Contestado, a região Nordeste de Santa Catarina

Nascida da crença de um monge andarilho, a região amarga índices de desenvolvimento semelhantes aos dos grotões nordestinos

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 Fevereiro 2012 | 18h00

A região do Contestado é um Nordeste Brasileiro encravado numa Europa. As cidades onde ocorreram os mais dramáticos combates entre militares e caboclos apresentam índices de desenvolvimento semelhantes aos dos grotões nordestinos. Dos sete mil moradores de Timbó Grande, município em que ocorreu a batalha final de Santa Maria, 44,2% são pobres ou indigentes. Em Calmon, cidade de três mil habitantes, o porcentual é ainda maior, 46,8%. Na capital, Florianópolis, o número de pessoas pobres e indigentes é de 7,9%.

 

 

Em Timbó Grande, 39% das famílias têm renda per capita de até meio salário mínimo, segundo dados do Censo 2010. A média em Santa Catarina é de 13,21%. A desigualdade tem acompanhado o avanço da indústria de pinus no município. Desde que surgiram as plantações no território do município, no começo dos anos 1990, a disparidade entre classes aumentou. A participação dos 20% mais pobres na renda caiu de 2% em 1991 para 0,9% em 2000.

 

A mortalidade infantil em Timbó Grande apresenta números superiores aos registrados em média no Estado. De cada mil crianças que nascem no município, 28 morrem antes de completar um ano, de acordo com o Ministério da Saúde. Em Santa Catarina, são 12 crianças mortas para cada mil. No município de Timbó, o índice de crianças nascidas de mães adolescentes é de 37,7%, um porcentual considerado elevado pelos especialistas.

 

Ilha da pobreza. Pela análise dos números de repasses de verbas públicas, a região do Contestado deverá continuar uma ilha de pobreza no Sul do Brasil. Ao longo de 2011, o governo federal priorizou nas suas ações de melhoria dos índices de desenvolvimento humano as grandes cidades e os municípios médios e pequenos do Vale do Itajaí, do Sul e do Extremo Oeste de Santa Catarina, onde o porcentual de miséria não passa de um dígito. Já os municípios do Contestado, que registram mais de 40% da população na faixa de indigência e pobreza, foram relegados a segundo plano.

 

Nos últimos doze meses, a capital Florianópolis, com 421 mil habitantes, recebeu R$ 224,5 milhões dos cofres de Brasília, o que representa R$ 533 por morador. Em Timbó Grande, onde ocorreu a maior batalha do Contestado, cidade de 7,1 mil habitantes, o governo repassou R$ 431 mil - R$ 60 por pessoa, oito vezes menos que o gasto com o morador da capital.

 

Os números foram obtidos a partir de uma comparação de dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi) e do Censo 2010, do IBGE. Os valores são referentes, especialmente, a repasses para projetos sociais, como o Território da Cidadania, fundos de saúde e ações de segurança pública, urbanização e melhoria de vida de crianças e jovens.

 

Em 2011, Timbó Grande recebeu do governo federal menos, por exemplo, que Ouro Verde. A cidadela do oeste catarinense, de 2,2 mil habitantes, ganhou seis vezes mais, R$ 1,8 milhão, o que representa R$ 855 por morador. A situação é melhor também em cidades do sul catarinense do mesmo porte que Timbó. Praia Grande, cidade de 7,2 mil habitantes, recebeu do governo R$ 2,7 milhões, isto é, R$ 379 por pessoa residente na cidade.

 

Santa Cecília, outra cidade do Contestado, a situação ainda é pior. Com 15 mil habitantes, o município recebeu neste ano R$ 878 mil. O governo federal gastou R$ 55 por cada morador da cidade. Esse valor representa quase três vezes menos que o investido em outros município do Contestado, como Calmon e Lebon Régis - cidades que também receberam menos, em proporção, que Florianópolis. Calmon, com 3,3 mil moradores, recebeu R$ 436 mil (R$ 132 por pessoa) e Lebon Régis, cidade de 11 mil habitantes, R$ 1,1 milhão (R$ 104 por morador).

 

O mito de um monge. Os redutos rebeldes do Contestado se formaram em volta do mito do monge andarilho, que percorria os sertões do Sul do Brasil. Meses depois que o monge José Maria, nome de um certo Miguel Lucena foi morto por tropas policiais do Paraná em Irani, em outubro de 1912, a história de que o religioso ressuscitaria reuniu centenas de caboclos em volta da adolescente Maria Rosa. Ela dizia que teve uma visão e escutou do próprio monge o retorno ao mundo dos vivos, com um exército encantado. Foi o suficiente para comandar os homens guerrilheiros e a ""cidade santa"" de Taquaruçu.

 

José Maria, o monge morto, dizia ser irmão de João Maria, como se apresentava o ex-soldado Anastás Marcaf, um monge desaparecido desde 1908. João Maria que teve um encontro com as tropas do chefe federalista Gumercindo Saraiva. No livro "Os voluntários do martyrio", publicado em 1896, o médico Angelo Dourado, da expedição de Saraiva, relata um encontro com um monge no rio do Peixe.

 

"Aqui começam os domínios de um celebre monge que tem percorrido toda a região missioneira, plantando cruzes em frente das casas, designando árvores, que diz serem sagradas onde os crentes habitantes d´estas regiões vão em certas noites rezar, levando cada qual um rolo de cera que accendam ali", escreveu.

 

O primeiro monge da linhagem Maria no Contestado foi João Maria D´Agostini, um italiano. Na região, ninguém mais soube notícias dele desde 1890. Pesquisas recentes encontraram indícios fortes de que, depois de rodar o continente americano, D´Agostini morreu em Nova York.

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