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Com Haddad em baixa, PT recorre a Marta

Ricardo Galhardo - O Estado de S. Paulo

17 Maio 2014 | 19h 00

Reabilitada politicamente, ministra se torna o principal cabo eleitoral de Dilma e Padilha em SP

SÃO PAULO - Preterida pelo PT nas últimas eleições para a Prefeitura de São Paulo e o governo do Estado, a ministra da Cultura, Marta Suplicy, está de volta ao centro da disputa eleitoral.

Com o prefeito Fernando Haddad amargando baixos índices de popularidade e a pré-candidatura de Alexandre Padilha ao governo do Estado ainda longe de decolar, Marta é hoje a principal figura do partido no maior colégio eleitoral do Brasil, depois, claro, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Marta vai ter um papel muito importante na campanha. Neste momento ela é a liderança com mais prestígio que temos na capital”, afirma o presidente estadual do PT, Emídio de Souza.

Ao contrário de outras eleições, como a de Haddad em 2012 – quando ela só embarcou na reta final –, Marta já está integrada ao núcleo central das pré-campanhas de Padilha e da presidente Dilma Rousseff em São Paulo.

Cerca de duas semanas atrás Marta participou de uma reunião com o presidente nacional do PT, Rui Falcão, com Emídio de Souza e com o futuro tesoureiro da campanha de Dilma, Edinho Silva, para definir sua participação.

É pouco provável que Marta acumule formalmente a coordenação da campanha de Dilma em São Paulo com o Ministério da Cultura, mas seu papel será central.

A agenda da ministra mostra que ela tem dividido seu tempo entre Brasília, viagens internacionais e a cidade que governou entre 2001 e 2004. Em março e abril e nos primeiros 15 dias de maio ela esteve 23 dias cumprindo compromissos oficiais em São Paulo.

“Marta já tem participado com a experiência dela de ex-prefeita. Em relação ao transporte público, por exemplo, nossa proposta de ter um bilhete integrado na região metropolitana é baseada na experiência do Bilhete Único implantado em São Paulo”, afirma Padilha.

No PT a fase atual da ministra é vista como uma espécie de retorno de Marta à primeira divisão da política nacional após um período de baixa – foi derrotada por José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (PSD) em eleições municipais, e depois, por decisão de Lula, perdeu as disputas internas com Aloizio Mercadante, para a disputa pelo governo paulista em 2010, e Haddad, na eleição para a prefeitura em 2012.

Com isso, viu seu grupo político evaporar.

Nos últimos meses, Marta se reaproximou de antigos colaboradores dos quais havia se afastado, como o presidente da Câmara Municipal de São Paulo, José Américo. Mas, ao contrário de quando comandou a cidade, evita cercar-se de um novo grupo político.

Outro fator que pesou na reabilitação política da ministra foi a performance à frente da pasta da Cultura. Em menos de dois anos ela reduziu o contencioso com setores da classe artística criado na gestão da antecessora, Ana de Hollanda, e imprimiu suas próprias marcas como o Vale Cultura, o Sistema Único de Cultura, os Pontos de Cultura e os CEUs das Artes.

‘Volta, Lula’. Ironicamente, a volta por cima também acontece pelas mãos de Lula. Nos últimos meses Marta se tornou uma das líderes do movimento “volta, Lula”. Ela chegou a realizar três jantares com artistas, empresários e lideranças petistas para propor uma “reflexão” sobre a viabilidade de o ex-presidente substituir Dilma na disputa presidencial deste ano.

Participaram dos jantares o empresário Joesley Batista, dono da Friboi, o produtor de cinema Luiz Carlos Barreto, o Barretão, a atriz Bruna Lombardi e o ex-ministro da Casa Civil Antonio Palocci.

O “volta, Lula” foi enterrado pelo próprio ex-presidente no 14.º Encontro Nacional do PT, realizado no dia 2 de maio, no auditório do Anhembi, em São Paulo, mas petistas próximos a Lula dizem que as iniciativas agradaram ao ex-presidente.

“Se Lula não tivesse gostado, não teria voltado nos outros jantares”, disse um interlocutor do ex-presidente.

Por outro lado, pessoas próximas a Dilma dizem que o envolvimento com o “volta, Lula” desgastou a ministra com a presidente, menos pela proposta em si e mais pelo fato de Marta ter agido enquanto ainda está no ministério. Entre os críticos da ministra está Mercadante, um dos auxiliares mais próximos de Dilma, que a interlocutores classificou a atuação de Marta como um “tiro no pé”.

Quem viu a reação da presidente ao encontrar Marta no evento do PT, dia 2, não percebeu, porém, nenhum clima de mal-estar. Marta aguardou a chegada da presidente plantada na porta, e recebeu um abraço de Dilma antes de ambas posarem para o fotógrafo oficial do evento. Depois de Lula e da presidente, Marta foi a mais aplaudida pelos milhares de petistas que lotaram o Anhembi.

Naquele mesmo dia ela conversou com o presidente municipal do PT, Paulo Fiorillo, e o vereador Antonio Donato, e se colocou à disposição do partido para cumprir agendas de campanha para Dilma e Padilha na cidade. Orientada por Lula, a ministra prepara encontros da presidente com artistas e representantes da elite paulistana. O objetivo é reduzir a resistência de setores do empresariado a Dilma.