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Chegou a vez na fila

PEDRO VENCESLAU, DÉBORA BERGAMASCO - O Estado de S.Paulo

06 Julho 2014 | 02h 05

Dos conselhos sobre 'mais cabelos brancos e uma primeira-dama para assentar' à incorporação do discurso que assume as políticas de Fernando Henrique

Poucos dias depois do 2.º turno das eleições municipais de 2012, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chamou o senador Aécio Neves para uma conversa reservada em seu apartamento em Higienópolis, bairro nobre na capital paulista.

Ainda abatido pela derrota do ex-governador José Serra na disputa com Fernando Haddad (PT) pela Prefeitura, ele avaliava, como boa parte do partido, que a candidatura presidencial tucana de 2014 tinha de ser colocada na rua imediatamente. FHC defendia a tese de que os tucanos não podiam abrir brechas para uma disputa interna fratricida como a que ocorrera em 2009, quando Serra e Aécio travaram uma guerra fria que atrasou as articulações com outras legendas, a formação de palanques e a captação de recursos.

Márcio Fernandes/Estadão
Após assumir o comando partidário, o senador mineiro se empenhou em cativar a ala "serrista" do PSDB

Naquela altura, Aécio já estava se movimentando intensamente pelo País e era apontado pelas bancadas do PSDB no Congresso como um candidato natural, mas ainda não contava com a bênção do poderoso braço paulista do PSDB. Os paulistas, que prevaleceram na escolha de todos os candidatos presidenciais tucanos desde 1989, questionavam se o mineiro estaria disposto a encarnar o figurino de opositor frontal ao PT, postura que Aécio evitava adotar quando governava Minas Gerais.

Questionava-se também se o senador mineiro iria calibrar sua "paixão pela vida" para se dedicar ao projeto de ser presidente do Brasil. Mesmo no posto de governador de Minas, Aécio era sempre visto nos fins de semana em festas no Rio, onde tem casa e mora sua filha, Gabriela. Divorciado havia 16 anos, costumava desfilar com namoradas-celebridade, como atrizes e modelos. A dúvida dos tucanos era se Aécio seria capaz de abdicar da vida festiva e incorporar o papel de "homem sério de família".

Aceita. Credita-se ao publicitário Nizan Guanaes a frase proferida anos atrás de que, para ser presidente, Aécio precisaria de "mais cabelos brancos e uma primeira-dama para assentar". Em abril do ano passado, durante conversa com o Estado, Aécio foi indagado se pretendia se casar antes das eleições. Ele riu e negou, explicando que nunca precisou posar ao lado de uma esposa para ser eleito duas vezes governador nem para conquistar uma cadeira no Senado. Seis meses depois e após cinco anos de namoro, o mineiro casou-se com a modelo gaúcha Letícia Weber, em cerimônia discreta no seu apartamento na zona sul da capital fluminense. No início de junho nasceram os filhos gêmeos do casal.

"Aécio, é sua vez. Mas existe a dúvida no partido se você estará disposto a se adaptar e se doar por completo para ser o nosso candidato. E essa incerteza não pode existir", ponderou o ex-presidente na conversa em São Paulo, há quase dois anos. O pré-candidato respondeu que sim e afirmou que faria de tudo para dirimir as dúvidas sobre seu empenho na missão. "Então se prepare, porque você será o nosso candidato e eu estarei com você", disse o ex-presidente.

Alguns dias depois, FHC convocou outra reunião em seu apartamento. Dessa vez, foram convidados também o então presidente do partido, Sérgio Guerra - que morreu em março deste ano -, o ex-governador cearense Tasso Jereissati e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que era apontado então como o único potencial nome com poder de fogo para lutar pela vaga presidencial. "Geraldo, você quer ser o candidato a presidente? Porque se você me disser que quer, eu abandono agora as minhas pretensões e apoio o seu nome", afirmou o mineiro, que já sabia qual seria a resposta. O governador disse que tentaria a reeleição ao governo de São Paulo.

Uma terceira reunião no mesmo local, essa apenas com a presença de Guerra, FHC e Aécio, definiu que o mineiro assumiria a presidência nacional do partido para ter mobilidade e poder fogo na construção dos palanques estaduais.

Foram esses três encontros que selaram a candidatura tucana. Apesar de ser apontado como um nome natural depois de ser eleito senador e fazer seu sucessor em Minas, Aécio costumava dizer aos aliados que não pretendia repetir a desgastante e fracassada disputa que havia travado com Serra em 2009.

Na época, quando exercia seu segundo mandato de governador, o mineiro procurou rivalizar internamente com Serra, adotou o discurso em defesa das prévias no partido e conseguiu dividir espaço com o paulista no noticiário, embora este contasse com apoio majoritário na legenda. Levou a disputa no PSDB até onde deu, mas alcançou seu principal objetivo: passou a ser visto como o próximo da fila. Mas aprendeu que, sem o apoio dos paulistas, jamais seria candidato à Presidência.

Em 2010, Aécio se lançou ao Senado. Eleito, demorou mais de um ano para protagonizar sua primeira ofensiva contra a presidente Dilma Rousseff na tribuna da Casa. Mas já em abril de 2012 mirou seus ataques na capacidade de gestão da petista, criticando o baixo crescimento da economia e o aparelhamento da máquina pública.

