Felipe Rau / Estadão
Felipe Rau / Estadão

Corrida presidencial dos 'invisíveis'

Sem dinheiro e tempo de TV, pré-candidatos do PPL, PSTU e PMN tentam sorte nas urnas

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

31 Março 2018 | 05h00

O personagem chega apressado para a entrevista numa sala simples e quente no centro de São Paulo. Não há seguranças, seguidores ou qualquer tipo de assédio. Quem o acompanha é seu filho, que às vezes também é assessor. O glamour é exíguo, quase inexistente — assim como o são o dinheiro e o tempo de TV no horário eleitoral gratuito. Trata-se de João Vicente Goulart (PPL), filho do ex-presidente João Goulart, que agora tenta repetir os passos do pai e chegar à Presidência.

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As condições simbolizam a campanha dos candidatos ‘nanicos’, que sequer aparecem nas pesquisas de intenção de voto. “O trabalho é de formiguinha”, resume a jornalista Valéria Monteiro, que se fez presidenciável pelo PMN e agora tem a candidatura colocada em xeque pelo próprio partido — em pesquisas internas, viram que ela não chegaria a 3%. 

Além desses, há também a sapateira Vera Lúcia, do PSTU, no time de postulantes inéditos e invisíveis. Aos 50 anos, a sergipana que começou a militar no movimento sindical quebra a hegemonia do dirigente Zé Maria como nome da sigla à Presidência. Ele, que postulou ao cargo quatro vezes, obteve 0,09% dos votos em 2014. 

Dos três, o único que já conseguiu se eleger é João Vicente, que foi deputado estadual no Rio Grande do Sul pelo PDT, nos anos 1980. A pré-candidata do PSTU já se apresentou em diferentes disputas, mas nunca conseguiu votos suficientes. Já Valéria quer estrear nas urnas neste ano, concorrendo ao mais alto cargo da República.

Em comum, todos têm a visão de que o Brasil segue caminhos equivocados e precisa mudar. No campo das ideias, porém, há divergências. O caso do PSTU é o mais destoante. O partido, que se classifica como de esquerda revolucionária, defende, por exemplo, o armamento da população — mesma bandeira do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL). “Hoje em dia, a questão da segurança passa pela autodefesa dos trabalhadores contra a violência do Estado”, explica Vera, pontuando a diferença em relação à direita. 

A ideia do PSTU, cujo tempo de TV no horário eleitoral gratuito é de seis segundos, é chegar ao Planalto para dar poder a conselhos populares, que seriam os responsáveis por definir os rumos do País — mesmo que passem por cima do Congresso. “Se você quer saber se a revolução socialista vai se dar pacificamente, não vai”, diz. 

Já a proposta de João Vicente passa por um grande diálogo nacional. Em defesa da luta nacionalista de esquerda que marcou o grupo político de seu pai, João Vicente vê a estatização do pré-sal como um dos pontos-chave quando se fala de segurança nacional. Defende uma ampla reforma tributária, priorizando a taxação de grandes fortunas.

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O filho de Jango foi um dos fundadores do PDT ao lado de Leonel Brizola e outros quadros históricos do trabalhismo. Saiu do partido ano passado por causa de divergências que envolviam a memória de seu pai. Viu no PPL uma forma de continuar a luta pelo ideário trabalhista. O partido, assim como os de Vera e Valéria, não tem representantes no Congresso. 

Sobre o candidato do PDT, Ciro Gomes, João Vicente é sucinto: falta encampar de fato o legado do trabalhismo, dando nome aos bois. “Tem falado pouco sobre Jango e Brizola. Sobre Getúlio, menos ainda. Cada um tem o direito de colocar sua egolatria na gravata que lhe cabe.” 

Também com discurso mais progressista, a pré-candidata do PMN, Valéria Monteiro, prefere não se classificar como de esquerda. Considera-se “humanista”. Uma coisa é certa: apesar de ser de fora do mundo político tradicional, acha que agora é sim um agente político. “Acredito que a política é a única ferramenta de transformação. Estando hoje a caminho de uma eleição, não posso dizer que não sou política”.

Apresentadora do Jornal Nacional, da Rede Globo, nos anos 1990, Valéria estava inquieta observando a crise de representação que toma conta do País. Aos 53 anos, achou que poderia se alçar à política e escolheu o PMN. Hoje ela acusa a legenda de usar uma pesquisa que não lhe foi apresentada para evitar sua candidatura. A jornalista diz que vai até o final como postulante à vaga — a convenção da sigla é em julho. 

Campanha. Driblar a falta de recursos é tarefa árdua para os candidatos desconhecidos e a internet é peça-chave — mas, num país em que, segundo o IBGE, o acesso à rede chega a apenas 63% dos domicílios, viajar é indispensável. Valéria, por exemplo, já visitou cidades em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais na sua Caravana da Coragem. Os deslocamentos são feitos com carro próprio, um Kia Cerato 2011, com o assessor ao volante. 

João Vicente também percorre Estados e participa de eventos do partido para traçar estratégias de campanha. Ele chama a disputa com partidos tradicionais de “Davi contra Golias”, mas não desanima. “As grandes revoluções começam com pouca gente.”

Vera Lúcia já admite que, por falta de dinheiro, não conseguirá chegar a todos os cantos do País. A sapateira compara o desafio de fazer campanha sem grandes recursos com a situação de quem é pobre em terras tupiniquins. “É preciso muita criatividade para sobreviver num país como esse e se manter vivo como desempregado. Outro desafio é conseguir sobreviver e trabalhar com um salário mínimo. E outro é fazer campanha como faz o PSTU.”

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