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Comissão quer que Alckmin afaste delegado

ROLDÃO ARRUDA - Agência Estado

25 Março 2014 | 20h 02

O presidente da Comissão Municipal da Verdade de São Paulo, vereador Gilberto Natalini (PV), anunciou nesta terça-feira que vai encaminhar pedido ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) para que destitua do cargo o delegado Dirceu Gravina, lotado no Departamento de Polícia Judiciária Interior 8 (Deinter 8), em Presidente Prudente, interior do Estado. Segundo o vereador, "não é possível que uma pessoa sobre a qual pesam tantas acusações de torturas continue ocupando um cargo público, numa delegacia de polícia".

Natalini anunciou pela manhã a decisão ao final de uma reunião realizada pela Comissão Municipal. Esperava-se que o delegado comparecesse ao encontro, para falar sobre sua atuação no DOI-Codi de São Paulo nos anos da ditadura, entre 1971 e 1972. Mas ele não apareceu. "Ele aceitou o nosso convite, confirmou a participação por e-mail e chegou a vir até a Câmara. Mas desistiu na última hora", contou o vereador. "Agora vamos pedir à Comissão Nacional da Verdade para que ele seja convocado oficialmente. Nós não temos poder para isso."

Natalini e outros dois integrantes da comissão mantiveram nas imediações da Câmara um rápido encontro com o delegado. Ele disse aos vereadores que pode voltar, desde que seja ouvido em sessão fechada. A sessão desta terça-feira foi pública, com a presença de jornalistas. Na primeira parte dela foram ouvidas duas ex-presas políticas, que relataram ter sido torturadas por Gravina enquanto estiveram presas no DOI-Codi. Uma delas, Lenira Machado, disse que foi torturada durante os 45 dias em que permaneceu na instituição. Descreveu com detalhes sessões com choques elétricos que teriam sido conduzidas pelo delegado de polícia civil.

"Choques elétricos, pau-de-arara e cadeira do dragão eram algumas das especialidades dele na tortura", disse ela. O delegado seria ouvido na segunda parte da reunião, segundo agenda divulgada pela Comissão Municipal.

Não é a primeira vez que ex-presos apontam Gravina como responsável por torturas. No relatório da primeira comissão da verdade que funcionou na Câmara, em 2012, ele já havia aparecido numa lista de "nomes de torturadores". Também foi mencionado no relatório que era conhecido pelo codinome JC, de Jesus Cristo, pelo fato de usar cabelos longos e portar um crucifixo no peito.

Em 2012, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou o delegado pelo sequestro do bancário e sindicalista Aluízio Palhano Pedreira Ferreira, desaparecido desde 1971. Mas o caso não andou. Segundo o defensor de Gravina naquele caso, advogado Paulo Esteves, o crime prescreveu. Ele também afirma que os agentes públicos supostamente envolvidos em crimes nos anos do período militar foram beneficiados pela Lei da Anistia de 1979.

O delegado nega seu envolvimento em casos de tortura. Tem alegado que trabalhava no setor de análise das informações obtidas nos interrogatórios. Integrante dos quadros da Polícia Civil, ele foi requisitado, nos anos da ditadura, para atuar no DOI-Codi, órgão de informação e repressão vinculado ao Exército.