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Coronel que admitiu ter torturado é morto no Rio

Clarissa Thomé, Sérgio Torres e Wilson Tosta - O Estado de S. Paulo

25 Abril 2014 | 14h 24

Paulo Malhães é encontrado com sinais de sufocamento pouco mais de um mês após o oficial admitir ter visto e participado de torturas, mortes e sumiço de corpos durante a ditadura

Rio - (atualizado às 23h48) Um dos mais notórios torturadores da ditadura militar, o coronel da reserva do Exército Paulo Malhães foi assassinado no sítio onde morava, em Nova Iguaçu, na noite de quinta-feira, 24. O crime aconteceu pouco mais de um mês após o oficial admitir ter visto e participado de torturas, homicídios e sumiço de corpos durante o regime autoritário, quando integrou a repressão política.

Malhães foi provavelmente asfixiado até a morte por três homens que invadiram sua casa e o mantiveram prisioneiro por cerca de nove horas. Também foram feitos reféns a mulher do oficial, Cristina Batista, e o caseiro, identificado como Rogério.

Segundo a viúva , às 13h de quinta os três criminosos invadiram o sítio, supostamente em busca das armas que o coronel colecionava. O casal não estava no local e foi rendido ao chegar. O caseiro, de acordo com a Polícia Civil, não teria visto quando os criminosos entraram por uma janela e foi rendido pouco depois de Malhães e Cristina.

Os invasores - que portavam duas armas curtas e uma longa, e um deles de capuz - separaram as vítimas e reviraram a casa. O oficial ficou preso em seu quarto, onde seria encontrado morto. Mais duas pessoas que ficaram do lado de fora ajudaram na fuga dos invasores, segundo uma testemunha.

O corpo do militar foi deixado de bruços, com o rosto sobre uma almofada. Apresentava grande cianose (marcas azul-arroxeadas na pele) no rosto, indício de sufocamento, e não tinha sinais de tortura nem de ferimento a bala, segundo o delegado adjunto da Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense, Fábio Salvadoretti.

Durante o dia, a polícia ouviu depoimentos de Cristina e Rogério. Ambos deixaram a delegacia à noite, em uma viatura e sob escolta de policiais armados.

"Não descartamos nenhuma hipótese", disse o delegado. "Pode ter sido homicídio por vingança e até mesmo latrocínio (roubo seguido de morte), uma vez que foram levados vários pertences da vítima." Salvadoretti afirmou que as declarações de Malhães às Comissões da Verdade do Rio de Janeiro e Nacional serão investigadas entre as motivações para o crime.

De acordo com o delegado, os invasores perguntavam por armas e joias o tempo todo. Após mais de oito horas, os criminosos fugiram com dois computadores, pelo menos três armas da coleção do militar, um aparelho de som, joias e cerca de R$ 700. Parte dos objetos foi encontrada no mato, perto do imóvel.

Rogério e Cristina foram deixados amarrados em outros cômodos. Ela conseguiu se libertar na madrugada desta sexta e chamou a polícia. Os policiais só chegaram de manhã, porque a região, rural e isolada, é disputada por facções criminosas.

Depoimento. Em março, Malhães prestou à Comissão Estadual da Verdade do Rio depoimento em que relatava ter participado de prisões e torturas na ditadura. Disse também que foi encarregado pelo Exército de desenterrar e sumir com o corpo do ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido em 1971.

Dias depois, à Comissão Nacional da Verdade, reafirmou ter tomado parte em torturas, mas mudou sua versão sobre o sumiço dos restos mortais de Paiva. O corpo desenterrado, segundo ele, não poderia ser identificado por estar em decomposição.

A médica Karla Malhães, mais velha dos cinco filhos do oficial, afirmou que a família "está surpresa e não sabe o que pensar" sobre o crime. Ela disse ter conversado com o pai no domingo e chegou a perguntar se ele havia sofrido ameaças. Malhães negou, segundo ela.

"É tudo muito, muito assustador, muito surpreendente, não sabemos o que pensar. Por enquanto é latrocínio, roubo seguido de morte", afirmou Karla. A filha disse que não sabia das atividades do pai na repressão até os depoimentos. "Dissemos a ele que não devia ter falado, tanto tempo depois, ainda mais sem nos preparar."

Segundo Karla, Malhães se isolou mais da família após os depoimentos. O coronel completou 77 anos em 17 de abril, sem qualquer comemoração, disse ela. / COLABOROU FÁBIO GRELLET