Assume. Com a bênção de FHC, Alckmin e Sérgio Guerra, Aécio passou então a formatar a nova direção executiva do PSDB, que seria eleita em maio de 2013. O primeiro a ser procurado foi Serra, seu antigo desafeto. As rusgas entre eles precedem a disputa interna de 2009. Serristas contam que o ex-governador paulista acusa Aécio de ter abandonado as candidaturas dele ao Palácio do Planalto em 2002 e 2010. E pior: de ter ajudado informalmente os petistas nas duas ocasiões.

Em um jantar em São Paulo, Aécio perguntou a Serra, segundo aliados do ex-governador paulista, quem seriam seus indicados para a executiva e se ele tinha interesse em assumir a presidência do Instituto Teotônio Vilela, entidade ligada ao partido. Ouviu que o cargo não interessava, mas recebeu duas "sugestões" de nomes: o ex-governador Alberto Goldman e o deputado Antonio Carlos Mendes Thame, seus aliados históricos. A dupla foi acolhida na direção do partido e Aécio aclamado presidente da legenda sem nenhuma resistência.

Cativa. Depois de assumir o comando partidário, o senador se empenhou em cativar a ala "serrista" do PSDB. Até uma reforma foi feita na sede nacional do PSDB para abrigar a nova direção - Mendes Thame ganhou uma sala para despachar. Daquele momento em diante, Aécio passou a dedicar boa parte de sua agenda à montagem de uma estrutura em São Paulo independente do governador Alckmin, que nunca manifestou a menor empolgação com a candidatura presidencial do correligionário.

Aliados de Alckmin ouvidos pelo Estado classificam a relação dele com Aécio como cordial, porém absolutamente fria. A ala "alckmista" do PSDB reclama que o senador abandonou a candidatura presidencial do atual governador em 2006 e, pior, incentivou o movimento que ficou conhecido como "Lulécio" (o voto casado em Luiz Inácio Lula da Silva para presidente e em Aécio para governador).

"Ele (Aécio) se aproximou da base do partido em São Paulo, mapeou as lideranças do interior e criou uma grande rede de aliados no Estado", reconhece Felipe Sigollo, membro da executiva do PSDB paulista e alckmista de primeira hora. "Com habilidade, ele conquistou as principais lideranças do interior do Estado", completa.

Foi Fernando Henrique quem sugeriu que Aécio recrutasse um exército para a missão de conquistar o intransponível interior paulista. O escolhido para arregimentar a tropa foi João Cury. Com 40 anos, o jovem prefeito de Botucatu é também presidente do secretariado de prefeitos do interior do PSDB paulista. Numa manhã de maio de 2013, ele foi surpreendido com um convite de Aécio para um almoço no tradicional Ici Bistrô, em Higienópolis. Ao chegar ao local, encontrou um terceiro convidado à mesa: o ex-presidente FHC. "Aécio queria conhecer o partido e a organicidade do PSDB no interior. Mostrei a um mapa com uma mancha onde estavam as 180 prefeituras tucanas. Traçamos então um roteiro de 16 viagens", conta Cury.

O périplo começou em agosto de 2013, com uma visita a Barretos. O senador foi recebido com fogos, carregado por militantes e discursou para correligionários depois de posar para fotos montado em um cavalo. Esse foi o início oficial da pré-campanha. Em outra frente, Aécio dedicou-se a conquistar o apoio dos tucanos em todos os Estados, "step by step (passo a passo)", como explicou o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB). "O Aécio já havia percorrido o Brasil para apoiar a candidatura de prefeitos do PSDB. O cara nunca esquece um apoio desses, quando está na 'baixa'. Em toda viagem, ele se coloca à disposição do líder local. Chega e pergunta: 'O que você quer que eu faça?' Sai colecionando apoiadores, é óbvio."

O senador José Agripino, presidente do DEM e coordenador político da campanha de Aécio, conta que nenhum outro presidenciável tucano atuou tão intensamente no varejo político. "Ao longo de mais de um ano, o Aécio se aproximou das lideranças e facções de todos os Estados. Aliança é algo que se matura antes. Serra não teve a mesma oportunidade porque não era presidente do partido", diz.

Inicia. Aécio começa hoje a campanha depois de ter conseguido, na avaliação de seu entorno, alcançar as metas traçadas na da pré-campanha. Inicia no patamar dos 20% das intenções de voto e com viés de alta. Gerou, portanto, expectativa de poder. Politicamente, fincou o pé em São Paulo e engajou os 27 diretórios no seu projeto. Além disso, atraiu para seu palanque parte considerável do PMDB, além de caciques regionais do PP, PSD e até mesmo do PC do B (no Maranhão). Por outro lado, não conseguiu converter esse poder de fogo em tempo de TV. O senador terá menos da metade do tempo de Dilma: 4min33s, contra 11min21s da presidente. Mesmo cercado de aliados paulistas - seu vice será o senador Aloysio Nunes Ferreira - e nordestinos, caberá a um mineiro, o marqueteiro Paulo Vasconcellos, responsável por todas as campanhas de Aécio até hoje, comandar no território do palanque eletrônico a batalha mais importante dos próximos três meses.

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