Conversas telefônicas apontam envolvimento de senador

Conversas telefônicas gravadas com autorização da Justiça apontam o envolvimento do senador Jaime Campos (DEM-MT) - ex-PFL - na quadrilha presa nesta sexta-feira, 20, acusada de grilagem de terras e corrupção. Procurado pelo Estado, Campos negou as acusações e disse que irá se defender na próxima segunda-feira. Duas das envolvidas no esquema, Lucélia Barros Lopes Parreira e Maria de Lourdes Dias Guimarães, citam o nome do senador em diálogos interceptados pela PF. Segundo a gravação, Jaime Campos estaria exercendo tráfico de influência para atender a interesses da quadrilha. Ele é citado como o político forte que teria conseguido "restabelecer" a investigada Helena Jacarandá à frente do Cartório de Registro de Imóveis de Barra do Garças, considerada a sede da quadrilha. A Operação Lacraia realizada pela Polícia Federal prendeu Helena e outras 32 pessoas, entre elas uma funcionária do Incra, Ailda de Deus Silva. No diálogo, colhido pela PF e que compromete o parlamentar, Lucélia pergunta: "Qual será o político forte que...(conversa é interrompida)?". Em seguida, Maria de Lourdes responde: "Ahn?". "O Jaime Campos, que ele é senador. Ele é senador agora, né? Aí, ele que conseguiu", conclui Lucélia. O juiz Julier Sebastião da Silva, da 1ª Vara Federal, que decretou as prisões, encaminhou cópias da transcrição e respectivo áudio ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) porque Campos tem foro privilegiado por ser parlamentar. O senador rejeitou as gravações: "Desconheço essas pessoas. Isso é um absurdo porque querem jogar meu nome na lama", disse. Segundo ele, sua família não tem negócios na região e desconhece a dona do cartório presa, Helena Jacarandá. "Não fui comunicado oficialmente pelo STJ." Fraude Pelo esquema, Ailda de Deus era procurada por integrantes da quadrilha para expedir o Certificado de Cadastro de Imóvel Rural (CCIR). Este é um documento fornecido gratuitamente pelo Incra aos proprietários de imóveis rurais cadastrados no Sistema Nacional de Cadastro Rural. Sem esse certificado, não é possível desmembrar, arrendar, hipotecar, vender ou prometer em venda os imóveis rurais, sob pena de nulidade. "Ela falsificava esse documento convertendo área improdutiva em produtiva para obter financiamentos", explicou o delegado. Em seguida, com a participação da dona do cartório de Barra do Garças, a quadrilha alterava documentos originais, montava registros falsos e duplicava lavraturas. Os fraudadores também utilizavam scanners para copiar assinaturas de terceiros nos documentos que estavam sendo manipulados. Depois de prontos, os papéis eram envelhecidos em fornos microondas, que acabaram substituindo a velha técnica que utilizava caixas com grilos (razão do termo grilagem de terras). "Esse cartório de Barra do Garças era conhecido e procurado por gente de todo o País interessado nesse tipo de fraude", disse o delegado, informando, que a proprietária, Helena da Costa Jacarandá, tentava assegurar na Justiça o direito da sua família para comandar o cartório. Com as escrituras em mãos - em sua maioria eram de propriedade da União ou não existiam fisicamente - a quadrilha negociava cada documento por R$ 5 mil, podendo em alguns casos chegar ao valor de R$ 40 mil. Os pagamentos eram feitos através de depósitos em contas de laranjas, com a finalidade de dificultar o rastreio, concluíram as investigações. Procuradas pelo Estado, as famílias dos donos de cartórios em Barra do Garças e Baliza (MT) não quiseram falar sobre o assunto. Todos os presos estão com os bens indisponíveis e foram levados para a cadeia pública da cidade, distante 500 quilômetros de Cuiabá. Centenas de pessoas estão envolvidas neste tipo de fraude de grilagem de terras da União, crime contra o sistema financeiro e corrupção em vários Estados, informou o delegado responsável pela operação, Eder Magalhães.

Agencia Estado,

20 Abril 2007 | 19h31

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.