Controle da inflação resiste a pressões políticas e torna-se trunfo de petista

Presidente deu respaldo às medidas adotadas pelo Banco Central e bancou permanência de Henrique Meirelles em seus dois mandatos

Rui Nogueira e Renato Andrade / BRASÍLIA, O Estado de S. Paulo

31 Dezembro 2010 | 23h00

O segredo da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que encerra seus dois mandatos com mais de 80% de aprovação, está exposto em uma foto no 20.º andar do Banco Central (BC). Foi feita na festa de fim de ano, no Palácio da Alvorada, em dezembro de 2006, quando Lula aproveitou para agradecer a Henrique Meirelles a ajuda dada à vitoriosa campanha da reeleição.

 

Entre muitos agradecimentos, Lula festejou a contribuição do presidente do BC e disse que Meirelles era o responsável pela "vitória da inflação em baixa e o povo comendo mais e tendo mais emprego". O banqueiro foi aplaudido pelos comensais do salão do Alvorada e, em especial, pela mesa onde estavam, além de Lula, os então ministros Márcio Thomaz Bastos (Justiça), Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais) e respectivas mulheres.

 

Ao longo de todo o segundo mandato, a foto ficou exposta na sala de reuniões do gabinete da presidência do BC como registro daquela noite de agradecimento. Nas políticas públicas do primeiro governo petista, quase tudo é relativo em matéria de educação, saúde ou segurança. Mas a inflação em baixa, com ganhos inéditos de renda, é uma vitória real e dos dois mandatos de Lula.

 

Como coadjuvante, mas não menos relevante, houve a explosão do crédito, que pulou de 23,9% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2002, para quase 50% em 2010. Em cifras, significa que os bancos públicos e privados, que emprestavam R$ 378 bilhões há oito anos, jogam agora na produção e no consumo pelo menos R$ 1,7 trilhão. Na ponta social, a massificação do Bolsa-Família, que alavancou a transferência de renda, completou o tripé da Era Lula.

 

A manutenção da estabilidade de preços é uma extensão das políticas macroeconômicas herdadas do antecessor, Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Mas o governo Lula, ao seguir esses preceitos e escolher Meirelles para o BC, baixou ainda mais a inflação, fez mais poupança fiscal - apesar da gastança e dos truques na reta final para cumprir as metas do superávit primário - e foi mais ortodoxo na manutenção do câmbio flutuante.

 

Carta. Ao contrário do que gostam de apregoar os líderes políticos e porta-vozes do governo Lula, a vitória do ganho generalizado de renda, uma combinação de preços sob controle com mais empregos e políticas sociais, não pode ser creditada apenas a um programa econômico do PT. A raiz desse sucesso é essencialmente política, uma conversão iniciada no fim dos anos 90, com a saída das correntes mais radicais do partido, que culminou na campanha de 2002, quando o então candidato Lula assinou a Carta ao Povo Brasileiro.

 

O documento, publicado em junho daquele ano, foi acompanhado de um frase lapidar e autoexplicativa sobre a essência do futuro governo. "Ninguém precisa me ensinar a importância do controle da inflação", disse Lula.

 

Passando o cenário em revista, Thaís Marzola Zara, economista-chefe da consultoria Rosenberg & Associados, explicita o ponto da conversão que o PT e Lula sofreram. "O entendimento de que a inflação é um dos meios mais perversos de concentrar renda foi a base para garantir que Meirelles tivesse espaço para atuar e para realmente perseguir as metas de inflação", resume a economista. "Isso foi fundamental para o sucesso do governo como um todo. Sem esse controle, Lula não teria a popularidade que tem hoje."

 

Doze anos atrás, na reeleição de FHC e na terceira derrota consecutiva de Lula, o governador eleito do Distrito Federal, o então petista Cristovam Buarque, avaliava que o PT e seu candidato não davam garantias suficientes à população. Ele sugeriu que a equipe econômica tucana da época (Pedro Malan, na Fazenda, e Gustavo Franco, no BC) fosse mantida em caso de vitória e sentenciou: "Se, no governo Lula, deixarmos a inflação voltar, quem não volta ao poder somos nós, pelos próximos 50 anos." Cristovam, hoje senador pelo PDT, estava certo. Em 2006, com inflação abaixo da herdada de FHC, Lula foi reeleito. Em 2010, com inflação ainda mais baixa, Lula fez sua sucessora.

 

Para cumprir a promessa da Carta de 2002 de que o combate à inflação seria "acompanhado de crescimento, geração de emprego e distribuição de renda", Lula forjou uma aliança inesperada. Patrocinou um aperto nas contas públicas no início do governo e chancelou o trabalho de Meirelles à frente do BC.

 

De 1999 a 2002, primeiro período de vigência do regime de metas de inflação, o índice teve variação média de 8,8% ao ano. Passou para 7,8% no s primeiros quatro anos de governo Lula e encerrou o período de 2007 a 2010 em patamar próximo a 5%.

 

Fogo amigo. O presidente que não precisava de ninguém para ensiná-lo sobre os efeitos negativos da inflação teve de "educar" integrantes do PT e de seu governo. Nesse processo, Lula teve de administrar uma guerra de egos e por mais de uma vez defendeu a autonomia do BC, mesmo quando o Comitê de Política Monetária (Copom) definia aumentos politicamente indesejados da taxa básica de juros.

 

Esse espaço de atuação não foi construído sem problemas. Desde que assumiu a presidência do BC, em janeiro de 2003, Meirelles enfrentou ondas de ataques vindos de colegas de governo. Em março de 2007, quando o economista Afonso Bevilaqua anunciou que deixaria o BC, Meirelles foi questionado se não temia ser o novo alvo do "fogo amigo" que havia bombardeado seu diretor. Bem humorado, ele foi direto: "O fogo amigo nunca me abandonou". Nem o reconhecimento e o respaldo de Lula.

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