EFE/CADU GOMES
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Classificando posição dos EUA como 'correta', Serra diz que críticas no exterior são 'aparelhadas'

Tucano confirmou estudo para fechar embaixadas e afirmou ainda que passaporte dado a pastor não foi sua decisão

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2016 | 08h12

SÃO PAULO - O ministro das Relações Exteriores, José Serra, minimizou na noite de quinta-feira, 19, a importância da declaração do representante dos EUA na Organização dos Estados Americanos (OEA), favorável à legitimidade do processo de impeachment no Brasil. Segundo Serra, a declaração do diplomata norte-americano foi "correta", mas as contestações ao governo Michel Temer no exterior são "aparelhadas".

Na quarta-feira, 18, Michel Fitzpatrick, representante dos EUA na OEA, disse que há um "evidente respeito às instituições democráticas" no Brasil. Foi a mais enfática declaração de um representante do governo norte-americano sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff."Deram a opinião deles já que está todo mundo opinando. Nós não pedimos que ninguém opinasse mas já que tem países que opinaram. A posição dos EUA é correta. O que eles disseram é correto", disse o chanceler.

Na semana passada Serra divulgou uma nota repudiando declarações dos chefes de Estado da Venezuela, Equador, Bolívia, El Salvador e Uruguai críticas ao impeachment. Nesta quinta-feira, antes de participar de um evento no Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, o ministro adotou um tom mais leve sobre o assunto. "É uma contestação aparelhada, vamos ser francos. É coisa muito localizada e passageira. Está tão óbvio que o que é espalhado lá fora não tem pé nem cabeça que pouco a pouco isso vai passar", afirmou.

Para Serra, o que prejudica a imagem do Brasil no exterior não é o discurso do golpe, adotado por Dilma e seus aliados, mas a situação de penúria financeira do Itamaraty. O novo chanceler disse ter informado o Ministério do Planejamento sobre a necessidade de saldar dívidas em atraso tanto nas embaixadas brasileiras no exterior quanto em organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo Serra, o auxílio moradia dos funcionários de embaixadas está atrasado há quatro meses e se o Brasil não pagar a anuidade na ONU até fevereiro será proibido de votar.

"O governo passado deixou o Itamaraty na penúria completa. Parou de pagar instituições internacionais. Na ONU cada membro tem que pagar. Deixou de pagar. Se o Brasil não pagar a partir de fevereiro nós não votamos mais na ONU. Isso vale para muitas outras áreas. Então precisamos fazer um planejamento e gradualmente ir eliminando estes atrasos porque isso não pega bem para o Brasil. Do ponto de vista da imagem isso sim seria comprometedor", afirmou.

Serra confirmou ter pedido um levantamento sobre custos das embaixadas do País no Caribe e na África e admitiu a possibilidade de fechar algumas delas para reduzir custos. "Pedi um estudo para o Itamaraty. Foram criadas mais de 40, sem contar consulados. Algumas em lugares que tem 20, 30 mil habitantes. Por exemplo, no Caribe de fala inglesa tem mais embaixadas do Brasil do que da Inglaterra. Tudo isso custa e precisa ser confrontado com o proveito que se tem. Em nenhum lugar o Brasil vai ficar desassistido", disse ele. 

Passaporte. Indagado sobre a concessão de passaporte diplomático ao pastor Samuel Ferreira, investigado na Operação Lava Jato, o ministro disse ter sido surpreendido pela notícia pela imprensa e que a determinação não passou por ele. 

"Se convencionou há muitos anos que a Igreja Católica teria direito a dois passaportes. Depois outras igrejas reivindicaram e não cabe a nenhum governo julgar se uma Igreja é melhor do que a outra. Eu nem tinha conhecimento. Isso vai no piloto automático", disse Serra.

Partidário. O ministro voltou a criticar a partidarização das relações diplomáticas brasileiras durante o governo petista e negou que ele próprio é quem esteja dando contornos ideológicos à ação do Itamaraty. Serra disse que isso não seria do seu "estilo". 

"Que eles partidarizaram não tenho a menor dúvida agora dizer que eu estou partidarizando é ridículo. Até porque estou faz uma semana. Não há um indício sobre isso, não é o estilo, não é meu estilo, não é o estilo do governo. A gente sabe quem gosta de aparelhar", afirmou.

Um dia depois de defender a flexibilização das normas do Mercosul para que os países membros possam celebrar acordos de livre comércio bilaterais sem a necessidade de concordância de todos os demais, Serra disse que vai viajar pelos países que compõem o bloco e em seguida vai se dedicar às nações que integram a Aliança do Pacífico (Chile, Colômbia, México e Peru), que já possui regras mais flexíveis do que as do Mercosul. 

"Temos que por atenção na Aliança do Pacífico para não ter um novo Tratado de Tordesilhas dividindo a América do Sul em Leste e oeste. Logo depois de visitar os países do Mercosul vou visitar os países da Aliança do Pacífico. Trabalhamos também no sentido de fazer uma aproximação econômica com a Aliança do Pacífico porque o Mercosul é uma zona comercial mais profunda porque ele implica não só em uma aliança de livre comércio internamente mas também em uma política comercial igual para todos os países em relação ao resto do mundo. Na Aliança do Pacífico é só livre comércio dentro dela. Em relação ao resto do mundo cada um faz como quer", afirmou.

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