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Coronel diz não ter dado fim a corpo de deputado

Clarissa Thomé - O Estado de S. Paulo

25 Março 2014 | 18h 54

Malhães recua em caso Rubens Paiva, mas admite torturas em ‘centro de conveniência’

Rio - (atualizado às 22h57) O coronel da reserva Paulo Malhães, que havia admitido ter se livrado do corpo do deputado Rubens Paiva, voltou atrás nas declarações em depoimento nesta terça-feira, 25, à Comissão Nacional da Verdade (CNV). Ele confessou ter torturado e matado presos políticos, além de ocultar seus corpos. Questionado sobre abuso sexual contra presas políticas, disse que "se houve, foi um ou dois casos".

Nas duas horas em que falou, ele se recusou a dar nomes de assassinados pela ditadura militar, de agentes da repressão e a informar quantos presos passaram pela Casa da Morte, centro de tortura clandestino que funcionou em Petrópolis, na Região Serrana do Rio.

Ele se referiu ao local como "um centro de conveniência, onde se procurava ganhar o preso para ele voltar como infiltrado na própria organização". "Conseguimos vários", disse, sem fornecer nomes ou especificar quantos.

"Foi um depoimento importante. Ele acabou por reconhecer que é um torturador. Poucas vezes tivemos a confissão de um torturador como ele fez, justificando que tinha que torturar um inimigo. Perguntei se ele teria o mesmo critério para o crime comum, e ele assumiu que sim - para o roubo, para o tráfico. E não tinha nenhum remorso pela tortura e mortes praticadas", afirmou o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, integrante da CNV, que interrogou Malhães, ao lado de Rosa Cardoso.

Exigências. O coronel da reserva queria ser ouvido reservadamente. Por fim, falou com a presença da imprensa, desde que repórteres não fizessem perguntas. Ele chegou ao Arquivo Nacional às 14 horas, numa cadeira de rodas. Malhães não se encontrou com a historiadora Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte - onde ficou 96 dias confinada -, que participou da audiência de manhã. "É uma página virada", afirmou, com sérias dificuldades para falar, sequela de um ataque, nunca esclarecido, sofrido em 2003.

Malhães defendeu a tortura como um meio de obter informações de "elementos de grande periculosidade". "Eu mesmo, quando comecei minha vida, cheguei a fazer tortura." Malhães negou que ele ou outros agentes tenham cometido violência sexual contra presas políticas. "Se houve, foi um ou dois casos. Mulher subversiva para mim é homem. Foram presas mulheres lindas, mas não atraíam minha atenção. Considerava-as meu inimigo."

Pressionado por José Carlos Dias, disse ter matado "poucas pessoas". "Foi um exibicionista, mostrando todo este lado mórbido que está presente no caráter dele", afirmou Dias. "O caso Rubens Paiva está esclarecido. Ele diz que não participou da missão, mas não importa, porque ele reconheceu que houve a missão".

Recuo. Malhães disse que foi mal interpretado e falado "por meio de parábolas" em entrevistas aos jornais O Dia e O Globo. Ele disse que chegou a receber a missão de sumir com o corpo de Rubens Paiva, mas foi deslocado de função.

"Eu só disse que fui eu porque acho uma história muito triste quando a família diz que leva 38 anos querendo saber o paradeiro do corpo. Não sou sentimental, não. (Falei) Para não começar uma guerra para saber onde estava o corpo". O coronel negou ter sofrido ameaça pela declarações, mas afirmou que seus cinco filhos e oito netos sofrem "sanções" desde seus primeiros depoimentos.

A audiência pública teve como tema a Casa da Morte. A CNV relacionou 27 nomes de desaparecidos políticos que podem ter passado pela Casa da Morte. "As graves violações de direitos humanos não foram produto de meia dúzia de psicopatas que exageraram. Houve uma política de Estado voltada para torturar, matar e fazer com que vítimas desaparecessem. É a grande revelação da Casa da Morte. O que falta, agora, é consolidarmos a lista de vítimas", afirmou o coordenador da CNV, Pedro Dallari.

A comissão quer mapear ainda os outros centros clandestinos como a Casa da Morte.