Robson Fernandjes/Estadão
Robson Fernandjes/Estadão

Coordenador da Comissão da Verdade critica silêncio das Forças Armadas

Para Pedro Dallari, reação ao relatório final apresentado pelo colegiado deixa clima de insegurança

ISADORA PERON, O Estado de S. Paulo

11 Dezembro 2014 | 12h49

Brasília - O coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Pedro Dallari, afirmou nesta quinta-feira, 11, que a postura das Forças Armadas de não reconhecer os crimes cometidos durante a ditadura cria um clima de "insegurança" para a democracia, que deixa em aberto a possibilidade de as violações dos direitos humanos voltarem a ser uma política de Estado.

"O silêncio poderá passar a impressão de que as Forças Armadas estão ainda de acordo com o que foi feito no passado e que, portanto, poderiam especular com a possibilidade de voltar a fazê-lo no futuro. Isso gera insegurança do ponto de vista da democracia", afirmou.

Dallari participou de uma audiência no Senado para falar sobre o relatório apresentado pela comissão nesta quarta-feira. O documento pediu a punição dos agentes envolvidos nos crimes cometidos durante o período e foi criticado pelos militares. Comandantes das Forças Armadas não participaram da solenidade.

Segundo o coordenador, as graves violações não foram produtos de práticas isoladas, mas sim de uma política de Estado. Por isso, seria importante uma posição oficial das Forças Armadas sobre o assunto. "A democracia brasileira precisa ter a absoluta segurança de que isso nunca mais vai ocorrer. E para isso é preciso que as Forças Armadas reconheçam o crime", disse.

O coordenador disse que as Forças Armadas deveriam ter como exemplo a atitude do Papa Francisco, que reconheceu que havia problemas com a pedofilia dentro da Igreja Católica e veio a público afirmar que isso não era doutrina da instituição. "Só assim a sociedade brasileira ficará aliviada e nós superaremos o passado", afirmou.

Dallari também voltou a criticar a falta de colaboração das Forças Armadas e disse que, como a comissão vai deixar de existir a partir do dia 16, o Congresso terá um papel importante na condução do diálogo com as demais instituições.

Generais da ativa e da reserva ouvidos pelo Estado repudiaram o trabalho desenvolvido pela comissão. Militares pretendem fazer leitura atenta do relatório param só então, se manifestar. "Não se trata de defender quem violou direitos humanos. Também não aceitamos isso. Mas a comissão precisava tratar os dois lados de forma imparcial porque, do nosso lado, também houve mortos e direitos humanos são para todo mundo", afirmou nessa quarta o presidente do Clube Militar, Gilberto Pimentel.

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