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Comissão da Verdade responsabiliza militares pelo atentado do Riocentro

Roberta Pennafort - O Estado de S. Paulo

29 Abril 2014 | 18h 52

Ação foi 'um minucioso e planejado trabalho de equipe, que contou com a participação de militares, em especial agentes ligados ao Exército e ao Serviço Nacional de Inteligência (SNI)', diz relatório

Rio - A Comissão Nacional da Verdade concluiu que autoridades militares não só sabiam previamente do atentado do Riocentro, que completa 33 anos nesta quarta-feira, 30, como também tomaram medidas para fomentar o caos entre os cerca de 20 mil espectadores dos shows daquela noite - como a desmobilização do policiamento no local, o trancamento das saídas de emergência e, posteriormente, para abafar o episódio.

Atribuída a radicais de esquerda oponentes da ditadura, a ação desencadeada pelo então capitão (hoje coronel reformado) Wilson Machado e o sargento Guilherme do Rosário, que morreu na hora, tinha como objetivo provocar o governo a endurecer o regime, em vez de seguir com o processo de abertura. A dupla levava a bomba no Puma de Machado, mas o que se divulgou à época, cuja versão é sustentada até hoje pelo militar, é que o artefato foi "plantado".

Convocado a depor pela CNV, Machado não compareceu. Caso se recuse, ele poderá ser conduzido à força por policiais federais para prestar esclarecimentos, disse o coordenador da comissão, Pedro Dallari. Em dezembro de 2013, Machado afirmou ao Ministério Público Federal: "Não adianta que não vão me incriminar. Nunca carreguei nenhum explosivo".

Segundo o relatório da CNV , o atentado foi "fruto de um minucioso e planejado trabalho de equipe, que contou com a participação de militares, em especial agentes ligados ao Exército e ao Serviço Nacional de Inteligência (SNI)". Em sua exposição, Daniel Lerner, assessor da comissão, citou o fato de, depois da explosão, ao ser socorrido, Machado ter pedido que se fizesse contato com o comando do I Exército, e não com sua família.

Ele apresentou documentos, desconhecidos até 2012, que pertenciam ao coronel Júlio Molinas, ex-comandante do Destacamento de Operações de Informações (DOI) do I Exército, morto naquele ano. São manuscritos e documentos datilografados que mostram a intenção dos militares que maquiar o episódio.

Lerner falou ainda dos fortes indícios de que havia outras bombas no Riocentro, que não explodiram. "Com as portas trancadas, sem policiamento da PM, por causa de uma ordem partida de Brasília, e uma multidão de 20 mil pessoas, seria uma catástrofe se explodissem".

Sobre o planejamento do atentado, lembrou que dois dias antes do show o comando do batalhão da PM da área foi trocado e que no próprio dia o então comandante da PM do Rio, coronel Nilton Cerqueira, determinou que não houvesse policiamento no local. Cerqueira estava em Brasília na data, o que sugere que teria se encontrado com a cúpula da segurança nacional.

Testemunha do atentado, Mauro César Pimentel depôs à CNV derrubou a versão dos militares. Ele afirmou à comissão que viu os dois militares no Puma com as bombas. Disse também que teme represálias, pois recebeu ameaças por ter quebrado seu silêncio sobre o caso, em entrevista há três à TV Globo.

Ex-PM, hoje um corretor de imóveis de 52 anos, Pimentel contou que está conversando com o governo do Estado sobre a possibilidade de ter segurança pessoal. "Estou assustado com a morte do coronel (Paulo Malhães, que era agente do Centro de Informação do Exército e foi encontrado morto quinta-feira passada). Ele foi algoz; eu, testemunha. Mas se queriam matar 20 mil pessoas, podem matar um. Eu vim aqui para dizer a verdade. Se Machado quiser negar o resto da vida dele, que negue", disse Pimentel disse estar disposto a participar de uma acareação com ele na CNV.