na Conab e no próprio Ministério da Agricultura. Em decorrência das investigações no Ministério do Turismo a Justiça Federal determinou a prisão de 38 pessoas de uma só tacada. Mas a preocupação oficial é com o uso de algemas."

 

Eles ponderam que "em todos os países a doutrina policial ensina que o preso deve ser conduzido algemado, porque a algema é instrumento de proteção ao preso e ao policial que o prende".

 

Os delegados recorrem ao criminalista Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justiça no governo Lula, que um dia declarou: "A Polícia Federal é republicana e não pertence ao governo nem a partidos políticos."

 

Trecho do documento soa como um alerta: "Há de chegar o dia em que a história será contada em seus precisos tempos. De repente, o uso de algemas em criminosos passa a ser um delito muito maior que o desvio de milhões de reais dos cofres públicos".

 

"Quando se prende um político ou alguém por ele protegido, é como mexer num vespeiro", argumenta Bolivar Steinmetz, presidente da associação. "Após ser preso, qualquer criminoso tenta desqualificar o trabalho policial. Quando ele (criminoso) não pode fazê-lo pessoalmente, seus amigos ou padrinhos assumem a tarefa em seu lugar."

 

Segundo os delegados, "altos executivos do governo, quando não são presos por ordem judicial, são demitidos por envolvimento em falcatruas".

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